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Nhô Quim fere Fantasma no Osvaldo Scatena / futebol, Campeonato Paulista, Batatais, Série A3

Renato Alessandro dos Santos

A julgar pelas duas perguntas, podia até parecer que o jogo não estava bom. “O Batatais está de preto ou de vermelho?” Eram 34 minutos do primeiro tempo. “Quem está ganhando?”, foi a pergunta seguinte. Fazia quase dois anos que Théo & eu não íamos ao estádio Osvaldo Scatena ver o Batatais jogar. 10 horas da manhã é um horário muito bem pensado para uma partida de futebol. Há pouco tempo, com a maioria dos jogos marcados para as 16 horas de domingo, deixamos de ir ao estádio. Sabe como é: depois do almoço e da pestana, sempre há um bom jogo na TV, cervejinha, acepipes e, com isso, como dirigir um carro? Como ir a pé até o outro lado da cidade? Bem que poderia, afinal, Batatais não é uma cidade grande. Também não era o caso de beber e dirigir - até porque nem ando apreciando sem moderação muita coisa além de água, ultimamente (sei). Na verdade, o problema era a velha preguiça mesmo. Todo domingo à tarde, a televisão exerce um poder hipnótico sobre aqueles que ouvem a voz de Cléber Machado, lembrando que o futebol é algo imprescindível na vida de uma pessoa. Não é o caso de Théo. Para uma criança de nove anos não muito desperta para o futebol, o melhor que Batatais e XV de Piracicaba podiam oferecer, nesta manhã fria de domingo, eram os pedacinhos de bacon que encontrou nos três saquinhos de pipoca que comeu durante o jogo. E o resultado não foi bom para o Batatais Futebol Clube: o XV de Piracicaba venceu o jogo por 1 a 0.

A partida

O Batatais começou envolvendo o XV de Piracicaba, mas nenhum dos dois times realmente ofereceu perigo aos goleiros - ao menos até os 22 minutos do primeiro tempo, quando um jogador do Nhô Quim chutou a bola na trave, por cobertura, para sorte do goleiro Fabrício. Três minutos depois, num chute cruzado, a bola passou perto da trave esquerda, para desespero do técnico Lelo, do XV de Piracicaba, que, possuído, esbravejou com o time na lateral do campo. A blusa de náilon cinza que usava foi o bastante para os torcedores do time da casa chamarem-no de Bujão de gás, além de outros impropérios. “Fica quieto, ô bujão de gás!”, gritou alguém; “Vai para a #%#$$#, Lelo filho da &#%@”, gritaram outros torcedores mais afoitos. Perto de mim, José Luiz Liberato, 51, que assistia ao jogo com seu filho, André Luiz, 31, não se conformava. “25 minutos e o Batatais não chutou ao gol ainda!”, lamentava. Quatro minutos depois, finalmente, um chute de fora da área. Era a vez do Batatais oferecer perigo ao goleiro do Nhô Quim. Quase. Mas até aí, nada de gol. Aos 31, outro chute forte do time da casa, cruzado, passou ao lado da trave esquerda, assustando o goleiro do time visitante. Por essa altura, José Luiz acabava de ouvir no rádio que Rubens Barrichello estava quase para ganhar o GP da Europa de F-1. Aos 35 minutos, Evandro afastou da área do Batatais e, até o fim do primeiro tempo, o resultado não sairia do 0 a 0. Já em Valencia, na Espanha, Barrichello conquistava sua décima vitória e, como bônus, a centésima do Brasil na Fórmula 1.

O segundo tempo

Aos 7 minutos, Morais, o camisa 4 do Batatais, acertou uma bola no travessão. Sim, como tem de ser, a torcida veio ao delírio. Dois minutos depois, Evandro, camisa 7, caiu na área, mas o juiz não se deixou convencer pela atuação e não marcou pênalti, para desespero da Torcida Unida do Fantasma (TUF), que do outro lado do estádio, com entusiasmo, apoiava o time com percussão, coreografia e tudo. O Batatais voltava melhor para o segundo tempo, envolvendo os jogadores do XV de Piracicaba, mas para azar do time da casa, aos 22 minutos, numa bola por cobertura, e numa saída ruim do goleiro Fabrício, Douglas abriu o placar para o Nhô Quim.

Sem jogar a toalha, o Batatais ainda tentou alguma coisa, mas não houve o que fazer, uma vez que o gol de empate nem de longe parecia possível. A melhor chance para o Fantasma ocorreu aos 38 minutos, quando um jogador conseguiu o mais difícil: a dois metros do gol adversário, ele chutou a bola no travessão! Como assim?! Tudo bem que o goleiro e os zagueiros estavam a roçar cotovelos ali com ele, mas o gol estava escancarado a sua frente. Nos acréscimos, o juiz expulsou um jogador do XV de Piracicaba, mas já não dava tempo para mais nada. Derrota do Batatais Futebol Clube, para desalento de quem esperava ao menos o gol de empate. “A próxima a gente ganha, papai”. Pronto. Eis a solução: se o filho palmeirense não pode torcer para o Santos, ao menos, com o Batatais, estamos juntos para o que der e vier.

Fantasma

O Batatais não jogou mal. Foi a impressão que ficou para os torcedores que foram ao estádio Osvaldo Scatena. Não jogou mesmo. O técnico Ivair dos Santos tem uma equipe formada por bons jogadores. Se eu entendi bem, o esquema foi o 3-5-2 ou 4-4-2. Não sei ao certo. Nunca consigo entender essas coisas. Mas sempre ficavam dois atacantes esperando por algum Deus Ex Machina que lhes desse a bola nos pés, aguardando o rebote, ou esperando Godot, enfim. Não deu certo. Mas gostei do ritmo de jogo do Batatais, que tentou e tentou, mas não conseguiu ferir o XV de Piracicaba. E como disse mestre Ronaldo, “é preciso ferir” o outro time, senão... Mas nem tudo está perdido. Ainda. Na próxima rodada, o Batatais vai a Ribeirão Preto jogar com o Botafogo, enquanto o XV de Piracicaba recebe o Comercial. Mesmo com a derrota, valeu a pena prestigiar o Fantasma da Mogiana no Osvaldo Scatena.
 

23/08/2009