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Espero que não seja muito tarde /

André Carretoni

Gostaria de fazer uma pergunta a todas as pessoas que estão neste exato momento nas unidades de tratamento intensivo do Brasil, nos poucos leitos existentes. Onde vocês estavam ontem? Por favor, não me levem a mal. Lamento imensamente aquilo que vocês estejam passando, mas estou à procura de uma informação.

Na última vez que escrevi algo de teor político, antes da última eleição presidencial, o escritório do ódio me atacou. Não foi agradável. Então decidi não falar mais de política, principalmente depois dos resultados democráticos que tivemos. Contudo, é difícil ficar calado vendo tudo o que está acontecendo por aí. Incomoda-me ver o Brasil assim, à deriva, sem máscara, a partir de um ponto de vista de quem mora na Suíça.

Enfim, vamos de novo à minha pergunta: onde vocês estavam ontem? Numa praia lotada? Num bar com amigos e desconhecidos? Numa igreja abarrotada de crentes? Fazendo compras num shopping cheio de consumistas? Ou usando máscaras e se protegendo? Se sim, se vocês estavam usando máscaras e se protegendo, lamento ainda mais imaginar o que vocês estejam passando depois de terem feito tudo para não serem contaminados. Que loucura o momento em que estamos vivendo! Mas se vocês se encaixam num dos outros casos – a tal informação importante que estou à procura – me digam uma coisa: vocês mudaram de opinião sobre o vírus? Acham que finalmente não tomaram cuidado suficiente? Acham que finalmente o vírus deve ser respeitado por todos e que há pessoas que estão divulgando falsas notícias sobre a pandemia? Acredito que a gente se questione muito quando se vê diante da morte.

Pra já, ninguém precisa se identificar. Não estou aqui pra jogar na cara de ninguém tipo: “te avisei”, mas o grande lance que me fez começar este texto foi querer saber até aonde pode ir um fanatismo? Ou o que é necessário para fazer com que uma pessoa reconheça a estupidez que tem sido divulgada por alguns? Se é que vocês mudaram de aviso.

E se vocês, de sobra, ainda puderem me responder outra pergunta, ainda melhor. Vocês, que votaram no Bolsonaro no primeiro turno em 2018, ainda votariam no Bolsonaro hoje, só para não terem o Lula ou o PT no poder? Com toda essa história do Lula livre, gostaria também de saber se teríamos de novo 54 milhões de votos no Bolsonaro. Em quem vocês votariam hoje? De novo no atual presidente? Ou, afinal, no próprio Lula, depois de tudo que tem acontecido? Ou, ainda, em um dos outros tantos candidatos presentes (Ciro, Amoedo etc.), como você que votou apenas para tirar o PT do poder em 2018 deveria ter feito três anos atrás?

Sabem, eu também mudei muito em três anos. Sei que a Amazônia está queimando, que ainda não descobriram quem matou Marielle, que tem vendedor de chocolate comprando mansões de seis milhões de reais e que o julgamento das rachadinhas vai terminar em pizza (normal nesse país), mas juro que, com o tempo, aprendi a me estressar menos. A meditação me tem ajudado. Se o Bolsonaro e os seus filhos ganharem de novo nas próximas eleições, provável, paciência. Eu sou muito pequeno para fazer alguma diferença em toda essa história de imediatismo, de falta de leitura, de valores visuais e de idolatrar torturadores. Culpa da televisão, opção das pessoas, vai saber. O que eu sei é que também não sou perfeito e que o que eu tenho mesmo de tentar é corrigir os meus erros, não os erros dos outros, mesmo sabendo que, infelizmente, enquanto isso, o Brasil vai continuar aí, na porta de uma UTI, à espera de uma vaga para receber os tratamentos adequados.

Espero que não seja muito tarde.

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    Ilustrações de Helton Souto e de Augusto Gusmão    

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ANDRÉ CARRETONI nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e de TELMAH: a tragédia do desencontro (2019), dentre outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador do Tertúlia.

 

HELTON SOUTO  nasceu em Ribeirão Preto, no ano de 76. Cientista Social. Gestor na área de Educação e Políticas Públicas. Artista Plástico. Ilustrador. Colabora e empresta seu traço para sites (como o www.tertuliaonline.com.br), cinema (Mesoperiferia - o filme), livros (Clowns, Cronópios, Silêncios, de Diana Junkes; Vão e Desgraçado, de Alexandre Dantas, Todo Maldito Santo Dia, de Paulino Junior e Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia, de Renato Alessandro dos Santos) e outros projetos autorais. Acredita que povoar o mundo de arte e poesia é, em si, um ato de rebeldia - essa é a busca e a luta.

AUGUSTO GUSMÃO LIMA tem 7 anos e adora desenhar, andar de bicicleta, conhecer sobre dinossauros, fazer aviões e inventar as mais diferentes brincadeiras de papel e papelão. E ele está criando uma escola de desenhos on-line, chamada Colégio Carro! Ele é filho do Helton Souto - ilustrador do Tertúlia.
04/05/2021