)Música(

Boston aos porcos / Boston (EPIC, 1976)

Renato Alessandro dos Santos

Penso em Aristóteles, que na Retórica menciona o discurso que ou censura ou louva a arte que, vez ou outra, faz pairar nossa alma acima da cabeça, doidivana, e só consigo pensar em como pude negligenciar este primeiro disco do Boston, de 1976. Como pude?! 

1972 foi um ano incrível, especialmente para mim, por conta de minha mãe que deu à luz este faminto lobisomem que, aos quatro anos, em 1976, já poderia estar ouvindo Boston, caso algum tio, parente ou vizinho tivesse se preocupado com minha educação musical desde cedo. Não foi o caso, e ficou por minha conta. Deu no que deu. Como pude?!

Este disco chegou aqui em casa faz dois dias, ou melhor, ontem, mas hoje é o segundo dia que ele vem tocando não sem parar porque tudo enjoa, mas depois de um banho com sabão e água fria, cotonete atrás das orelhas, o LP começou a botar as manguinhas de fora e, como um paradoxo, não para mais. É uma pérola que um porco como eu não sabia da existência, quer dizer, sabia, mas não sabia que era um disco tão bom, desses de pôr na estante como um Jedi numa frase e, em seguida, pôr no toca-discos e deixar rolar de um lado a outro, ao menos duas vezes por dia, ou sem moderação, porque todo excesso interessa, mesmo que intoxique – e não é que há mesmo mais paradoxos entre a terra roxa e o céu cerúleo, leitora?

Big beach boutique

O lado A começa com “More than a feeling”, e acho que minha primeira reação foi, “não, não pode ser”. É que esperava aquele prato feito de jabá de FM e, lulalá, me deparo com uma banda ensaiada - parecia - há 300 shows com os mesmos caras que, só num baixar de olhos, já sabem o que o outro vai fazer. Coisa de cinema. A faixa dois, “Peace of mind”, vai na mesma sintonia, hard rock de assobiar e tudo. Foi então que achei que nada mais viria, pensando naquele Phil Spector que apostava apenas em duas boas canções num álbum e o resto que se fodesse. Desculpe por esse “se fodesse”, mas há horas que, no vernáculo, não há expressão melhor. Eu sei, eu sei, há crianças na sala. Mas vem esta terceira canção, “Foreplay/Long time”, hard-rock-progressivo que, num piscar de olhos, vira a coisa mais doce e mais pop e mais pesada que seus preciosossssss ouvidossssss já ouviram. Isso tudo porque essa terceira faixa é nada menos que uma canção que Fat Boy Slim sampleou em seu set à beira-mar, naquele DVD que ficou anos fazendo da sua noite, leitora, e das noites de muita gente, muita mesmo, muita, uma rave doméstica, uma rave doméstica psicodélica que acontecia na sala da casa, com os vizinhos gritando e tudo. É uma canção altiva, e ainda há essas palminhas, esse riff de guitarra e essa banda num perfeccionismo de matar: “(Takin' my time) Oh, just movin' along...”

Fiquei com receio de ouvir o Lado B e pensei em escrever sobre um dos melhores lados A da história do rock, mas não resisti e virei o disco, e mais uma vez o raio caiu no mesmo lugar. As duas faixas iniciais impressionam, “Rock & roll band” e “Smokin’”, mas é de novo a terceira canção, “Hitch a ride”, que faz valer cada centavo dos 16 reais que gastei com este disco. Isto mesmo: 16 reais! Pouca gente dá bola para Boston e, por isso, é hora de comprar num vinil de bom preço este debut da banda. Mas me engano: é a quarta faixa, "Something about you”, e, não, a townshendiana terceira música deste lado do disco, que deixa todos os queixos caídos - ou me engano de novo e é a quinta sinfonia do lado B, “Let me take you home tonight”, que é melhor que todas as outras canções? 

Vê: neste mundo, tudo é uma questão de quem chega primeiro. Mas um vencedor mesmo, como diz aquela canção dos Hermanos, um vencedor mesmo tem na queda um certo ar que faz acender a coisa toda, feito uma candeia; sem contar que, além disso, enquanto os pratos dobram, tudo ascende. Nenhuma canção é uma ilha, e, num álbum, todas as faixas, juntas, viram um arquipélago sonoro que cerca a gente de todos os lados. Outro paradoxo? A gente tem de se perder, para se encontrar...

 

 

>>> ilustração de rodrigo caldas <<<

 

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS nasceu em Araraquara, em 1972. É professor de literatura, doutor em Estudos literários (UNESP, Araraquara, SP), editor, colunista e colecionador de discos de vinil. É autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco, 2011), da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz - a literatura beat de Jack Kerouac (2002), da tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road (2015), dentre outras obras. É editor do Tertúlia (tertuliaonline.com.br), colunista do site Digestivo Cultural e fundou em 2018 a Engenho e Arte, casa editorial onde publicou Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia e, também, O espaço que sobra, seu primeiro livro de poesia. 
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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

 

24/11/2019