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Quando a morte chegar / literatura brasileira contemporânea; crônica; poesia;

Mariana Nascimento

Quando a morte chegar

 
Desde pequena sabia que tudo o que é vivo nasce, cresce, se reproduz (talvez) e morre. Pelo menos era assim com as plantas.
Mas ela não sabia como lidar com a morte. E tinha medo do momento em que tivesse de lidar.
Perdeu a avó aos 2 anos. Não se lembrava de nada. Imaginou que, no momento da morte, uma espécie de luz veio do céu até a sua avó, a envolveu e levou o seu espírito para viver nas nuvens, com Deus. E acreditava que assim era com todos os que terminavam a vida.
Mas isso era na sua infância. Aos quase 18 anos, ela não conseguia mais pensar assim. E sabia que a morte se aproximava novamente.
Seu avô logo iria partir. Ela sabia disso. Mas, pra ela, ele já tinha morrido fazia tempo. Ou então, já começara a morrer, e ia morrendo aos poucos. E podia terminar de morrer em qualquer dia. Podia ser hoje. Podia ser daqui a três meses.
Mas, o que mais a aterrorizava era não saber como reagir quando a morte chegasse. Como iria recebê-la? Iria se assustar quando ela tocasse a campainha? Iria se esconder quando ela batesse na porta? Choraria? Fugiria? Agiria com indiferença? Não sabia. Não podia prever a maneira como se sentiria. Sua única certeza era a de que experimentaria um sentimento novo quando a morte chegasse, com o qual teria de se acostumar, já que todos nós, um dia, "cumprimos nossa sentença e encontramo-nos com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fatos sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre."
 
 
Sobretudo
 
Sobrenada
Sobre tudo
Sobre nada
A respeito de tudo
A respeito de nada
Em cima de tudo
Em cima de nada
 
Em frente de todos
Em frente de nada
Enfrente todos
Enfrente nada
 
Sobre tudo
A gente falava
Sobre nada
A gente se exaltava
A respeito de tudo a gente conversava
A respeito de nada a gente se calava
Em cima de tudo a gente se deitava
Em cima de nada a gente se cansava
 
Em frente de todos a gente andava
Em frente de nada a gente parava
Enfrente todos, um dizia
Enfrente nada, outro falava
 
 
         ilustração de rodrigo caldas

 

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MARIANA NASCIMENTO é aluna de Letras na Unicamp. Mora em Batatais, interior paulista e é fã dos Beatles. Contatomarianavpcn@gmail.com 

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

01/11/2020