)Entrevistas(

"Regionalismo é falta de assunto", diz Milton Hatoum / leitor, romance regionalista, Manaus

Renato Alessandro dos Santos

Milton Hatoum está diante de mim. É um dos grandes romancistas atuais de nossa literatura. Ele não admitiria a alcunha de mais importante escritor da literatura brasileira atual. Não sou idiota o bastante para comentar tal coisa e não faço questão da resposta. Como diz Bob Dylan, a resposta é soprada pelo vento. É muito difícil interpretar o vento. Mas o que interessa mesmo em literatura, como no jogo de bicho, é o que permanece escrito. Para muita gente, Dois irmãos, segundo romance de Hatoum, é uma obra que já nasceu com uma cadeira na ABC, a prestigiada & (ainda) hipotética Academia Brasileira dos Clássicos.

Hatoum parece cansado. De fato, o escritor vem percorrendo de carro o “sertão paulista”, como diz. Pelo interior, de uma cidade a outra, vem realizando encontros com leitores em bibliotecas municipais. É um projeto da Secretaria de Estado da Cultura em parceria com bibliotecas públicas do estado de São Paulo. Já passou por São Pedro (17/06/09), Macatuba (18/06/09) e Pederneiras (18/06/09) e, nos dias seguintes, iria a Ferraz de Vasconcelos (22/06/09) e São Caetano do Sul (23/06/09). Em muitas dessas cidades, ele encontra o que considera seu maior prêmio literário, ou seja, o leitor, ou melhor, os bons leitores, como disse ao Tertúlia. São esses leitores que valem muito mais que os diversos prêmios que vem recebendo. Muito mais que Portugal Telecom, que ganhou em 2006, ou os diversos Jabutis (1990, 2001, 2006) esparramados por sua casa. Numa dessas cidades do interior paulista, encontrou um leitor de James Joyce, com quem conversou a respeito de Ulisses, o catatau de mais de 800 páginas que narra um dia na vida de Leopold Bloom. Bons leitores não chegam até ele pela internet. O escritor julga-se um obsoleto adepto da rede; em vez disso, prefere a rotina de seis a oito horas de trabalho diário.

Festas e eventos literários, num certo sentido, remetem a um universo armado ao redor da literatura que, nem sempre, um escritor vê com muita disposição. É preciso entender que, muitas vezes, a solidão não é o bicho de sete cabeças que a sociedade moderna pinta. É dessa mesma solidão que a literatura é feita. Começo a entrevista perguntando se o escritor ainda mantém o mesmo entusiasmo de antigamente, no caso, o entusiasmo em relação a eventos literários como esta 9ª Feira do Livro de Ribeirão Preto. Faltam quinze minutos para sua palestra. Não é a melhor hora, obviamente, mas são os poucos minutos que Hatoum divide comigo. Dentro de mim, saltitante, alguma coisa me deixa muito feliz, afinal não é todo dia que estou diante de um grande romancista. Ele diz que fez questão de participar da Feira do Livro de Ribeirão, que neste ano homenageou o estado do Amazonas, terra de Hatoum, mas o entusiasmo já não é o mesmo. Pode parecer que ele está aborrecido, mas na verdade esse é seu jeito, quieto e observador. Ele sabe que essa conversa faz parte do jogo. Tento o mais que posso me concentrar na entrevista e não me tornar impertinente. Digo que nossa conversa se encerra no momento em que ele achar melhor. Tenho alguns minutos antes que Alessandra, assessora de imprensa da feira, bata levemente em meu ombro para dizer que o tempo acabou. Durante esses minutos, Hatoum falou ao Tertúlia.


 

 

  • 69_MILTON HATOUM_1.play

21/07/2009