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"Bentinho tem um problema psicológico", diz Rafael Cortez / Dom Casmurro, Machado de Assis, audiolivro, O alienista, Memórias póstumas de Brás Cubas

Renato Alessandro dos Santos

Logo após apresentar-se na 9ª Feira do Livro de Ribeirão Preto para uma esfuziante plateia formada por muitos adolescentes, Rafael Cortez, do Custe o Que Custar (CQC), falou ao Tertúlia. Foi a primeira entrevista feita pelo fanzine, agora, como sítio na internet. Enquanto muita gente esperava do lado de fora do Theatro Pedro II pelo ator, músico e repórter do CQC, um círculo de jornalistas o prendia ali dentro. Com a inexperiência, o gravadorzinho tremia na minha mão.

Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e O alienista, de Machado de Assis (1839-1908), três essenciais obras do Bruxo do Cosme Velho, foram narradas por Cortez para o formato em áudio. Clássicos da literatura e audiolivros têm muita coisa em comum? Mesmo que nada substitua a experiência de leitura, Cortez acredita no audiobook como auxílio ao leitor, ou ouvinte, na compreensão do texto literário.

Entrevista

Minutos antes de chegar ao Theatro Pedro II, percebi que seria impossível ouvir o que o repórter do CQC tinha a dizer. Com meu bloco de anotações, gravador (mp3) e câmera fotográfica, além de óleo de peroba nas maçãs do rosto, procurei a assessoria de imprensa da Feira. Sempre quis ser jornalista. Quem me deu atenção foi Alessandra. Expliquei o problema. Disse que queria cobrir a Feira para o fanzine e para a faculdade onde trabalho. Compreensiva, me pegou pelo braço e me pôs dentro do Theatro Pedro II. Eu não acreditava. Fui levado a um camarote (o teatro estava lotado) e, do primeiro andar do Pedro II, pude ver e ouvir Rafael Cortez com um banquinho e um violão falando de Machado de Assis e efemérides ligadas ao mundo VIP das celebridades de televisão.

No Pedro II, Cortez falou sobre a experiência com a obra de Machado de Assis e de soluções que ele e o pessoal da editora Livro Falante encontraram para as estripulias do Bruxo. Por exemplo: em “O velho diálogo de Adão e Eva”, capítulo 55 de Memórias póstumas de Brás Cubas, há apenas os nomes de Brás Cubas e Virgília, além de pontinhos, pontos de interrogação e pontos de exclamação. O que fazer? Por que não musicar a conotação sexual cifrada por Machado? A fim de traduzir em acordes esses sinais gráficos, Cortez recorreu ao violão clássico e deixou sua versão para essa passagem do romance. Pegou o violão e mostrou ao público. Muito bom. Brás Cubas cavalga atrás de Virgília, mas sem alcançá-la. Encerrada a apresentação, estava eu fascinado ainda pelo teto e arquitetura do Theatro Pedro II, lugar onde nunca havia entrado, e, sem conseguir tirar os olhos do imenso e luminoso lustre de cristal de quase uma tonelada e meia, e que parece uma lágrima ou gota d’água de ponta-cabeça, pensei: “É hora de comprar livros”. Oba.

Eis então que, como o coelho apressado de Alice no país das maravilhas, um repórter e um cinegrafista de uma emissora passam, perguntando onde é a entrevista com o repórter do CQC. Não sabia, mas os segui mesmo assim. Por que não? Minutos depois, cinegrafistas, repórteres, organizadores da Feira, assessores de imprensa, Marley e eu estávamos amontoados ao redor de Rafael Cortez, que sem os óculos escuros atendia a todos com paciência e educação.

Como quem não quer nada, assobiando e olhando para cima, fui me aproximando. Enquanto Cortez, com razão, dizia achar um absurdo a decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com a obrigatoriedade do diploma para jornalista, entrei na conversa, como um cisco, e comentei que alguns grandes jornalistas não tinham diploma também. Minha voz deve ter saído aos solavancos, das profundezas das cordas vocais, como se uma roda de moinho girasse ao contrário, levando-a aos trancos boca afora. “Olá, Rafael. Sou Renato e queria perguntar algumas coisinhas sobre Machado de Assis”. “Opa, rapaz”, ele disse. “Vamos lá”. Fiz três ou quatro perguntas e, quando partia para a próxima, uma das organizadoras da Feira, impaciente, resolveu acabar com a folia. Eu, sem nada que pudesse fazer, agradeci pela entrevista. Para mim, começava muito bem a 9ª edição da Feira do Livro; em tão pouco tempo, nunca conversaria com tantos escritores que admiro.

Na entrevista de Rafael Cortez ao Tertúlia o assunto é Machado de Assis. Capitu traiu Bentinho? Audiolivros podem incentivar a leitura de clássicos da literatura brasileira? Ouça, clicando no ícone à esquerda.

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31/07/2009