)Livros(

Caracóis saem de seus mantos / poesia; Renato Alessandro dos Santos; "O espaço que sobra"

Haron Gamal

Fazer resenha de livro de poesia é uma tarefa difícil, sobretudo num momento em que há um grande número de poetas, e seus livros são de pouca circulação. As tiragens, sempre pequenas, muitas vezes se esgotam no dia do lançamento, entre parentes e amigos. Analisar poesia significa comparar o autor a outros poetas de sua época, compará-lo à tradição da poesia em determinada cultura, dialogar com obras da mesma estirpe etc.

Enquanto existia a tradição clássica era fácil falar desta arte: bastava tentar equivaler autores e verificar se conseguiam cumprir a arte poética que se seguia. A vinda do Romantismo foi a primeira curva desestabilizadora da tradição. Ao se privilegiar o nacional, abandonava-se o clássico. Apesar do movimento, um tanto tímido e elitista no Brasil, seus autores buscaram temas outros e situações distantes do aparelhamento tradicionalista. Com o Modernismo tudo se complicou. Como nas artes plásticas, ficou difícil dizer o que era ou não um poema. Todos poderiam ser poetas? Todos poderiam ser pintores? Ao poeta seria necessário demonstrar-se exímio dentro do modelo clássico para, a seguir, abandoná-lo e buscar o novo caminho? Hoje, nas escolas, é difícil ao professor mostrar aos alunos o que era a poesia clássica. Todo estudante está acostumado a algum poema desde os primeiros livros didáticos, e estes primeiros livros não dizem o que se passou até se chegar a um poema de Cecília Meireles, de Carlos Drummond de Andrade ou de Mário Quintana. Quando se vai ensinar literatura, é difícil dizer que tudo começou lá atrás. Como explicar que, para se chegar a um Drummond ou a um Leminski, morreu muita gente?

A poesia do espaço que sobra: o branco e o irregular da veia

Todas estas reflexões me vêm à mente ao ler O Espaço que sobra, de Renato Alessandro dos Santos, um pequeno livro de poemas (82 páginas) muito interessante. O autor passeia por vários tipos de poesia mostrando diálogos tanto com a contemporaneidade quanto com a tradição clássica. Sua filiação artística mostra-se no título, em sintonia ao poeta mineiro Donizete Galvão (1955-2014), cujo poema de onde foi escolhido o título vem publicado ao lado do índice.

Já no primeiro poema, “a imaginação acústica”, percebe-se a exploração sonora dos vocábulos quanto a sua relação a imagens que abordam uma vida plural (a civilização, o tempo e o sonho), boa de ser apresentada pela poesia, com seus sons, imagem de pássaros e animais, até desembocar no corpo, este corpo-rio, corpo heraclitiano, que mostra as dobras do passar do tempo, irrecuperável, mas a vida sempre continuando: “o coração / pulsando :: pulsando :: pulsando::”.

Em “A pérola” vivencia-se uma metáfora. Esperamos uma encomenda a chegar da mão do carteiro, “deslumbramento que/ antecede o desembrulhar de ostra".

Poema longo para o formato do livro é “árvore genealógica”: “ela queria ser uma árvore / dar sombra às pessoas / deixar seus galhos / braços partidos / na lareira”.  A árvore poderia ser para o bem ou para o mal, como proteger do sol, ou servir de alvo ao raio; habitat de um morador de rua, “ter a sorte de um casal / no seu peito tatuar dois nomes / contornados por um trespassado / coração             enquanto segredos/ aos ouvidos seriam divididos”. Vão desfilando, diante de nossos olhos, possíveis genealogias. Essa árvore, metonímia da vida, tenta representar todas as fases que o ser humano precisa viver, principalmente ao ressaltar o passar do tempo, afinal, não se pode viver fora dele: “não restaria uma única lembrança / no bêbado do carro desgovernado que v o a n d o / destroçaria sua cabeça no rosto dela [da árvore] / só um tanto de cabelo e sangue / que a chuva em seguida levaria / pra bem / longe”. Talvez esse bêbado sejamos todos nós, um tanto enlouquecidos, dispostos a atravessar a vida “que a chuva em seguida [...] / lavando a rua e a memória / de dias e de recordação”.

Curioso um poema à la Oswald de Andrade, cujo título é "22": “O joio / o trigo / o milho // espreguiça // o mió / do joio / do trigo / do mio”. A lembrança de que é a língua do povo que faz a gramática e a literatura. Sempre uma boa causa.

Além de poemas como “carpindo o dia” e “chove na saudade” que exploram a questão social, há poemas que falam da própria literatura, como “cirurgião-patela”: “quero fazer um poema / que traga um pouco de ondas / que vêm e / voltam de onde / vieram / levando um pouco de mim / um pouco daquilo / que restou de mim”.

Interessante o passeio pelo Clássico, onde o poeta mostra sua maestria numa dicção alexandrina, a produzir um soneto (embora no papel, o poema não esteja divido à maneira de Petrarca e, sim, na forma inglesa, com três quartetos e um dístico): fico a esperar por fim o que não chega nunca / cinjo os lábios reviro os olhos mas é nada :: / nada que seja inalcançável ó minha amada / doce esperança que não arrefece nunca”.

É importante esse poema em meio à tanta diversidade para o poeta demonstrar domínio no seio da tradição poética. Ele sabe metrificar, sabe escolher as rimas e optar por um de seus esquemas. Mistura o labor diário, a azáfama do dia a dia, a evocação à amada, a embriaguez e, à falta do sol para cantar o possível raio de vida, sabe evocar a lua como estrela possível embora tardia.

A brevidade da vida é muitas vezes explorada, como no extenso poema (ocupa quatro páginas) “livros que nunca vou ler”: “não vai dar para fazer tudo/ livros filmes canções ficarão de fora / porque não vai dar para fazer tudo // não há tempo // há um seguir // nas costas / a casa construída até aqui / um canto de galo :: de um lado a outro”.

Um poema herdado de uma extirpe bandeiriana: “madrinha”: “quanta tristeza guarda o coração / que quer muito mais / mais do que pode ter / mas o que tiver de ser seu / caberá na palma de sua mão / o resto / pra           lá / deixa // foi minha tia / quem um dia / disse”. É sempre boa a lembrança, a saudade da infância e dos entes queridos.

Dentre a diversidade, é melhor deixar ao leitor o sabor de apreciar tanta poesia. Renato, um escritor que nasceu em 1972, reinventa-se (ô palavra desgastada pelo capitalismo que não desejo reafirmar aqui), agora como poeta, e este poeta tem estatura, capaz de conquistar muitos leitores. Outro dia a assistir um programa de TV, uma bobagem, percebi um lampejo vindo de um homem que ditava (ele já morreu) a moda em Paris. Dizia: “gosto de ler poesia, mas não analiso os poemas, retenho apenas impressões”. Portanto, há leitor de poemas de todos os tipos, e ainda podemos conquistar aqueles que não entendem a arte feita de palavras e, sobretudo, de vazios. Há poetas que lançam livros pela Companhia das Letras... Por isso, termino com mais um poema de Renato Alessandro dos Santos, "os poetas malditos":

 

baudelaire morreu mudo

não é de espantar a ironia

por trás da morte de um

poeta que morre mudo?

 

rimbaud teve uma parte da perna am

putada            não é de espantar

que um andarilho que percorreu

a pé a europa ritmando os

passos às batidas do próprio coração

tenha sido suprimido de seu pé

como a estrada dele?

 

os poetas eram pessoas estranhas

hoje são funcionários na universidade [federal]

têm netflix gostam de futebol

torço

por poetas que ainda perdem as horas

não tem relógio e só um anjo

desdentado

sentado sobre o ombro

esquerdo

desses gigantes

 

PS: Renato opta, em muitos poemas, por uma nova simbologia a marcar as pausas, ou mesmo a ausência dela. Observa-se, ao mesmo tempo, um toque pessoal na exploração do espaço no papel como complemento ou suprimento de sentido.

 

>>> ilustração de rodrigo caldas <<<

 

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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13/10/2019