)Contos(

Amanhã a gente volta / conto; Haron Gamal; literatura brasileira contemporânea

Haron Gamal

– Não conhecia meu filho, João, te juro.

– Difícil não conhecer o próprio filho.

– Verdade, não acredita? Maria, traz outro café, por favor.

– O café daqui é bom mesmo, hein, você tem razão, vou pedir também mais um. Como é mesmo o nome da garçonete?, Maria, isso mesmo, Maria, por favor, mais um pra mim também. Mas como?, você não criou seu filho?

– Criei, até certo ponto, mas criei.

– Como, então, não o conhece?

– Escute, você vai compreender. Obrigado, Maria, obrigado, apenas um tablete de açúcar, isso, assim está bom, você já me conhece. Meu amigo vai querer o adoçante, tenho certeza. Então, não conhecia o meu filho, verdade. Viajei à cidade onde trabalha, fiquei impressionado.

– Ele enriqueceu?

– Não, não é isso, você pensa apenas em dinheiro.

– Não é que eu pense em dinheiro, mas as pessoas precisam progredir, e é bom ter dinheiro.

– Você tem, por acaso?

– Já tive, você sabe, já contei. Mas continue, quero saber sobre o teu filho desconhecido.

– Maria, mais um pão com manteiga, por favor, vou ter que correr a praia toda depois de tanto pão, mas não faz mal, corro. Sobre o meu filho, escute. Tomei o ônibus e fui para a tal cidade, um lugar na órbita de Campos, exploração de petróleo no mar, compreende isso?, onde ele foi se meter, jamais falei sobre petróleo em casa. Mas, deixemos de lado, me esperou na pequena rodoviária. Nem sei se se pode chamar aquilo de rodoviária, uma loja onde se vende as passagens com o ponto do ônibus defronte. Ele estava lá, o meu filho, sorridente, sentindo verdadeiro prazer por me receber. Confesso, nunca o recebi da mesma maneira, nunca tive prazer pra receber ninguém, você me conhece. Ele ria, me apertou a mão, apontou o automóvel. Um carro grande, bonito. Entramos e começou a guiar, me levava à sua casa. Uma casa confortável, dois andares. O que mais me impressionou, porém, foi que ele cumprimentava todo mundo pelo caminho, em alguns lugares parava o carro para falar com as pessoas e dizia olha o meu pai, apresento a você, é uma ótima pessoa, vai gostar da cidade. Ao chegarmos à casa, antes de entrar, chamou os vizinhos, o que tem a casa em frente, já velho, militar reformado segundo pude saber depois, e disse meu pai, um ótimo sujeito, depois chamou o vizinho da casa ao lado, que ficava a uns cinquenta metros: meu pai, um ótimo sujeito, repetia. Vamos todos à praia daqui a pouco, ria, ria e ria. Veio uma mulher, descobri logo que era a mulher dele, ela me beijou, disse que tinha um café pronto, que entrasse e sentasse um pouco. Ah, chegou o pão, obrigado, Maria, deixa eu dar uma mordida que continuo a contar, João.

– Você tem um ótimo filho, quem dera ter alguém assim, não tive filhos, você sabe, é um pouco triste.

– Não se lamente, homem, você tem outras vantagens. Escute, escute. Tomei o tal café, deixei a pequena maleta ali mesmo na sala de entrada e fomos à praia. A mesma coisa. Meu filho era um homem feliz com o pai ao lado, parava o carro para cumprimentar as pessoas e me apresentar a todo mundo. Depois de meia hora já vou ter conhecido a cidade inteira, eu disse. Não, meia hora é pouco, talvez quarenta minutos, falou e caiu na gargalhada. Chegamos à praia, uma praia imensa, não sabia que era tão comprida. Olhe, pai, você que gosta de praia, que mora no Rio ao lado da praia, aqui é mais tranquilo. Tinha um quiosque próximo, veio o dono, sorrindo, a face iluminada, já sei, é teu pai, você é a cara dele.

– Puxa, você é um felizardo, que bom o teu filho.

– Não sei como pode ter saído assim, nunca conversei com ele, não gostava de conversar com ele quando era criança, sempre achei que conversa com criança não vai a lugar nenhum. Depois, quando cresceu, não me interessei pelo que ele fazia, confesso, até mesmo me afastava, tinha meus amigos, saía para beber, depois a Ivonete foi embora, levou o garoto com ela, eu não o visitava nem ele vinha ficar comigo. Quando cheguei naquela cidade, percebi que ele era um homem, um verdadeiro homem, alguém alegre, que fala com todo mundo, e todo mundo quer ficar ao lado dele. Não sei como pode ter saído tão diferente de mim. Acho que foi uma pena eu não ter ficado durante toda a vida mais perto dele.

– Foi bom assim, Airton, caso você ficasse perto, pode ser que ele hoje fosse uma pessoa diferente.

– Você acha, tá de sacanagem comigo, não sou má pessoa, você não acha?

– Não, desculpe, não quis dizer isso. Na verdade, não existe fórmulas para criar os filhos, eles saem do jeito deles, não te surpreenda. Fique feliz por ter um filho desse tipo, que te convida, te recebe e não quer que você vá embora.

– Verdade, João, verdade, por ele eu estava lá até hoje. Vamos indo, João, quero correr um pouco na beira d’água, estou ficando velho mas ainda aguento.

– Vamos, sim, não vou correr com você, não tenho o teu preparo, mas vou apreciar o mar.

– Maria, por favor, a conta, amanhã a gente volta.

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

 

 

24/01/2021