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Você sabe quem você é? / Coraline; Neil Gaiman; literatura contemporânea.

Maria Eduarda Sobral Lucarini

Que Coraline é uma garotinha corajosa e aventureira e que a Outra Mãe é uma criatura horrenda e que, aparentemente, gosta de se alimentar de criancinhas indefesas, todo mundo que conhece a história já sabe. Agora, uma figura que desperta curiosidade em um leitor mais “maduro” é o gato. Simples assim. Sem letras maiúsculas, diferente d’O Gato do Chapéu de Dr. Seuss, cujo nome do ser gato é Gato (confuso?), e sem um nome, diferente do gato de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que tem o nome de Gato de Cheshire, ou Chess, na adaptação de Tim Burton.

O gato que aparece em Coraline também se comporta como essa figura enigmática, que representa quase que uma consciência da nossa heroína, bem como Chess (já me sinto íntima) e o grilo falante de Pinóquio. O narrador chega até a nos relatar que a voz do gato parecia, para Coraline, com a voz que ela ouvia em sua cabeça, quando pensava em palavras. Talvez toda a intencionalidade da escolha do gato como fiel companheiro/consciência da garotinha venha da simbologia que os felinos representam: a da sagacidade, da independência e do equilíbrio (quem sabe esse último seja porque eles sempre caem de pé).

Embora possamos nos aprofundar por eras na simbologia e no misticismo do gato, gostaria de comentar o primeiro diálogo que nosso personagem felpudo tem com a heroína da história, e que me deixou muito intrigada.

 

-Olá – disse Coraline. – Eu vi um gatão preto igual a você no jardim da minha casa. Você deve ser o outro gato.
O gato balançou a cabeça.
- Não – falou ele. – Eu não sou o outro. Eu sou eu. -Ele inclinou a cabeça para o lado. Seus olhos verdes brilhavam. -Vocês, pessoas, são muito dispersas. Gatos, por outro lado, andam sempre juntos. Se é que me entende.
(...)
-Qual é o seu nome? – quis saber a menina. – Eu me chamo Coraline, tá?
(...)
-Gatos não tem nomes- disse ele.
- Não?
- Não. Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem são. Nós sabemos quem somos, então não precisamos de nomes.”

 

Coraline, já no outro apartamento, percebendo que havia a Outra Mãe, um outro pai, outras Srtas. Spink e Forcible e outro Sr. Bobo, deduziu que aquele gato era um outro também, mas ele revela que não, que apenas pessoas tinham outros de si porque são muito dispersas. Isso me fez pensar em quantas vezes temos que nos reinventar por causa do lugar onde estamos ou das pessoas que nos acompanham. A forma com a qual conversamos num churrasco entre amigos certamente não é a mesma que usamos para apresentar um TCC, por exemplo. Neste caso, já temos dois de nós, e são milhares as situações que nos desdobramos para nos encaixar e creio que é sobre isso que o gato fala.

Uma vez, comprei uma blusa numa loja de fast fashion e nela veio uma frase muito interessante, dizia: “você é o que sobra quando tudo vai embora”. É muito forte dizer que somos o que “sobra”, mas é basicamente isso. Somos realmente aquela pessoa que está sozinha em seu quarto e faz o que gosta e pensa o que acha e ouve o que curte e dança como quer, etc. etc. etc. Tudo fora deste pequeno globo de neve (pegou a referência?) são elementos para que nós criemos Outros Nós.

Para encerrar, nada mais sintetiza toda esta resenha como a música "Lights up", do cantor/ícone fashion Harry Styles, que diz: “As luzes se acendem e elas sabem quem você é/ sabem quem você é/ Você sabe quem você é?

 

 

          ilustração de ---------> vanessa marques lira  

 

MARIA EDUARDA SOBRA LUCARINI, 21, É aluna do último ano de Letras, amante de literatura e escritora amadora nas horas vagas.

 

VANESSA MARQUES LIRA é artista visual e professora de arte, no Brasil, porque só o amor, a educação e a cultura podem salvar a humanidade.

 

18/07/2021