)Cinema(

Apenas uma vez: uma história de amor (à música) / When your mind's made up, Apenas uma vez, Once, Falling slowly

Renato Alessandro dos Santos

É um filme daqueles que raramente caem em suas mãos. Faz algum tempo, Luiz Carlos Merten escreveu que Apenas uma vez (Once, Irlanda, 2006) ganhava o público pela franqueza e talento de Glen Hansard. O crítico de cinema do Estadão tinha razão. É um filme de uma simplicidade absurda e que conta também com Marketa Irglova no papel de uma imigrante tcheca que vende rosas e revistas nas ruas. Hansard interpreta um sujeito que vive a cantar e tocar violão em Dublin, em troca de moedas. Ele trabalha com o pai, consertando aspiradores de pó, mas são a voz, o violão e o amor pela música desse trovador moderno que alcançam o espectador, colocando-o diante de um filme visceralmente pop, afetivamente desperto por dias e dias na memória. Depois dos festivais de cinema, Apenas uma vez ganhou o mundo e, principalmente, o Oscar de 2008 de melhor canção para “Falling slowly”, que no filme é interpretada pelos dois, piano e violão em lamento, enquanto as vozes translúcidas de Glen e Irglova despertam uma história de amor que poderia ser a de qualquer um.

Tudo começa em uma rua, numa fria noite irlandesa. Um talentoso artista esgoela suas canções; cada uma delas é o que ele tem de mais importante a dizer sobre traição, dor e a solitude que é a vida num domingo à tarde. Após receber uma moeda de dez centavos pela canção que acabara de tocar, ele agradece à garota a sua frente, ironicamente, por ter recebido tanto. Ela se ofende. Arrependido, ele desculpa-se e logo em seguida começam a conversar. Gostou da canção que acabou de ouvir. Diz que sabe tocar piano; o pai a ensinou. Ele fala sobre os aspiradores de pó. “Meu aspirador está quebrado”, ela diz. “Posso trazê-lo amanhã pra você consertar?”. Está radiante. Ele não tem como recusar. Impaciente, quer voltar ao violão. Despedem-se. Pronto. Não estavam mais no mesmo lugar. Era o primeiro passo. Ele e ela não têm nome na história contada no filme. 

Na manhã seguinte, ela chega com o aspirador. O músico não se compromete a consertá-lo ali. Os dois vão comer alguma coisa. Pelas ruas, a garota leva o aspirador de pó, puxado pela tromba, como um elefantinho cheio de poeira e poesia. Marketa tem olhos de mangá, imensamente tristes e sinceros, além de uma humildade comovente. Ela gostaria de se dedicar mais ao piano, mas não tem dinheiro. Os dois vão a uma loja de instrumentos musicais, único lugar onde toda semana ela pode dedilhar o teclado de algum piano à venda. Começa a tocar uma das canções sem palavras de Mendelssohn. As pequenas mãos dedilham com delicadeza as teclas do piano. Ela propõe que os dois toquem juntos uma das canções compostas pelo músico de rua. É um grande momento do filme. É “Falling slowly” . Enquanto ensaiam por segundos, a câmera começa a registrar o processo de criação dos dois. São almas que se entendem. Os primeiros acordes são executados e, juntos, piano e violão passam a conversar como velhos conhecidos. Falam de solidão. É uma história triste, mas a música a torna especial. Ao final, embevecidos, poderia parecer que ele & ela acabaram de fazer amor, mas fizeram apenas música.

Em Apenas uma vez, mais do que o amor, é a amizade entre duas pessoas que está em jogo aqui. Os dois estão presos a relacionamentos que não deram certo, mas que ainda não terminaram. Ele, traído pela garota que ainda ama; ela, casada com um sujeito que ficou no leste europeu e que é o pai de sua filha. Sozinhos, mirando o horizonte de Dublin, referindo-se ao marido, o músico diz: “como se pergunta ‘você ainda o ama’ em sua língua?”. Ela responde alguma coisa que ele não entende, deixando o músico, e o espectador, sem saber o que ela disse a respeito do marido. Mesmo na versão dublada, o áudio original é mantido, ou seja, se você não fala tcheco não vai saber o que ela disse. Eis aí um bom motivo para se aprender a língua que, ensina o Google, não foi o primeiro idioma falado por Kafka.

De repente, Londres. Ele quer partir em busca da namorada e apostar em sua carreira como músico. A garota recebe a notícia e... fica feliz por ele. Mas antes, ele quer gravar as canções que compôs. Os dois alugam um estúdio para o fim de semana e saem em busca de músicos para a gravação. Nas ruas, encontram um baixista, um guitarrista e um baterista; a maior influência dos três é Ted Nugent. Ted Nugent não estava nos planos, mas os cinco topam gravar juntos mesmo assim. Ensaiam numa única noite e, no dia seguinte, entram no estúdio. Nunca ninguém havia gravado nada. O engenheiro de som, a princípio, os trata com um desdém absoluto, que dura até os primeiros acordes de “When your mind’s made up” - canção que é interpretada com concentração e entrega que transbordam pela tela, preenchendo todo o estúdio (veja no vídeo abaixo). A câmera flagra a expressão introspectiva no rosto de Hansard, enquanto Irglova e toda a banda seguem-no com devoção. É outra canção de amor registrada com maestria. Chega o fim da gravação. Estão exaustos. Está amanhecendo e todos, banda e engenheiro de som, vão até a praia. Ele e ela ficarão juntos? É o que você precisa descobrir, assistindo a Apenas uma vez.


"Músicos no lugar de atores

Glen Hansard e Marketa Irglova não são atores profissionais. Na verdade, ambos são músicos. Mas antes de Apenas uma vez, ele atuou no festejado The Commitments – loucos pela fama, de Alan Parker. O talento musical de Hansard faz com que ele e sua carismática banda The Frames tenham um público cativo. Talvez esteja aí um dos acertos do diretor John Carney: ao optar por músicos em vez de atores, criou uma obra que alia música e cinema em um filme que leva o espectador ao interior de uma canção, especialmente, pela casualidade do enredo, que soube abordar o que pode ocorrer na vida de duas pessoas, quando elas, ao acaso, se encontram. Apenas uma vez é a história de um homem e uma mulher que se amparam um no outro. Se García Lorca tinha el fuego en sus manos, no filme, os dois têm a música nas mãos. “É singelo, ou parece singelo”, disse Merten. “Na verdade, é mais rico do que parece. Você vai gostar ainda mais dele por isso”. É um filme para se ver e ouvir e para ser apresentado aos amigos e, principalmente, aos filhos dos amigos: com 15 anos, eles ainda não compreendem muito bem que a música é a cereja em cima do bolo.
 

  • 94_01-glen_hansard_and_marketa_irglova-falling_slowly.play

20/08/2009