)Contos(

Nuvens / literatura brasileira contemporânea; "Nuven".

Gabriel Pantoni

As poucas coisas que deves saber sobre mim, por questões de relevância mesmo, é que me chamo Norman, sou desses garotos que se vestem de forma padronizada, tenho boas condições de vida, família estruturada e BLÁ BLÁ BLÁ, e amo Laís. Ela é o grande amor de minha vida. Palavras me faltam para descrever sua beleza. Seus olhos negros combinavam perfeitamente com seus cabelos e sua boca vermelho sangue. Desde o primeiro dia em que a vi, sempre me cativou, lembro-me que, no terceiro ano do ensino médio, era tão sensual que perdi as contas de quantas vezes viajei apreciando seu modo de andar, pra lá e pra cá, pra cá e pra lá. Naquele último ano do colégio, Laís sentava bem à minha frente; costumava acariciar seus cabelos só por vaidade, cheguei a imaginar que fosse para me chamar a atenção, mas ela só tinha olhos para Rui, ruivo, olhos claros, atlético, tudo o que Laís demonstrava querer, assim como as outras garotas do ensino médio.

Tenho que confessar que, em questões de popularidade escolar, formavam o par perfeito. Não me sai da cabeça uma segunda-feira que cheguei à escola, Rui segurava as mãos de Laís, por quê? Qual motivo teria para isso? Fortemente cerrei meus punhos, e mordi a língua, senti um gosto de sangue, saí rapidamente para enxaguar a boca. Quando subi as escadas em direção à minha sala, de longe avistei aqueles cabelos negros desfrutando das mãos de Rui. Beijavam-se de uma forma tão intensa que me causava ódio. Ele estava com as mãos abaixo de sua cintura; ela deliciava-se e, apesar dos pesares, não pude me conter, excitei-me. Mas sangrei novamente ao socar a parede. Por pouco não quebrei a mão, mas a dor física que sentia estava longe de amenizar minha angústia. Neste dia, voltei pra casa. As lágrimas caíam; dormi para abandonar o mundo de sofrimento que compunha minha triste realidade. Dito e feito, ela me apareceu em sonho...

Laís estava comigo, e eu era seu homem para sempre. Estávamos saindo de nosso casamento, seu sorriso tocava minha alma, me sentia vivo, parecia tão real. Lembro-me de que, a caminho de nossa lua de mel, avistei um acidente de carro, havia muita fumaça, mas pude perceber que ali estava, estirado no chão, o corpo de Rui.  Os cabelos ruivos carbonizados e suas mãos bem longe de Laís, a qual nem percebeu quem estava lá, parecia ter esquecido completamente daquele namorinho de colegial. Um sorriso se abriu em meu rosto. Seguimos para a lua de mel. Chegamos a uma casa linda, toda trabalhada nos detalhes madeirados. A vista para o mar se responsabilizava por tranquilizar todo o ambiente. O barulho das ondas parecia bater à porta, e tal beleza combinava perfeitamente com a de minha esposa. Eu olhava para o horizonte quando Laís me tocou levemente para me chamar a atenção. Afastava-se lentamente, começou a dançar bem devagar e a tirar sua roupa. Chamava meu nome e dizia, com a voz bem doce, que era toda minha. Na hora em que as roupas todas já estavam espalhadas pelo chão, minha mãe me acordou. “VENHA JANTAR, NORMAAAAAN”. A cama me prendia. Por alguns instantes, tentei fechar os olhos para voltar àquele paraíso. A vida prega essas peças.

Durante a refeição, só uma coisa me passava pela cabeça: Rui morto, ela será minha. Contudo, comi bem e procurei esquecer esse pensamento que não era nada moral. Em momento algum pude parar de pensar em Laís e que Rui poderia agora estar com ela. Eu daria tudo para tê-la aqui. Queria ser Rui. Além do ódio, a inveja me consumia.

Passaram-se seis meses desde aquele beijo e já tinha aprendido a lidar todos os dias com o desgosto de vê-los juntos. Todos os dias. Com muita dificuldade aprendi a controlar os punhos e parei de morder a língua. Mas por dentro ainda havia algo que jorrava sangue, por mais que tentasse estancar, sangrava. Estancar? Sim, esqueci-me de mencionar: eu não era um completo tolo, arrumei uma namorada, chamava-se Estela. Divertíamo-nos, mas ela representava um corpo no qual imaginava Laís.  Lembro-me de um episódio. Estela e eu estávamos em uma festa, numa noite de sexta-feira, na casa de Fernando, um idiota metido a playboy. Eu dançava com Estela quando avistei o casal que tanto me causava angústia. Parecia coisa de filme adolescente de má qualidade, mas na pista eles estavam bem à nossa frente. Não pude desgrudar os olhos de Laís, mas ela nem sequer notou que eu estiva ali. Os pais de Fernando tinham saído de viagem, e a festa, do controle. Havia muitas bebidas, maconha, pó e doce.  Estela estava muito bêbada, assim como eu, se bem que a maioria dos embriagados nunca é capaz de notar o nível correto de embriaguez. Estela foi até a sala de estar e deitou-se para descansar um pouco, logo pegou no sono, fiquei perto dela por um tempo. Havia uma janela que dava para a área de lazer, pude ver que algumas pessoas dançavam; outras, meio jogadas de lado, bêbadas. O casal repetia aquele beijo que tanto me excitava. Após alguns meses de autocontrole, senti gosto de sangue. Na casa existia um belo jardim, mas não estava muito bem iluminado, era atrás da piscina, a casa era bem grande, sempre fazíamos algumas festas ali. Enfim, fui enxaguar a boca, perdi um pouco a noção do tempo; pus-me a olhar o espelho, imaginando Laís e demorei um tempo naquele banheiro luxuoso. Quando voltei para a sala, as luzes estavam apagadas. Lá estava Fernando, sentado bem perto de Estela. Quando me viu, assustou-se, saltou para longe dela e fingiu estar usando seu celular. Pediu-me então para que fosse até a cozinha, pois Laís queria falar comigo, fui rapidamente, sem que se pudesse perceber a ansiedade. Lá estava ela, linda, vestido branco, sorria para mim e, como nunca havia feito antes, dizia:

–– Como você está lindo, Norman. Sabe, sempre senti algo por você, ultimamente não tenho conseguido controlar.
––  Como? Mas e o Rui? –– disse, tentando disfarçar.

–– Já não suporto mais o Rui. Quero alguém que seja fofo comigo, assim como você é com Estela. Não aguento mais apanhar na cara e ser humilhada por alguém que finge me amar – disse, com a cabeça baixa e os olhinhos transbordando.

–– Você está falando sério? Pois sempre vejo vocês e...·.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa mais, Laís me beijou. Após um longo tempo, desapareceu e uma nuvem de fumaça surgiu. Como uma espécie de portal, eu avistava por dentre ele Fernando tirando a roupa de Estela, que ainda dormia. Rapidamente outro portal se abriu: era Laís, novamente; puxou-me e continuamos o beijo. Eu a beijava de olhos fechados, mas ainda podia ver o portal de Fernando e Estela. Senti-me preso, dividido entre meus sentimentos e uma dúvida gerada pelo discernimento entre certo e errado. Assim que Laís me disse “Esqueça o mundo, agora somos nós dois, me beija”, obedeci. Ela foi desaparecendo e de longe me dizia:

 ­­–– O Rui é a barreira. Ele morto, serei sua.

 Essas palavras não me saíam da cabeça, num piscar de olhos fui até a cozinha. Peguei a faca mais pontuda e afiada que avistei e corri para o Jardim onde estavam Rui e Laís. A despistei para dentro, dizendo que Fernando a estava chamando, pois sua mãe havia chegado e procurava por ela, que correu desesperada; afinal, provavelmente, havia mentido para sua mãe como muitos de nós. Rui ameaçou segui-la, mas ela pediu para ele esperar e que daria um jeito. Afinal, os dois namoravam escondidos. Enfim, estávamos a sós. Você pode dizer que é extrema coincidência, mas eu prefiro chamar de destino. Com muito esforço fingi ser agradável e, fazendo da falsidade uma estratégia, disse:

–– Rui, há um ótimo lugar para pegar garotas nessa casa, onde acabei de transar com Estela. Quer saber onde é?

–– Agora! – disse empolgado. –– Laís deve voltar logo. Está louquinha por mim. Ontem, em sua casa,...

–– Vamos! –– Interrompi. Confesso que foi difícil não esfaqueá-lo ali, bem naquele momento.

Pode ser que você, meu amigo, esteja se perguntando por que Rui acreditaria em mim. Pois bem, saiba que a melhor maneira de persuadir um homem é quando ele está domado pelos encantos de uma mulher, que, no caso, era Laís. Portanto, pedi para que me seguisse. Quando chegamos ao jardim, ouvimos gritos. Pareciam ser de Laís. Rui ameaçou correr em direção à sala. Enfiei-lhe a faca nas costas e, por fim, depois, degolei seu pescoço. Quem me visse, naquele momento, veria que estava assustado. Em pé, os ombros caídos, a camisa ensopada de sangue, a faca na mão, enquanto, lentamente, minha respiração marcava a perplexidade que sentia. Parecia filme. Deixei a faca cair e saí à procura da nuvem de fumaça que trazia o portal de Laís. Ao encontrá-lo, atravessei-o rapidamente, mas despertei-me. A cama e meu corpo pegajosos, o sono pulverizando-se e por fim o alívio.

Graças a Deus! era um sonho.

Passei bem meu final de semana, Estela havia sumido, mas também não a procurei. Na segunda-feira seguinte, nem Laís, nem Rui, nem Estela, nem Fernando e assim foi pelo resto da semana. Apenas Estela e Laís voltaram duas semanas depois; a primeira parecia bem abatida com algo. Preferi não perguntar. A segunda nem notava minha presença, mas não sorria mais como antes. Talvez Rui tenha se mudado para jogar futebol em algum canto do país. Fernando deve estar viajando por aí.

Era novembro, numa manhã de quinta-feira. Laís estava sentada no banco onde costumava ficar com Rui. Chorava muito. Chamei-a, pela primeira vez, para dar uma volta pela escola. Fomos até o campo e sentamos embaixo da arquibancada, quando me disse: "Estela é a barreira, matá-la facilitaria nosso amor". Beijou-me e me mostrou um portal, por onde avistei Estela treinando na piscina da escola. Era nadadora, atleta, parecia uma versão feminina do Rui. As palavras de Laís não me saíam da cabeça. Caminhei na direção de Estela, que foi subindo para me cumprimentar. Ameacei beijá-la, mas empurrei-a para debaixo d'água, até que não pudesse mais sentir seus movimentos instintivos. A pobrezinha lutou pela vida, mas eu, só pensava em Laís. Logo aquela cena molhada foi se desfazendo em cinza claro. Aos poucos eu flutuava para longe da piscina e gritava por Laís. Suando frio, acordei. Foi tudo, mais uma vez, um longo e trágico sonho, daqueles que você sonha que acordou, mas continua sonhando, sabe? Pensei até em procurar um psicólogo.

No dia seguinte, acordei meio doente. Muita febre e dores de estômago. Portanto, não pude comparecer às aulas por alguns dias. Estela não respondia minhas mensagens. Não insisti. Dois dias depois, recebemos a notícia de que meu avô viera a falecer de mal súbito. Caminhava, tristemente, até o túmulo onde ele seria enterrado, mas não conseguia parar de pensar em Laís. Por um momento pensei em Estela, mas passou. Ao caminhar, tropecei em uma pedra, olhei para baixo e estava escrito em um epitáfio:

 

Rui Dominick

13/07/1996 - 24/10/2013

 

Tomei um susto e me levantei rapidamente. Tropecei em um vaso de flor que estava atrás de mim e saí rolando ladeira abaixo por alguns metros. Quando consegui me equilibrar, firmar as mãos no chão e me levantar, outro epitáfio:

 

Estela Catarine

15/08/1997 - 02/11/2013

 

Tudo ainda são cinzas, fumaça e nuvens.

 

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     ilustração de rodrigo caldas     

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GABRIEL PANTONI fez Letras no Moura Lacerda em Ribeirão Preto.

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 
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