)Blog(

Racismo osmótico: precisamos falar sobre isso / racismo

Vanessa Marques Lira

A faxina começa dentro de cada um de nós.

Vozes pretas e brancas foram despertadas de seu estado letárgico. Parece que, enfim, a história foi suspensa. As vozes pretas bradavam, mas nunca foram ouvidas. Há vozes brancas que nunca se calaram. Ambas clamavam que as versões históricas fossem revisitadas, revistas e recontadas, não da mesma forma, mas contadas de novo sob outros ângulos, aqueles antes ignorados. Vozes bradavam, mas nunca foram levantadas em uníssono como se vê agora. E isso não pode ser só uma onda.

Precisamos falar sobre o racismo osmótico, que ainda hoje, nos sai pelos poros... Enquanto não cutucarmos nossas próprias feridas, a história não vai mudar, as vozes em coro serão caladas novamente, terá sido uma onda e ela vai passar.

Brasileiros são um povo miscigenado por origem. Nossos índios não eram brasileiros, eram das tribos que aqui habitavam, povos donos desta terra quando chegaram os portugueses. Das misturas nasceram os brasileiros: miscigenados, sim! Então, não me venha dizer “sou um branco contra o racismo”. Não! Meu sangue é preto, é índio, sim!

Comece a resgatar a história pessoal. É um bom momento para revisitar suas origens e caçar onde foi que o racismo osmótico o fez refém. Esse que foi imputado em você antes mesmo que pudesse refletir sobre suas atitudes e sobre o que ouvia.

Que seja! Eis aqui minha história com o racismo osmótico: nasci de pele branca em uma família de pele preta ou, como dizem, morenos, no mínimo. Meu apelido comum na família era branca. Branquela quando era pejorativo. Branquinha quando era fofo. A segregação estava dentro de casa. Minha irmã de pele bronzeada era chamada de neguinha. Cresci ouvindo o tempo todo que eu era diferente deles, dos de casa. Tive eu mesma de lidar com isso.

Minha mãe tinha sobre si olhares duvidosos quando saía de casa sozinha comigo, branca com cabelos lisos, finos e dourados. Uma vez uma mulher no trem não se conteve: “Adotou?”. Outra vez acharam que minha mãe fosse minha babá.

Nunca havia pensado no racismo osmótico, apesar de estar mergulhada nele, algo sempre me fez repugnar qualquer atitude racista ou taxativa sobre qualquer tipo de pessoa e suas potencialidades, agora percebo que me incomodei, a vida toda, por ser julgada diferente dos de casa. Acho que isso me fez tomar outros rumos, para evitar a repetição do que me incomodava. Não havia antes examinado onde estava o início de tudo. Depois que me entendi por gente, dona de minhas reflexões e opiniões, cuidei para não dizer expressões indevidas que exalavam o racismo que me foi fornecido gratuitamente.

E não para aí. Minha tataravó foi escrava, era preta. Minha bisa era preta de olhos azuis, e a explicação não se faz necessária. Minha avó, preta, mulher e nordestina, casou-se aos treze com meu avô, catorze anos mais velho que ela. A voz dela nunca saiu de verdade. Não foi infeliz, mas também não cheguei a perguntar. Quando ela se foi, eu tinha a idade com que ela se casou e pouco pensava sobre a vida. Outra tataravó era bugre, modo como meu avô chamava os índios. Só sei isso sobre ela.

A avó do meu marido é filha bastarda da empregada preta e deficiente com o patrão. Minha sogra, nordestina, sofreu abuso, na adolescência, de quem frequentava a sua casa. Falou disso comigo uma única vez, em sua voz havia medo e vergonha. Meu marido é carioca. Quando o apresentei à família fizeram cara de espanto porque achavam que ele era preto, e a explicação também não se faz necessária.

Não tenho relatos pessoais de sofrimento, não sou rica, mas nunca soube o que é miséria. Tive que refletir sobre a minha origem para encontrar respostas para mim mesma e saber contra o que estou lutando. E não é porque eu me coloco no lugar de quem sofre com o racismo, pois tenho para mim que nunca vou sentir na pele o que é sofrer preconceito. Dói no meu coração, porque ele bombeia meu sangue preto.

Eu tive de refletir sobre minha origem para não incorrer no mesmo erro na vida adulta e na educação do meu filho e para não repetir frases e atitudes com as quais não concordo.

Nenhuma das histórias que contei são verdadeiramente trágicas e nem levaram ninguém à morte, mas elas integram as estatísticas. Estas que julgamos serem normais e é, exatamente por isso, que muitas delas evoluem para a tragédia. Meu filho não conhece piada racista. Para ele, quando a situação está

crítica, ela é apenas crítica, não há uso pejorativo das cores. Ele assiste ao noticiário e foi muito difícil explicar-lhe o que aconteceu com George Floyd, justamente porque não há explicação. Todos sabemos disso. Para ele não faz o menor sentido alguém ser morto porque é preto. Não há sentido!

Talvez, agora eu tenha mais trabalho para explicar o mundo a ele, porque ele não foi contaminado, enfim, pelo racismo osmótico que está impresso na minha própria existência. Ele tem histórias de pretos, de mulheres e de brancos bem sucedidos para seguir como exemplo. Estão todas na mesma prateleira.

Minha família era mergulhada nas histórias de uma versão só, agora isso tudo pode acabar. Luto e promovo atitudes que resultem em um mundo diferente no futuro. Faço pouco, queria fazer mais. Não sei ainda quanto mais posso fazer. Para mim vidas pretas importam não porque são pretas, porque são vidas e cada um tem direito de escolher como a sua deve ser. Cada uma delas é única, é uma vida que importa, é um trilhar de histórias que não se repetirá porque a grandeza do ser humano é sua diferença.

Como artista e professora que sou, não posso me calar. Cada vida que passa por mim importa, e o meu papel é contribuir com sua formação integral. Eles precisam refletir sobre o que é essencial, precisam se habituar ao fato de que devem questionar tudo. Cada assunto é importante e é preciso ter uma posição sobre todos eles. Um de meus papéis é fomentar reflexão. Não há reflexão e posicionamento que reverberem se não começarmos por nós mesmos. Refletir para extinguir o racismo osmótico e para que a conformidade jamais se repita.

Que as mortes de Floyd, de João Pedro, de Miguel e de tantos outros pretos que se foram injustamente não sejam em vão. Que a falta de voz não mais assole quem clama por seu próprio direito de ser ouvido. Que mudemos atitudes com reflexão e responsabilidade. Que a lucidez seja permanente e não apenas uma onda.

 

>>>>> ilustração de helton souto <<<<<

 

VANESSA MARQUES LIRA é artista visual e professora de arte, no Brasil, porque só o amor, a educação e a cultura podem salvar a humanidade.

HELTON SOUTO  nasceu em Ribeirão Preto, no ano de 76. Cientista Social. Gestor na área de Educação e Políticas Públicas. Artista Plástico. Ilustrador. Colabora e empresta seu traço para sites (como o www.tertuliaonline.com.br), cinema (Mesoperiferia - o filme), livros (Clowns, Cronópios, Silêncios, de Diana Junkes; Vão e Desgraçado, de Alexandre Dantas, Todo Maldito Santo Dia, de Paulino Junior e Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia, de Renato Alessandro dos Santos) e outros projetos autorais. Acredita que povoar o mundo de arte e poesia é, em si, um ato de rebeldia - essa é a busca e a luta.

 

  • Nei Lopes - Negro Mesmo - 10 - Tia Eulália Na Xiba

02/08/2020