)Música(

Paul Di'Anno no Vila Dionísio: pedra que rola não cria limo / The Clash, The Heartbreakers, The Damned, Paul Di'Anno, Sex Pistols

Renato Alessandro dos Santos

Para quem mora em Batatais, cidadezinha do interior paulista, o privilégio é ter Minas Gerais logo ali e, além disso, localizar-se entre duas cidades maiores, Ribeirão Preto de um lado e Franca de outro. Eu tinha três opções para a noite de 16 de julho: (a) ficar em casa e ver O leitor em DVD ou os quatro últimos capítulos de Lost; (b) ir ao show do Jota Quest aqui, não sei bem por que, ou (c) ir ao show do primeiro vocalista do Iron Maiden, Paul Di'Anno, em Ribeirão Preto. Confesso que escolhi a primeira opção, mas sabia que não seria fácil convencer a amada a ficar em casa vendo um filminho. Não deu outra. Como nas tirinhas dos Conjugal Fighters, do Caco Galhardo, em que o casal de super-herois se arrebenta com seus poderes de super-herois, logo que a amada descarregou sobre mim seus raios múltiplos, jogando-me a cinco metros de distância, eu concordei em ir, claro. O irmão dela argumentou que ir a um show do Jota Quest e deixar Paul Di'Anno triste sem nossa presença era uma traição ao bom e velho rock’n’roll. Era a mais pura verdade.

Havia mais. Não podia deixar José Augusto, irmão de Silvia, minha mulher, ir ao show, sem amigos. Este rapaz, num ato de grande camaradagem, me levou ao show do Radiohead e, sem perder a esperança, sempre arruma um jeitinho de me tirar de casa. Havia mais. Não conhecia o Vila Dionísio, o lugar do show. Já ouvira falar da quantidade de cerveja que tem lá, cerveja do mundo todo, sim, cerveja do mundo todo e, além disso, depois de cinco anos, a casa já se consagrou como reduto alternativo & rock’n’roll na noite que cai elétrica sobre a Califórnia brasileira. Havia mais. Ninguém menos que Paul Di'Anno, o vocalista dos dois primeiros álbuns do Iron Maiden, estaria ali e, por último, havia a frase de Tony Parsons, em Disparos do front da cultura pop, quando ele chama de idiota quem perde a oportunidade de ver a turnê que Sex Pistols, The Clash, The Damned e The Heartbreakers fizeram juntos, em 1976.

Foi um show histórico em Leeds, Inglaterra. Imagine uma noite com quatro grandes bandas, antes da fama e da explosão punk que viria um ano depois. Estavam todos saindo do forno. Sex Pistols e The Heartbreakers, em carreiras fulgurantes, iriam do céu ao inferno em menos de cinco anos e seria o fim de ambas. E se Johnny Rotten e Sid Vicious fizeram a fama dos Pistols, o que dizer de Johnny Thunders, que soletrou a palavra excesso até o fim de sua vida, quando morreu de overdose? Mesmo assim, naquela ocasião, o lugar estava às moscas. Parsons diz: “Agora preste atenção. Se os beatos hipócritas que governam nosso país banirem essa turnê da sua cidade, levante a bunda cansada da cadeira e vá para uma cidade próxima, ou talvez nem tão próxima, até ter a chance de conferir os shows. Porque, se você perder essa chance, duvido muito que tenha a oportunidade de ver uma turnê como essa de novo. E se você não for, tudo o que posso dizer é que você é um idiota”.

Eu sei, eu sei. As circunstâncias não são as mesmas e nem se compara uma coisa a outra, mas pensando bem, por que não ir? Mesmo a contragosto?

Chegamos ao Vila Dionísio, que parece um pub e é acolhedor. Mas sabe quando você está num lugar e não está se divertindo? O show estava marcado para a meia-noite, e chegamos quatro horas antes. Cervejinha. Em ordem alfabética. 1/2 noite, enfim. Imagino que o homem vai subir ao palco, passando manteiga no pão, com a faca na mão, mas nada disso, em vez de Di'Anno, surge uma banda de heavy metal daquelas que afinam a voz. Como assim?! Eu já não conseguia mais tomar Antarctica Original, quando lá pela 1h22, entra um gordinho-fortinho careca cantando as músicas do Iron Maiden. Aí a coisa ficou boa. Mas ver aqueles caras de 30 anos batendo cabeça, o mesmo movimento de um martelo nas mãos de um carpinteiro exaltado, enquanto tocam air guitar, às duas da manhã, bem, essa não é uma imagem para se guardar.

E como fala Paul Di'Anno. Entre uma música e outra, lá vêm comentários sobre tudo, de Spice Girls ao Corinthians. É verdade, o jogo passou nos telões do bar, e Ronaldo mais uma vez compareceu e fez dois gols de cabeça, na vitória do Corinthians por 4 a 3 contra o Sport da Ilha do Retiro, ou Ilha de Lost, como diz Xico Sá. E se todos estavam ali para ver Paul Di'Anno e ouvir canções do Iron Maiden, o rapaz não decepcionou. A voz não é a mesma, claro, nem mesmo os cabelos, que sumiram para dar lugar a uma careca coberta de tribais. Não, de onde estava não pude ver nenhum 666 tatuado na cabeça de Di'Anno. O show começou com “Wrathchild”, se não me engano, e passou por “Murders in the rue Morgue”, “Killers”, “Phanton of the opera”, “Running Free” e outras canções que fazem dos álbuns Iron Maiden e Killers dois clássicos absolutos. Houve também uma canção dos Ramones, além de faixas do trabalho posterior do ex-vocalista da Donzela de Ferro.

Foi bom ter visto Paul Di'Anno no Vila Dionísio. O rapaz já morou no Brasil e, neste ano, com agenda lotada, até chegar a Ribeirão Preto, passou por Alemanhã, Portugal, Finlândia, Suíça, Itália, Noruega, Suécia, Irlanda, Espanha, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e Canadá; na semana que vem, ele vai à Ucrânia e em seguida ao México, Peru, Romênia e a outros países, até o fim do ano. Se alguém pensava que o rapaz estava inativo e natimorto, enganou-se. Foi uma noite para se recordar a adolescência, quando até os 15 anos só existiam Iron Maiden e Kiss na minha vida. Mas ainda bem que foi só uma noite.

18/07/2009