)Tradução(

Poemas escolhidos / tradução; Éric Tirado Viegas (Ponty)

Éric Tirado Viegas (Ponty)

 

 

 

 

 

 

Ao leitor

 

A Insensatez, o erro, da miséria e pecado

Possui nossas almas cansadas nossa carne.

E, como animal, devoramos remorso lado

Como mendigos levam comer piolhos encarne.

 

Nossos dolos são pertinazes, de pesar;

Oferecer francos nossos votos de fé crivos

E voltam alegres passagens da sujidade,

Pensarmos lamúrias vai lavar nossos laivos.

 

No travesseiro do mal ficando o alquimista

Satã Trimegisto, acalma nossa alma cativa,

E todo metal mais rico de nosso anseio ativa

 As sublimados por suas artes herméticas.

 

Real o Diabo compor todas as nossas cordas!

Grosso objeto abjeto, cremos graça carnal;

Cada dia estamos dum passo adiante infernal,

Do Valor a bulir meio poço podres hordas.

 

Como um libertino pobre foi chupar e beijar

O triste e aflito seio duma velha puta aleijar

Nós roubamos prazer furtivo quando passar,

Numa laranja moída cingimos e rodeamos abusar.

 

Cerre, formigar, como um milhão de vermes quebro,

Tumultos duma nação infernal nossos cérebros,

Quando respirarmos, morte flui de nossos pulmões,

Sorção oculta gritos se arrastam em prantos mãos,

 

Se matar, ou se ardor crime, veneno, estupro

Ainda não adornamos nosso bom plano sopro,

Tela banal de nossos destinos deploráveis,

É só nossa alma não tem esta seiva criveis.

 

Mas lá todos chacais, panteras, mastins,

Os macacos, escorpiões, abutres, serpentes,

Uivam, gritam, grunhem, brutos rastejam, fins

Daquelas infames reuniões dos vícios.

 

Uma criatura apenas é mais suja e falsa!

Apesar não fazer bons gestos, nem grãos gritos,

Ele voluntaria varreria a terra alça

E um bocejo entalado em todo o mundo mitos;

 

Ele é Tédio!  - Olhares cheios choros sonhados

Por andaimes, enquanto soprou pipa d’água.

Leitor, tu também julgas monstro meigo dados.

 

- Leitor hipócrita, - cúmplice, do meu irmão!

 

Charles Baudelaire

 

 

 

 

Amado nervo

 

Se é bom

Se é bom, saberá todas coisas

Sem livros, não terá para teu espírito

Nada ilógico, nada de injusto, nada

Negro, na vastidão do universo.

 

O problema insolúvel dos fins

E as causas primeiras

Que há fatigado a Filosofia

Será para ti diáfano e modesto.

 

O mundo adquirirá para sua mente

Uma divina transparência, um claro

Sentido, e tudo em ti será envolto

Em uma imensa paz.

 

Deus te livre Poeta

 

Deus te livre Poeta

De verte-te na rua o teu irmão

Na mais pequena gota de amargura

Deus te livre Poeta

De interceptar seguir com sua mão

A luz que sol ilumina a uma criatura.

 

Deus te livre Poeta

De escrever uma estrofe que entristeça

De turbar com tua carranca

E tua lógica triste

A lógica divina de uma ilusão

De obstruir seu caminho, a vereda

Que recorra a mais humilde planta

De fragmentar a pobre folha

De entorpecer nem com o mais suave

Dos pesos, o ímpeto de uma ave

O de um belo ideal que se levanta.

 

Tem para teu júbilo o santo

Sorriso acolhedor que o prova

Por uma nota nova

Em toda voz que canta

E resta por menos

Um mínimo ferrão a cada prova

Que torture os maus e os bons.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Tristia

 

Pequeno livrinho meu

(E não te desprecio por ele),

Sem mim irás à cidade de Roma,

Ai de mim!  Coitado de mim!

 

Onde ao teu dono não lhe está permitido abraçar.

Sigas, porém sem adornos,

Qual convém há um desterrado:

Percorreste, infeliz, o imaginando

Adequado este infeliz de circunstância.

 

Que não te envolvam as adelfas com sua cor corada,

Já que essa cor não se convém

Muito bem em ocasiões de tristeza;

Nem ti escrevas teu título com mínio,

Nem se embelezem tuas folhas de papiro

Com o azeite de cedro,

 

Nem leves brancos discos em uma negra fronte.

Fiquem esses adornos aos livrinhos felizes;

Da sua parte, não deves esquecer minha triste condição.

 

Que nem si quer espalmem teus cantos

Com frágil pedra polmes,

Ao fim de que apareças arrogante,

Com as madeixas desregradas

Não te envergonhes dos borrões:

O que os veja pensará que hão sido

Feitos com minhas próprias lamúrias.

 

Lembra, livrinho, e saúde com

Minhas palavras todos lugares prezados:

Os tocarei, ao menos, com o pé

Com que este está admitido

Fazê-lo.

 

Se alguém, como advém entre povo,

Não se há olvidado ali de mim,

Si tiver alguém que, por casualidade,

Ti perguntares como estou, lhe dirás

Que estou vivo, porém não demasiado bem,

E há por isso, feito de viver,

O devo ao favor dum Deus.

 

Ovídio

 

Ítaca

 

Como você define a Ítaca

Espero que a viagem seja longa

Cheia de aventura, cheia de descobertas.

Lestigrões e Ciclopes

Zangado Poseidon - não tenhais medo deles:

nunca mais vai encontrar as coisas como que no vosso caminho

contanto que mantenha seus pensamentos positivos,

enquanto uma rara emoção desperta

seu espírito e seu corpo.

Lestigrões e Ciclopes

devastação do Poseidon - você não vai encontrá-los,

há menos levá-los junto dentro de sua alma,

a não ser que a tua alma os esboce para alto na sua frente.

 

Espero que a viagem seja uma das mais longas.

Pode haver muitos um Verão quando,

hoje de manhã, com que prazer, que alegria,

Você entrar em portos vistos pela primeira vez;

pode você parar em estações comerciais

Fenícia para comprar coisas bonitas,

Mãe de pérola e coral, âmbar e ébano,

 o sensual perfume de toda a espécie,

como muitos sensuais perfumes como pode;

e pode visitar muitas cidades Egípcias

ao reunir lojas de conhecimento de seus estudiosos.

 

Mas Mantenha Ítaca sempre na sua mente.

Chegando lá é que você se destina.

Mas não tenha pressa o caminho é de todos.

Melhor que dure por muitos anos,

de modo que  seja velho no instante em que chegar à ilha,

com coisas ricas com tudo o que você tiver adquirido no caminho,

sem esperar de Ítaca para tornar-se rico.

ìtaca deu-lhe a maravilhosa viagem.

Sem ela você não teria se estabelecido.

Ela não tem mais nada para dar-lhe agora

se encontrar a sua pobre, Ítaca não ter sido enganado.

Sábio como você ter-se-á tornado, tão cheio de experiências,

vai ter entendido então o que estas significam em Ítaca.

 

K. Káfavis

 

>>>>> Ilustrações de Rodrigo Caldas <<<<<

 

Éric Tirado Viegas (Ponty) é formado pela UNIPAC de São João del-Rei. Tem pós-graduação em literatura e língua portuguesa. Tem colaborações suas em A Voz do Poeta (RJ). Poesia Sempre (Biblioteca Nacional – Brasil), Órion – Revista de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa (Brasil/Portugal), Poesia para todos (RJ), Dimensão (MG), Babel, Ato Revista de literatura (MG), DiVersos (Portugal), O Achamento de Portugal (Brasil/Portugal), Antologia Mineira do Século XX de Assis Brasil (RJ Imago Ed.) Jornal da ANE (Brasília) e Jornal Rascunho (Paraná). Compôs a letra do lied de Alexandre Schubert (RJ) a “Salmico Betsaida”. Menção honrosa Concurso Música Brasileira de Contrabaixo, estreou no Congresso Universitário em Indianápolis nos USA. "Burlesca", para trompa solo no concerto do Prelúdio 21. Para o trompista e Sávio Faber a partir de uma imagem e uma poesia de Eric Ponty. Como librestista possui “A lenda do Irerê e Francisca de Querência” (óperas em andamento). Revelou tradução inédita de Fernando Pessoa (Folha/SP). Integrante das Terças Poéticas(MG) do Palácio das Artes. Autor de Pompas de Abril (Cancioneiro) e Lamentações dos emboabas (inédito). Tem publicado O menino retirante vai ao circo de Brodowski (São Paulo), Reproduções de Cândido Portinari (Musa 2002) PNLD 2006, Cantinho da Leitura(Goiás) FNDE. Traduziu em 1995 em versos livres “Cemitério Marinho” de Paul Valéry (A Voz do Lenheiro) e “A Pythia “(2009), além de “Música de Câmara”, poemas “Centavos” de James Joyce.

 

 

 

 

 

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas

 

 

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