)Música(

Pela manhã, é sempre um novo dia / Phoenix, The Duke spirit, Isis, Wilco, Gustaf Spetz, Lourenço Mutarelli, St. Vincent, Japandroids

Renato Alessandro dos Santos

É possível encontrar novas bandas toda vez que se liga o computador à Internet. Para muita gente, ouvir um mesmo álbum muitas vezes parece coisa de outra época. Nada contra os clássicos de todos os tempos, que sempre têm lugar cativo nos alto-falantes aqui de casa, mas a oferta é tão grande que fica a pergunta: o que ouvir? Desde que a Internet invadiu nossas vidas, há de tudo, e ter tudo nunca é bom.

Desde o início das férias de julho – em meio aos arquivos baixados com mais e mais canções - alguns álbuns não param de ser ouvidos aqui em casa: o apurado Actor, de St. Vincent; o último de Wilco (Wilco: the álbum); o radiante Good night, Mr. Spetz, de Gustaf Spetz; Wavering radiant, de Isis; Post-Nothing, de Japandroids; The Duke spirit, banda da loirinha aí ao lado, e Wolfgang Amadeus Phoenix, do Phoenix. Sete álbuns. Quando era adolescente, levava meses para comprar sete discos de vinil. Em 1989, a MTV ainda não existia no Brasil, mas era possível comprar Creatures of the night, do Kiss, em fita K7. Vinte anos depois, em 2009, de certa forma, fitas K7 não existem mais.

E hoje? Não vou mais para o céu se continuar baixando álbuns pela Internet? Claro que adoraria comprar um monte de CDs de bandas que gosto, mas o mouse parece se mover sozinho e, quando me dou conta, mais um arquivo surge do nada, como encantamento. Para muita gente, é o que vem acontecendo há alguns anos. Nas gravadoras, quando linhas descendentes começaram a cair pelos gráficos, em algumas salas de reunião com ar-condicionado, muita gente graúda olhou com desprezo para aquilo. Mas as vendas caíram mesmo e, hoje, se o formato CD ainda resiste, a pergunta é: até quando? Particularmente, ter CDs de bandas que fazem a trilha sonora de nossas vidas é uma ideia atraente. Aqui em casa, as caixinhas dos CDs estão em ordem alfabética – POR BANDAS – na estante, como as simpáticas pastas amarelas de arquivo, no computador.

Wilco: the album

Das sete bandas novas, só conhecia Wilco, que nem é nova. Falando como Mestre Yoda: “Os discos do Wilco, em meu computador, todos tenho”. Mas nenhum CD. É uma vergonha, eu sei. Wilco, por semanas, faz funcionar o Windows Media Player, contrariando meu incontrolável desejo de sair em busca da próxima promessa, numa longa jornada internet adentro. Em uma primeira audição, Wilco: the album pode sugerir que alguma coisa não está OK no computador dos caras. Foi essa a impressão que ficou para muita gente. De Rolling Stone à Noize, pouca gente gostou. Para Tertúlia, os meninos não decepcionaram. Tanto. Trata-se de registro a ser escutado aos poucos, com o tempo a dar suas voltas, enquanto o álbum vai fazendo sentido, música após música. Neste último trabalho, tentando superar velhos acordes de um passado ainda recente, eles procuraram mais uma vez criar um disco capaz de pegar uma pessoa pelos ouvidos e não largá-la mais, por um bom tempo. Mas depois de álbuns como Yankee hotel foxtrot e Kicking television: live in Chicago vai ficando cada vez mais difícil superarem a si mesmos.

Fica então a compreensão. Das coisas. Lourenço Mutarelli disse ao Tertúlia algo muito interessante: um álbum é o registro do trabalho na vida de uma banda; a despeito da recepção que ela terá como resposta, o céu ou o inferno, é o que foi capaz de fazer naquele momento de sua carreira. O que Mutarelli quis dizer tem a ver com o último álbum de Wilco, mas ainda mais acerca do universo nem sempre iridescente das bandas de rock’n’roll que ouvimos. Pensando dessa maneira, as coisas fazem sentido. É o que ocorre quando se ouve atentamente as canções que mais alto voam em Wilco: the album, como “Bull Black nova”, “You never know” e “Wilco the sound”. Pergunta: três músicas valem um Chevrolet? Talvez sim; talvez não. Mas as demais canções de Wilco: the álbum não são de se jogar fora. Não mesmo. Juntas, formam o último álbum de Wilco. Não é pouco. Não mesmo. Por isso, um brinde a vocês, rapazes: é sempre bom tê-los de volta.

Good night, Mr. Spetz

Dos álbuns que agarram os ouvidos, dentre esses sete discos, impossível não pensar em Good night, Mr. Spetz, uma das grandes apostas na corrida a melhor álbum de 2009, se é que se pode precisar algo assim. Good night, Mr. Spetz, de Gustaf Spetz, é musicalmente muito bem feito. Texturas, idílio, a ponta dos dedos a deslizar suave sobre a fazenda de tecido mais sutil. Faixas com arranjos que se sobrepõem em camadas, como se cada instrumento soubesse o que dizer na hora certa. “Golden feathers”, a canção primeira, alinha em tom épico piano e guitarras ensurdecedoras. É só o começo, e começa muito bem. Gustaf Spetz é um sueco pouco conhecido ainda, mas que está prestes a, naquele morrinho ali, encontrar seu lugar ao sol. Não é pouco, mas é pouco para Gustaf Spetz. Não porque a voz do sujeito soe límpida, chegando até ao falsete, que parece nunca ter saído de moda no mundo da música, mas porque o álbum Good night, Mr. Spetz é um ponto luminoso na carreira do músico. Se Tostão ouvir o álbum, provavelmente, vai dizer que é “fantasista”, como disse certa vez a respeito da epifania ludopédica de Romário.

E se Good night, Mr. Spetz fosse um time de futebol, seria muito bem armado. Na defesa, “Every Word I know” e “Burn it, crush it, smash it”, duas canções nem um pouco truculentas, mas sutis - com toda sua leveza –, atuando como laterais que dançam conforme a música; o meio-campo peca por alguns ajustes, mas não compromete (“Hold me like you used to”, “Restless” e “Lava”), até porque está bem tecnicamente (“You and me”, “Drifting away”). “Dewdrop”, o atacante, mata os acordes no peito, para fazer um belíssimo gol de cobertura. Belíssimo. Belíssimo. Vale um terno com um girassol na lapela. Enquanto “Feel no fear” agoniza do início ao fim, não atravessando um bom momento, a camisa 11, a última faixa (“Starting again”), entoa o canto de cisne que, definitivamente, faz de Good night, Mr. Spetz um álbum que ganha pela coesão e uniformidade, como se onze canções formassem um time de futebol em boa fase, capaz de deixar seus torcedores estupefatos e cheios de orgulho.

Wolfgang Amadeus Phoenix

Phoenix é a banda do marido de Sofia Coppola. É uma informação inútil, eu sei, mas ser casado com a diretora de Encontros e desencontros, Virgens suicidas e Maria Antonieta, conta muito a favor de Thomas Mars, o mancebo. Phoenix nasceu em Paris em 1995; quatro álbuns depois, a banda chegou aqui em casa. Wolfgang Amadeus Phoenix é o nome do último disco. Tem pegada pop em todas as faixas. Em certos momentos lembra Rogue Wave, Clap your hands say yeah e outras bandas que nem todo mundo ouviu falar, mas que merecem ser levadas para passear num sábado à noite. Começa com “Liztomania” e descobrimos que não será difícil gostar de Phoenix. “1901”, a faixa dois, escreve aí, é uma das grandes canções do ano. O espírito, como uma bolacha cream cracker com asas, fica a pular de alegria, para cima e para baixo, distribuindo seu peso entre um pé e outro. Se você ligar o rádio do carro e estiver tocando “1901”, não se surpreenda por ouvi-los em freqüência modulada, porque é canção que faz rodopiar a moringa dos programadores de rádio. Enquanto “Fences” parece uma faixa do Air, banda francesa a quem Phoenix serviu de apoio em alguns shows, “Love like a sunset” espraia-se em belos arranjos climáticos e espaciais para, no meio do caminho, encontrar um pôr-de-sol acolhedor; são 7 minutos e 37 segundos com os músicos a executar uma canção cativante. “Lasso” é outro ponto luminoso do álbum. “Rome”, “Countdown (sick for the big Sun)”, “Girlfriend” e “Armistice”, as faixas finais, mostram Phoenix como uma banda a se prestar atenção, com os instrumentos a pulsar cheios de energia, em certos momentos, mas amistosos em outros, o que não é bom, pois o jogo ainda não está ganho para eles. Wolfgang Amadeus Phoenix, por seu frescor, merece os ouvidos de quem está disposto a conhecer uma banda que tem uma carta na manga. Não por acaso, a capa do álbum é cor-de-rosa, mas com bombas caindo do céu.

Post-Nothing

Japandroids é uma banda canadense que tem apenas um guitarrista e um baterista; juntos, os dois fazem muito barulho. Nas oito faixas de Post-Nothing predominam a urgência do wall of sound alto, alto, alto e a rapidez com que cada faixa é executada. Com essa formação à White Stripes, e as comparações param por aí, dois grandes amigos de vinte e poucos anos resolveram sair mundo afora em busca de diversão, mas tendo uma banda como senha para a felicidade. Brian King canta e é o responsável pela guitarra devota de Superchunk, enquanto David Prowse espanca sua bateria como um pugilista pulando corda. Ian Cohen, na Pitchfork, diz que o disco é “contagiante, tocado com velocidade e entusiasmo punk”, e ele tem toda razão. Da primeira faixa, “The boys are leaving town”, até a última, “I quit girls”, guitarra e bateria caminham lado a lado, rápidas e com o escapamento aberto.

Enquanto guitarra e bateria giram retumbantes, as letras enfocam o universo em que garotas, bebedeira e diversão são as coisas mais importantes da vida. E do que poderiam falar as canções senão de algo da idade deles? Como sair de casa, por exemplo: “The boys are leaving town/ Now/ Will we find our way back home?/ I don’t know” dizem na primeira faixa, em poucas linhas, com mochilas nas costas. “Young hearts spark fire” traz mais cachaça e garotas: “you can keep tomorrow/ after tonight, we're not going to need it/ beat up, beat down, wet ground/ but too drunk to feel it”. “Wet hair” e “Rockers East Vancouver” são filosofia de beira de estrada e, importante ressaltar, mais do que a inconseqüência das letras, há tanta sinceridade imatura e ousadia nesses dois que não há como não torcer para que ambos terminem bem a aventura. “Heart sweats” continua na mesma toada, esfuziante, como “Crazy/Forever”. Mas é em “Sovereignty” que Japandroids chegam ao alto da montanha, longe de casa, como tem de ser nessa idade: “it's raining in Vancouver/ but I don't give a fuck/ because I'm far from home tonight”. A festa termina com “I quit girls”, quando se encontra a garota definitiva para terminar a noite e, afortunadamente, a vida. É um álbum para não se perder de vista e dos ouvidos.

Actor

St. Vincent é o nome que Ann Clark escolheu para mostrar suas músicas. Após trabalhar com Sufjan Stevens e Polyphonic Spree, ela gravou Actor, seu segundo álbum, em que se une a outros músicos para registrar teatrais canções intricadas e cheias de personalidade. Clark prefere canções de muitos acordes e, além disso, em vez dos instrumentos com cordas elétricas e da bateria, que na maior parte do álbum faz sua parte, marcando ritmo como um metrônomo burocrático, órgão, teclados, piano, violão sobressaem-se.

Decerto, as canções de Actor são menos para dançar do que para ser ouvidas enquanto se anda de carro por uma estradinha charmosa, uma vez que é preciso prestar atenção no que está acontecendo em cada uma delas. Eis aí a personalidade que faz bem a St. Vincent: por todo o disco, o que se percebe é a preocupação em se construir canções complexas. Todo o mérito recai sobre essa moça que, com capricho, soube contar com músicos talentosos para fazer um álbum bastante elogiado mundo afora e com canções que, cada uma a sua maneira, são cativantes, como: “The stranger”, “Save me from what I want”, “The neighbors”, “Black rainbow” e a etérea “Marrow”.

The Duke spirit

Depois de Neptune (2008), The Duke spirit apresenta não um novo disco, mas uma compilação com três faixas nunca lançadas nos EUA e uma versão para “Baby Doll”, de Alex Chilton. Nas 10 faixas desse álbum, que leva apenas o nome da banda, a voz, sensualidade e beleza gélida de Liela Moss têm tudo a ver com o glamour que há ao redor dela e da banda. Basta ouvir a primeira faixa, “The step & the walk”, para se lembrar de uma Debbie Harry cantando como se o coração do sexo oposto, flechado, nada mais pudesse fazer além de estrebuchar no asfalto quente. E se a VOZ é rouca e sedutora aos ouvidos dos marmanjos, a banda tira vantagem disso, repercutindo acordes languidamente elétricos e cheios daquela energia que é a quintessência de uma banda de rock’n’roll. Há momentos que nem tudo dá certo, como em “Red weather”, mas há também “My sunken treasure”, está irresistível canção que é o cartão de visitas de The Duke spirit.

Wavering radiant

Wavering radiant, de Isis, é o álbum que, lado a lado com os discos anteriores, fica incomodado em seu lugar. A praia é outra. O gênero, sem dúvida, é o heavy metal. Mas não fica só nisso; o difícil é precisar o quê. Há muita atmosfera glacial, inóspita, cheia de ruídos nas canções de Isis. Se os vocais são guturais, como nas mais calientes bandas de death metal, em outro momento, tornam-se calmos, naturais e, de repente, se o céu desaba novamente, a voz cavernosa sai da sepultura e desossa tudo pela frente. É o que ocorre em seis das sete (longas) faixas do álbum, de “Hall of the dead” a “Threshold of transformation” (a exceção é a faixa instrumental “Wavering radiant”, de apenas um minuto e 48 segundos.

É uma experiência que vem colhendo resultados. Ao criar uma ponte em que metal e experimentalismo ficam unidos por uma corda bamba, Isis vem arrebanhando admiradores mundo afora. Pitchfork destacou a inovação que o álbum traz ao metal, especialmente por tentar ampliar seu alcance. É uma banda com a cara do século 21. Metal ou não.

Plenitude

Como escreveu Cristovão Tezza no romance O filho eterno, “todas as forças estão reunidas para que o dia amanheça”. Pela manhã, é sempre um novo dia. Hoje, quando o sol se pôr, talvez você já esteja ouvindo outras coisas. É bem provável que aconteça. A próxima promessa do mundo da música pode não passar de uma banda a ser esquecida em breve. É um mundo efêmero, e avaliações equivocadas acontecem. Mas quando a música é boa, dificilmente os críticos – ou qualquer pessoa - acabam com ela. Vale a pena conhecer canções enquanto elas ainda estão vibrando em sua plenitude.
 

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06/08/2009