)Contos(

Um conto para Melanie / literatura brasileira contemporânea; conto; Beatriz Carolina da Rocha.

Beatriz Carolina da Rocha

Eu havia acabado de chegar em casa e estava muito tensa, preocupada. Ela tinha parado de responder minhas mensagens, meu Deus do céu o que eu fiz. Passou uma, duas horas, três, e já era tarde da noite, então eu resolvi ligar. A cada chamada, o meu coração batia mais forte, e nada de ela atender. Comecei a ter frio na barriga, eu não ia conseguir dormir enquanto não ouvisse dela que me perdoaria. A cada tentativa o meu coração disparava, minha boca começou a secar, e daí ela atendeu.

- Fala!

- Amiga me perdoa!

- Eu detesto ser pressionada, fazer as coisas sob pressão.

Eu não aguentei o choro e comecei a soluçar ao telefone.

- Para de showzinho, engole o choro. Eu tô me segurando pra não te falar umas boas merdas. Eu tenho problemas reais, você pelo jeito não tem e está querendo arrumar um.

Eu só sabia chorar.

- Amiga, me perdoa, não quis te machucar, não sei o que fazer.

- Eu tenho mais o que fazer. Por que você não senta na sua cama e põe a cabeça pra pensar, aprenda a lidar com as consequências dos seus atos.

- Por favor, vamos conversar, me perdoa.

- Eu ignorei todas as suas postagens, eu estava bem. A vida não é um mar de rosas.

- Nós vamos continuar sendo amigas?

- Sabe o que quebrou entre a gente? A confiança. Você me traiu. Não sei o que vai ser daqui pra frente, não sou vidente, vamos dar tempo ao tempo.

- Mas você vai me tratar normal na escola?

- Não, não vai ser a mesma coisa. Só não vou ignorá-la porque você é gente.

Não saía mais palavras da minha boca e não conseguia segurar o choro. Minha cabeça começou a doer. Fiquei sem reação e em silêncio.

- Vamos, você não queria conversar?

- Eu só queria o seu perdão.

- Se concentra em você, e me esquece, me dá um tempo.

- Me desculpa por tudo, tá? Eu preciso amadurecer, eu não devia ter te ligado. Boa noite. Durma bem.

- Tchau!

Aquela foi uma das piores noites. Não dormi. A cabeça pesada, os olhos inchados de tanto chorar. Uma angústia. E então peguei no sono sem perceber. Na manhã seguinte, era um sábado, preferi fugir da rotina. Não tinha motivação, forças. Estava me sentindo pesada, com um nó na garganta. Só pensava em como eu poderia resolver aquele conflito com minha amiga e ganhá-la de volta. Melanie é o nome dela. Decidi então pedir ajuda. Sua amiga mais próxima era Susana. Contava muitas coisas para ela. As duas se entendiam muito bem. Tinham personalidades parecidas. Passavam a maior parte do tempo juntas. Ela provavelmente conhecia Melanie mais que eu. Procurei-a nas redes sociais. Contei o que havia acontecido, e ela me disse que, por questão de personalidade, era melhor eu deixá-la quieta, estragaria as últimas chances que eu poderia ter de salvar nossa amizade. E ela me disse também que, mais tarde, tentaria conversar com Melanie.

No dia seguinte, eu tinha acordado melhor. Não sei, mas aquela conversa com Susana tinha me aliviado, eu senti que ela iria me ajudar, que ela me acolheria. Mas não foi isso o que aconteceu. Eu percebi que Melanie me bloqueou em todas as redes sociais, e sem me explicar, ela excluiu todas as fotos que tínhamos tirado juntas. Do grupo das meninas da sala, ela se retirou. E então, a dor voltou, com uma intensidade maior, passei a sentir uma angústia por mim mesma. Será que eu havia cometido um crime contra minha amiga? Começou a chover, não conseguia desviar meus pensamentos. A cada pingo de chuva no telhado, minha consciência me esmagava. É uma sensação que eu não desejo pra ninguém. Vegetei o dia todo, e a noite, eu quis dormir pra sempre, mas de novo, não consegui.

Acordei no outro dia sem fome, sem vontade, sem ânimo, com meu estômago gritando de calafrios. Arrumei-me e fui pegar o ônibus. Eu tinha aula. Precisava apresentar um trabalho na aula de literatura, mas minha vontade era não sair de casa. Cheguei à escola e nem procurei pelo meu grupo, eu apenas fiquei no refeitório, pensando na reação que seria quando visse a Melanie. Deu o horário da aula, cheguei à sala e não sentei com meu grupo, ela estaria lá, eu apenas fui para o outro lado, respirando fundo, passos rápidos, pernas bambas. A nossa professora percebeu no meu semblante que eu não estava nada bem, e chegou perto de mim e perguntou:

- Você não vai sentar com suas amigas?

- Não, professora, eu preciso ficar aqui mesmo.

- Entendi.

Passei o dia todo com uma ansiedade muito grande. Não comia, não bebia. A vontade de chorar vinha e eu segurava. A apresentação do trabalho foi depois do intervalo. Gaguejei, não sabia mais o que estava falando, nem fazendo, mas precisava de nota. A aula chegou ao fim, e antes de eu ir pra casa, a professora Lídia, a que estava na primeira aula quando eu entrei na sala, passou e me chamou pra conversar. Acabei desabafando com ela, o quanto eu estava me sentindo mal, o quanto gostava de Melanie, o quanto estava assustada. Ela me passou seu número, e pediu pra eu entrar em contato, que estaria disposta a me ajudar. Ela sabia o que eu estava passando naquele momento e sentiu empatia.

Na aula do outro dia, percebi Susana bem fria, indiferente. Eu quis perguntar, mas ela estava sempre com a Melanie. Decidi perguntar depois da escola.

- Susana, você também está triste comigo?

- Cris, quantas vezes eu fiquei sozinha na sala e você nem se aproximou de mim? E agora, pela Melanie, você quer conversar. Ela me contou o que houve entre vocês e, sinceramente, você foi muito infantil. Você não é mais criança, aja como uma mulher. Deixe a Melanie viver a vida dela, ela não é sua propriedade, cresça. Não tenho mais por que ter amizade com você. Nunca tivemos afinidade. Pare de invadir o nosso espaço.

Eu saí daquela conversa tentando digerir aquelas palavras que eram como cacos de vidro descendo pela minha garganta e me cortando. Não consegui dizer nada, apenas consenti e acreditei que ela estivesse certa sobre o que dizia. Respeitei. No grupo, nós éramos quatro amigas, duas delas eu perdi, restou-me uma.

O tempo passou, e tive de lidar com a dor da rejeição. Já não me socializava com mais ninguém, fiquei sozinha algumas semanas. Nos corredores da escola, passava por elas, e elas fingiam que eu não estava ali. Eu era uma mera brisa, ou menos que isso, um inseto, ou menos que isso. Eu era invisível. Comecei a sentir os efeitos daquela postura, me consumindo por dentro.

Dia após dia, fui perdendo minha autoestima, perdendo o zelo pelos estudos, perdendo minha essência. Olivia, a única amiga que havia restado do grupo, estava aos poucos se distanciando de mim também, e então eu fui perguntar o porquê.

- Olivia, o que está acontecendo?

- Cris, nós não somos mais do mesmo grupo, isso iria acontecer.

- Mas como assim? Você está diferente. Eu sei que iríamos nos distanciar, mas não queria perder a sua amizade também. Seja sincera, o que está acontecendo?

- Cris, no começo do ano, eu fiquei muito mal por conta do projeto. Você sabia que eu queria aquela vaga, você me disse que ficaria na área de pesquisa, e então eu, por respeito a você, preferi a parte das entrevistas. Mas você ficou em cima do nosso professor, perguntando, ligando, mandando e-mails. Até que conseguiu a parte das entrevistas. Você passou por cima de mim, foi desonesta comigo. Falasse então que queria a parte das entrevistas e eu ficaria com a pesquisa. Depois que vi Susana e Melanie se afastarem de você, desabafei algumas coisas com elas. Elas me disseram que isso não é amizade, eu sempre fiz o meu melhor a você, eu não mereço isso. Desde então, eu resolvi me afastar. Você não é uma boa amiga.

- Puxa, Olívia! Eu juro pra você, que essa não era a intenção, eu não fiquei em cima do nosso professor, não pedi pra ter aquela vaga. Mas tudo bem, preciso amadurecer. Eu não agi certo, não queria te magoar. Vou deixar você em paz.

Não tive forças pra me defender, com toda aquela bagagem de culpa. No começo do ano, eu havia notado que Olivia estava diferente, perguntei várias vezes se eu tinha feito algo. Eu queria que ela se abrisse comigo, queria ter cuidado mais da nossa amizade. Ela preferiu não ter contado nada e só agora, depois de tudo, ela se abriu comigo. Eu apenas aceitei. Mais uma vez, engoli as acusações. Aumentou minha dor. Procurei nosso professor pra tirar meu nome da lista, não me sentia mais digna daquela vaga, mas já era tarde. Eu estava matriculada na parte das entrevistas e o orientador do projeto me explicou que só me escolheu porque eu já tinha experiência. Eu quis sair e não consegui. Pela primeira vez, comecei a ter pensamentos suicidas. Eu não conseguia me concentrar em outras coisas: no amor que minha família tinha por mim, nas amizades que restavam, na vida que eu levava. Quando você faz parte de um grupo, e aquilo se torna especial, se você perde a aprovação deste grupo, uma força negativa cai sobre você. Estava tentando consertar as coisas e me concentrava não no que eu tinha, mas no que eu havia acabado de perder. Dali em diante começaram minhas lutas internas. Eu não sentia mais vontade de ir à escola, não sentia vontade de nada.

E o tempo foi passando. 

Dia após dia, eu descia até a pracinha para esperar meu ônibus, e ali havia a sorveteria da Tia Amélia. Eu tomava sempre o mesmo sabor, enquanto esperava meu ônibus e chorava. Eu sentia a dor da perda, sentia um vazio. Essa dor passava para o sorvete, ele perdia o gosto, mas eu o tomava, pra saciar aquele vazio. Fiz isso por um bom tempo.

Um dia, acredito que era uma segunda-feira, olhei o calendário e era dia 10 do mês de maio. Eu lembrei que bem nessa semana, há um ano, a mãe de Melanie havia falecido. Fiquei preocupada com ela, como ela estaria naquela semana, ela precisaria de mim. Então decidi escrever uma carta. Com todo o meu sentimento de pesar, de dor, de remorso. Eu quis colocar na carta todo meu carinho, sentia muita falta dela. Naquele mesmo dia à noite, escrevi. Esperei chegar a data do dia 13 e, por coincidência, no dia 14, não haveria aula, e eu não ficaria sem graça de ter que ir à escola no dia seguinte. Pedi a uma amiga nossa em comum para entregar a carta depois da aula.

Fiquei ansiosa o dia todo até chegar o final da aula. Então saí da sala pra dar mais liberdade a minha amiga, e para a Melanie não ficar constrangida ao pegar uma carta enviada por mim na minha frente.

Fui à lanchonete e fiquei ali alguns minutos, até dar o tempo de ela ler. Depois resolvi ligar.

- Amiga, e aí?

- Cris, eu sinto muito. Eu tentei, fiz meu máximo. A Melanie me pareceu muito chateada e não aceitou sua carta. Disse que se você quisesse mesmo e fosse mulher pra isso, iria falar com ela pessoalmente, e não mandaria cartas por meio de outra pessoa. E que você não deveria usar esse acontecimento tão triste da vida dela, pra tentar se aproximar, que isso não se faz. Cris eu tentei mesmo.

- Puxa! Está bem, eu entendo. Eu vou fazer isso. Ela deve estar na sala ainda, vou lá. Muito obrigada, você fez um enorme favor, pode sempre contar comigo.

Eu saí às pressas. Andei os quarteirões e cheguei à escola. Com passos mansos, fui até a sala, e Melanie estava lá, sozinha, esperando a hora de ir pra casa. Resolvi entrar. Eu estava tremendo, minha boca estava seca.

- Oi, você tem um tempinho?

- Eu tenho 26 minutos.

- Eu sei que usei o acontecimento de sua mãe, como meio pra me aproximar de você. Eu só queria que soubesse que eu me preocupo com você. E sei que o que eu fiz te machucou muito. Eu vou prezar pela nossa amizade. E, hoje, quem está sofrendo pela dor da perda sou eu.

Melanie deu um sorriso de canto de boca.

- Eu não acredito que você veio perder o seu tempo tentando se explicar. Eu fui sua amiga até o último momento. Quando eu paro de ser amiga de alguém, eu não volto.

- Mas você me perdoa? Eu sei que não mereço sua amizade, só queria o seu perdão.

- Não! Eu nunca vou te perdoar.

Comecei a querer chorar.

- Para com esse choro de crocodilo. Você está querendo chamar a atenção. O mundo não gira ao seu redor. A vida é muito mais que isso.

- Eu só queria poder me explicar. Eu procurei Susana pra pedir ajuda.

- Eu sei. Ela mostra as conversas dela, pra mim, e eu mostro as minhas, pra ela. Pode ficar tranquila, ela não me influencia, como você havia dito a Olivia outro dia.

Melanie dizia aquelas palavras com os olhos arregalados, e eu olhava dentro dos olhos dela e sentia angústia. Ela mordia os dentes, e eu ouvia seu maxilar ranger. Os nervos de seu pescoço estavam saltados. Ela estava sentada bem perto de mim, e eu notava sua respiração ofegante.

- Você está nervosa, quando passar, nós conversamos. Sei que você não é assim, eu te conheço.

- Não, pelo contrário, eu acho que você não me conhece. E eu estou calma, estou muito bem, eu me controlo. Talvez Suzana não, então cuidado. E obrigada, você me abriu os olhos.

Melanie sempre com um sorriso de canto de boca.

- Tudo bem, não adianta eu continuar aqui, eu já perdi mesmo. Você deve estar achando que eu sou um monstro, mas eu não sou, eu estou sofrendo. E sei também que eu conheci o seu lado mais doce. Desculpa por tudo.

- Por que você não fica repetindo isso na frente de um espelho? Quem sabe ele tem compaixão.

Fazendo gestos com as mãos e mexendo em seu cabelo, Melanie era sempre muito irônica e isso me desconcertava, me reprimia.

- Desculpa por tudo. Tchau.

- Vai, vai ao banheiro chorar.

Saí da sala, e parei alguns minutos na portaria. Não estava bem. Comecei a sentir uma repulsa muito grande, faltava-me o ar. Desci os quarteirões da escola, com vontade de desaparecer, e parei no semáforo. Os carros passavam diante de mim. Pela segunda vez, tive pensamentos suicidas. Dentro de alguns minutos, meu ônibus passaria, e eu acabei perdendo-o. Ali mesmo, minha pressão caiu.

Acordei num hospitalzinho que há naquele bairro. As enfermeiras perguntaram meu nome, de onde eu era, quantos anos tinha. E fui respondendo. Depois de uma hora, fui liberada. Uma moça muito gentil me levou ao ponto e ficou ali comigo, até passar o ônibus. Vim pra casa. Ao chegar, eu estava arrasada, tranquei-me no quarto e liguei pra minha mãe.

- Mãe, se eu morresse, você sentiria a minha falta?

- Cris, por que esse assunto?

- Eu não sei, não consigo pensar em nada.

- Vem aqui pro meu trabalho. Me conta o que está acontecendo.

Eu não consegui ir, fiquei em casa. Meus pensamentos não paravam, minha cabeça doía. Nunca tinha sentido meu coração tão apertado assim. A fim de parar essa dor, resolvi tomar vários remédios. Acabei misturando anti-inflamatórios com antidepressivos da minha mãe, tomei antialérgico, tomei calmantes, tomei xaropes. Eu estava totalmente descontrolada, queria cessar meus pensamentos. Depois de ingerir os remédios, acabei tomando bebida alcoólica. Tomei Whisky de Malte, Rum Grenadian, Vodka Devil Springs. E, por último, o mais forte, o licor xodó, do meu pai, o Spirytus, com 96% de alcool. Senti uma forte dor no estômago, e minhas vistas foram escurecendo, fui perdendo as forças, os sentidos e cai no chão. Meu irmão chegou e me viu caída, ligou pra minha mãe. Só me lembro de acordar no hospital de novo, internada, com várias vitaminas. E então começaram as perguntas.

- Cris, você vai me contar agora, o que deu na sua cabeça? – disse minha mãe.

 E meu irmão, fazendo carinho no meu cabelo, falou:

- Mana, você me assustou, o que aconteceu hoje?

E meu pai sem entender nada, foi o último a falar:

- Cristina, se abra comigo...

Pra eu explicar toda a história, teria que estar calma, sem muitas pessoas ao meu redor. Decidi esperar. Então eu só disse:

- Eu tô bem, depois eu explico.

Chegando em casa, minha mãe correu pro meu quarto e perguntou.

- Filha, o que está acontecendo?

Eu fiquei morrendo de medo de ela me julgar mal, mas mesmo assim, contei toda a história. E então ela ficou chocada. E disse que eu sou inocente nesse conflito todo, mas que eu não conseguia enxergar isso, só me enxergava como culpada. Disse pra eu ficar calma, que ela procuraria um psicólogo. Pela primeira vez, eu precisei de terapia.

Eu fiquei uma semana sem ir à aula, estava fraca, com dores no estômago, frustrações. Eu mesma fui atrás de um psicólogo pra mim e marquei a primeira consulta. Antes de voltar à escola, naquela semana, fui à primeira consulta, falei um pouco sobre mim, a escola, minha família, meus sentimentos. Ele só quis me conhecer. Eu ainda não havia contado sobre o conflito com minha amiga.

Na manhã seguinte, eu estava com muito medo de voltar à escola, mas eu fui, depois de uma semana. Cheguei à sala, entrei e, sem falar nada, sentei perto do professor. E ali, naquele ambiente, eu comecei a sentir muito medo. Meu coração disparava só de estar ali, eu tinha vontade de fugir, as meninas olhavam pra mim, sérias, como se estivessem me punindo por algo. Susana era a pior delas, quando queria respeito na sala, gritava alto “calem a boca”, “quero ouvir o professor”, “aqui parece maternal” e por aí vai. Isso me intimidava. Comecei a perceber que os mesmos comentários que elas faziam antes, quando eu era membro do grupo, comentários maldosos sobre os alunos ali da sala, seus defeitos, aparência, roupas, fraquezas, comentários que desconstruíam as pessoas, agora esses comentários eram pra mim. Eu era a pessoa debochada, desconstruída. Pra mim, que ouvira aqueles comentários antes, que sabia o teor da maldade, era desesperador ser a vítima e estar ali, tão vulnerável. Porque como eu já não fazia mais parte do grupo, pra elas, tanto faz, eu era como os demais, mais uma qualquer da sala que podia receber as críticas. Toda vez, eu saía da aula, descia os quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Eu colocava meus óculos escuros e descia chorando. Não sabia o que estava acontecendo comigo, não tinha saúde emocional. Naquele mesmo dia, à noite, decidi ter uma conversa com minha mãe, eu queria parar a escola. Era só aquela metade de ano, depois eu voltava. Mas minha mãe não aceitou. Disse que eu era muito fraca, que me deixava afetar pelos outros, que eu não devia ligar para aquela situação e, sim, continuar estudando, porque era meu futuro que eu estava perdendo.

Fiquei mais desesperada. Não queria sentir aquela sensação novamente na sala. Queria dar um tempo, renascer, queria resolver o conflito, mas a vida não para; ela continua, com ou sem saúde emocional, e os outros não entendem...

No outro dia, assim que eu acordei, preocupei-me com as roupas que eu usaria, coisa que também nunca acontecera. Dentro de mim, eu tinha medo e certeza que, se eu fosse com qualquer roupa, elas iriam rir de mim, comentar e desfazer de mim ainda mais, como se eu realmente não fosse ninguém. Havia uma blusa que eu gostava muito, de desenho animado, eu sabia que elas iriam rir, mas queria tentar superar aquilo que eu estava sentindo, então fui com a blusa, mesmo lembrando-me das palavras de Susana “pare de ser infantil, cresça”.

Cheguei à aula aquele dia e, mais uma vez, as risadinhas continuaram. E as crises de medo voltaram; eu olhei pra blusa e sai da sala. Fui ao banheiro com um aperto no peito e comecei a chorar, mas foi um choro de desespero, de angústia.

Eu não podia parar a escola, não me sentia bem na sala, não tinha amigos, e estava com dificuldade para fazer novas amizades. Tinha muitos pensamentos suicidas. Naquele mesmo momento, decidi ligar para a professora Lídia. Marcamos um almoço depois da aula.

Naquele dia mesmo, ela me levou até a psiquiatra dela. Comentei que estava fazendo terapia com psicólogo, mas ela me alertou que eu poderia estar com começo de crise de pânico, seria bom eu já começar a tratar pra não agravar. Depois do nosso almoço, ela me deixou na psiquiatra. A moça se chamava Mônica.

Eu entrei na sala de espera e, ali dentro mesmo, as lágrimas começaram a descer e eu pensei: “Olha onde eu vim parar”, “Por que eu não tenho controle sobre o meu próprio corpo?”, “Qual o motivo pra eu não superar logo?”.

- Cristina?

Eu não consegui enxugar as lágrimas e entrei com o rosto todo molhado dentro da sala de terapia.

- Oi, sou eu mesma.

- Pode entrar.

Respirei fundo e fui.

- Cris, posso te chamar assim, né? Meu nome é Mônica, eu estou aqui pra te ajudar, você prefere me contar o que está acontecendo, ou quer me responder algumas perguntas?

- Oi Mônica. Não sei se vou conseguir parar de chorar, prefiro te contar toda a história, assim você me ajuda a consertar as coisas.

- Ok, então, pode contar.

- Foi assim...  Quando eu entrei na escola, fiz amizade com todo mundo, no começo todos estavam se conhecendo, ninguém era contra ninguém lá, todo mundo se dava bem. Uma das primeiras pessoas que fiz amizade foi Melanie, eu fazia parte do grupo dela. Era ela, a Olivia, a Susana, e eu.

E eu continuei contando toda a história. Abri meu coração. Finalizei dizendo que numa noite, eu liguei pra ela, já era tarde, eu queria consertar o que eu havia feito. Eu entrei em desespero, queria me explicar, eu sabia que ela era uma irmã pra mim, mas eu agi por impulso, controlada pelas minhas emoções, eu me expus sem ter certeza de nada, ingênua e assustada, tentando consertar, eu estraguei tudo.

Depois de me ouvir, Mônica marcou um retorno e disse que foi muito bom eu ter procurado ajuda. Ela me explicou também que é muito bom pôr pra fora tudo o que sentimos, mas para as pessoas certas. Perguntou sobre minha infância, sobre meus pais, a carga emocional deles, porque isso afeta os filhos. E explicou também porque eu havia sido diagnosticada com síndrome do pânico. Queria entender por que outras pessoas passavam por coisas piores e superavam, e eu ainda não. Uma das razões seria hereditária, alguém da família tinha e eu provavelmente teria também, outra característica é que eu poderia ser uma pessoa controladora, no sentido de ter medo de errar, ou gostar de agradar e perder a aprovação de alguém que gosta muito, e tornar vulnerável a essa pessoa. O que faz com que a síndrome se manifeste é o gatilho, no meu caso, o gatilho foram as pessoas que me levaram ao extremo das emoções e a rejeição.  Eu só me curaria fazendo tratamento cognitivo comportamental, para entrar em equilíbrio novamente. É difícil alguém que nunca passou por essa situação entender alguém que está passando por isso, nós levamos fama de dramáticas, exageradas, fracas e de querer chamar a atenção. Rendeu muita conversa a terapia, cheguei a minha casa, mais leve, mas eu ainda me sentia culpada, pelo fato da Melanie não ter me perdoado, eu queria muito a amizade dela.  

Acabei criando um trauma muito grande. Dor emocional. A autoestima baixa. A síndrome do pânico não tem cura, pode passar o tempo que for, posso ter recaídas. E deixo de fazer coisas de que gosto, por conta dessa crise, ela vem sem avisar. Passa-se quase um ano, e eu ainda sinto a falta dela. Eu quis tanto a aprovação de Melanie que observava o tipo de pessoa que a atraía e eu tentava ser esse tipo de pessoa. Ela não se aproximou. Existe muito mais orgulho do que amor em nossa amizade. Hoje, tomo meus remédios controlados e faço terapias às quartas-feiras. Livrei-me de todas as blusas que eu havia ido à escola naquela época. Tenho minhas crises de pânico, durante as quais eu não tenho controle sobre o meu corpo. Susana saiu da escola. Olivia e eu nos afastamos e conversamos só o necessário. Ela manteve a amizade com Melanie. Do grupo que tínhamos, uma foi a companhia da outra, e a amizade delas cresceu da escola para a vida. Como as coisas mudam. Eu agradeço a minha professora Lídia, que sem obrigação nenhuma, me ajudou quando eu mais precisei. Talvez sem ela, não estaria aqui escrevendo. Eu não sei quanto vale uma amizade, mas garanto que muito mais que os remédios que eu tomo. 

 

>>> ilustrações de rodrigo caldas <<<

BEATRIZ CAROLINA DA ROCHA é formada em Letras, pelo Centro Universitário Moura Lacerda, e atualmente trabalha como professora de português no segundo ciclo do Ensino Fundamental, do sexto ao nono ano, em Luiz Antônio.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

  • 25-I Found My Way

22/09/2019