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Rupturas: Raduan Nassar e Robert Arlt - o estilo como tomada de posição / literaturas argentina e brasileira modernas; Raduan Nassar; Robert Arlt; "Lavoura arcaica"

Haron Gamal

Na literatura, o texto não necessita estar de acordo com o modo de escrita do período de tempo em que o escritor está inserido. Caso fosse assim, não teríamos mudanças. Além disso, também há textos que não preconizam transformações, mas não deixam de apontar um desvio da escritura em relação ao que se escreve no período, fato que se torna mais visível e mais premente à medida que se aproxima a modernidade.

A perspectiva do progressismo e o começo da industrialização no ocidente geralmente são vistos como determinantes na mudança da concepção cultural da própria vida. O avanço do capital, tendo como moto propulsor as revoluções industriais, causou impacto na arte e na literatura. O que escrever ou como escrever a partir do momento em que massas de trabalhadores espalham-se pelas ruas a caminho das fábricas? O que criar quando o capital, com intensidade antes inimaginável, torna-se a máquina universal? Que arte protagonizar se já não é possível guardar-se o poeta na proteção de sua torre de marfim? Os decadentistas do final do século 19 já revelavam o desconforto. João do Rio assusta-se ante a chegada do primeiro automóvel, prevê o desvario, a nova vida alucinante; no final, morre dentro de um táxi, no centro do Rio, como se preconizasse a solidão moderna. Antes, uma literatura como a de Machado de Assis já revelava o desconforto de seus personagens pertencentes às elites compostas por seres que marcham em círculos, presos a concepções patriarcais da existência. Tudo funcionava como se o espaço destinado a eles diminuísse pouco a pouco. Se Brás Cubas encontrou seu lugar, é o lugar do irresponsável, o lugar de quem vive uma espécie de vertigem urbana que se anuncia. D. Casmurro tenta, através da retórica, reconstruir um mundo perdido. Em Lima Barreto, a modernidade o esbofeteia e condena à morte seu principal personagem, Policarpo Quaresma, vítima de uma honestidade que o advento do mundo moderno com suas máquinas de guerra não comporta. A seguir, finda as duas primeiras décadas do século 20, abre-se uma lista de escritores ora deslumbrados com o que o futuro promete, ora transtornados, saudosos de um passado que se apagou, cegos pela lâmpada elétrica. Já não é possível ver luz no último candeeiro de Raimundo Correia ou de Olavo Bilac. E sempre haverá os estrangeiros, isto é, os escritores do estranhamento, aqueles que não se enquadram em nenhum dos dois períodos, o passadista ou o futurista; o deslocado, o estrangeiro, sempre a perder a esperança da identificação. O cárcere deixa marcas em Graciliano Ramos, e Guimarães Rosa refugia-se num sertão impossível. Por falar em Graciliano, uma espécie de realismo socialista aprofunda a desilusão. A literatura como arma acabaria por voltar-se contra o próprio autor. Os modelos socialistas já deixavam marcas de exaustão em grande parte do planeta. Esta arte, composta de palavras, não fora feita para o campo das metralhas nem para as penas plenas de tinta rubra. O que restou foi mostrar as consequências de todo o drama, e mais uma vez a solidão, irremediável característica humana.

O modernismo passou a ser visto como recusa a tudo que se referia a um passado até certo ponto esgotado, sobretudo quando se tratava das experiências artísticas. Acabou provocando vários tipos de comportamentos, tanto performáticos como na esfera da obra em si. Quem o negou não sobreviveu. De nada adiantaria nadar nas águas de um passado que, pelo menos em metáfora, negava a concepção heraclitiana de tempo. Banhava-se sempre no mesmo rio. Mais tarde, com o aprofundar do mesmo modernismo, muitos chegariam a dizer que o rio sempre fora o mesmo. A recusa como lugar comum já não ressignificava coisa alguma, mas apontava o lugar comum na marcha da história.

Apesar de tantas controvérsias, é lícito pensar no modernismo como um movimento que desestabilizou as estruturas clássicas e passadistas da arte, sem querer dizer que mudaria para sempre o rumo da história, esta dama imprevisível, que sempre está a se mostrar sob algum disfarce. Nenhum historiador, por mais sólida a obra, jamais a surpreendeu sob seus véus ora escuros ora carnavalizados. Assim, torna-se possível e permitido estudar os autores do período e consagrar à linha de tempo conhecida como modernismo tanto como adesão aos valores progressistas e futuristas como, mesmo precisando do arcabouço cultural e teórico do momento, atacá-lo, apresentando suas consequências como fomentadoras da desagregação. A literatura, aqui, apareceria como crítica múltipla. O estilo e a linguagem modernos arrastariam os cacos da desilusão. É isso o que acontece em escritores como Raduan Nassar, no Brasil, e Roberto Artl, na Argentina. Ambas as obras, por vias distintas, espelhariam criticamente um mundo partido. O modernismo que, para muitos, preconizava um futuro iluminado, acabava por se tornar um barco com o farol na popa, apresentando nas espumas de muitas ondas os destroços de uma concepção de história, ou de história da arte, que teria como missão o levantamento de tantas desventuras. A arte, mais uma vez, apontaria para o seu próprio limite, constatando sua insuficiência em fazer previsões ou em manipular armas que se supunham poderosas.

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, já no início da narrativa, atesta a atitude de recusa, um homem fora do mundo, alguém trancado num quarto tentando criar um universo próprio, um ser humano apartado tanto de um mundo patriarcal (que da cidade parece distante e terminado) assim como de um mundo futuro, regido pelas máquinas e pelo individualismo. Ao mesmo tempo, conforme o capítulo se desenvolve, observamos pouco a pouco a perda da atitude de recusa. O primeiro personagem se apresenta na mais profunda solidão, num sórdido quarto de hotel, numa cidade distante do lugar onde vivia, uma espécie de exílio. Apesar dessa solidão e de uma extrema desilusão na sua relação com o mundo, é possível perceber que ele, André, vive em busca da liberdade. Um comentário, aqui, é pertinente. Primeiro, a presença da cidade, que, como se sabe, desponta na literatura com Baudelaire, o primeiro autor a dar à cidade o status poético, como atesta Walter Benjamim (Baudelaire e a modernidade, ver página). Mais adiante, somos informados da presença do irmão do personagem, um homem vindo de um lugar distante, que lhe bate à porta.

O lugar distante é a fazenda onde vive a família de ambos, uma economia de estrutura patriarcal. A missão deste segundo é levar de volta o irmão, ovelha negra desgarrada, para que o teto da economia familiar não desmorone. A primeira edição de Lavoura arcaica é de 1975, e já ficara muito atrás a vanguarda europeia, a semana de arte moderna, e todos os escritores que trouxeram inovações à nossa língua e cultura. Raduan Nassar, no entanto, bebeu na fonte moderna. Sua história é um libelo de contestação à estrutura familiar patriarcal, onde o indivíduo não se consagra como sujeito, pois há a presença opressora e dominante do pai. O romance nos mostra tais dualidades: indivíduo versus coletivo; cidade versus campo; religião versus rebeldia; sexo versus castidade, interdição versus incesto e, enfim, honestidade versus hipocrisia. Outro dado que comprova o trânsito anfíbio, não apenas desses personagens estrangeiros, é a linguagem. A escritura não se consagra como moderna, mas traz o lastro de construções consagradas pela linguagem culta, poderíamos dizer até clássicas, com períodos longos, o uso constante de ponto e vírgula, muitas figuras de linguagens, como metáforas e comparações, assim como a abundância das cores e as sinestesias. O que se desvenda, ante nossos olhos surpresos, é uma obra de fins da modernidade (ou começo do período conhecido como pós-modernidade), mas que não se consagra apenas como crítica ao passado, mas à própria modernidade. Este fato ratifica a característica anfíbia da obra, que se aproveita tanto de náufragos da modernidade como do período anterior, ainda sob os pilares das concepções clássicas da cultura. Por meio de linguagem quase parnasiana (sem querer dizer que parnasiano seja sinônimo de algo ultrapassado), Lavoura critica o passado, com uma concepção moderna de mundo, inclusive utilizando a concepção freudiana de morte do pai.

Já Roberto Arlt (1900-1942), nascido em Buenos Aires, foi filho de imigrantes pobres recém-chegados ao país: seu pai, o prussiano Karl Arlt, e sua mãe, Ekatherine L. Lostraibitzer, nascida no extinto Império Austro-Húngaro. Na casa de Artl, quando criança, falava-se alemão. O ambiente de uma Argentina da primeira metade do século 20 – um país caracterizado pela opressão e pela desigualdade, que explora impiedosamente os imigrantes – vai ficar gravado na obra do autor. Ele criou uma literatura que privilegia as baixezas e grandezas de personagens do submundo bonaerense.

“El Jorobadito”, conto que se estende por vinte e três páginas, apresenta a vida de dois personagens. O primeiro deles é o próprio narrador, que inicia assim a narrativa: “Os diversos e exagerados rumores espalhados com o motivo da conduta que observei em companhia de Rigoletto, o corcundinha, na casa da senhora X, afastou em seu tempo muita gente do meu convívio” (tradução minha). Neste curto trecho, já se pode observar as primeiras características da obra de Artl, que, de certo modo, vem renovar a literatura argentina, ainda plena de ventos passadistas. A primeira observação é referente à presença de dois adjetivos no início do período, diversos e exagerados, caracterizando o substantivo rumores. Ainda que se trate de uma menção ao comportamento de Rigolleto, personagem deformado fisicamente, que o narrador conhecerá num bar e que trará para o seu convívio, estes dois vocábulos já apontam o rumo da própria obra de Artl, uma obra plena de rumores diversos, às vezes exagerados, plena de situações excêntricas (pelo menos para o leitor não acostumado a tal tipo de literatura – deve-se levar em conta o período em que foi escrita), que apresenta como personagens principais seres decadentes, subprodutos do capitalismo desenfreado, gente sem esperança, lançadas em sombrias prisões, em calabouços, ou em manicômios onde permanecem esquecidos.

É possível também retirar desse início de narrativa outras lições. O caráter anfíbio de uma literatura a transitar entre a necessidade de o homem se comportar como alguém civilizado, urbano, pleno de educação, tendo em contrapartida seres desgarrados, de palavreado tosco, que, ainda assim, acham-se pertencentes ao universo da cultura, sentindo-se e colocando-se como seres capazes de conviver com pessoas das classes mais abastadas e de fazer parte de suas visões de mundo. Isto vai ocorrer com o narrador e o seu amigo na relação de ambos com a senhora X. Eles mostram-se personagens com pretensões de viver na alta sociedade mas, ao mesmo tempo, suas marcas, sobretudo as de Riglolleto, o corcundinha, pertencem ao submundo. Tal comportamento, no entanto, não ficará impune. Foi o modo de Roberto Artl mostrar à sociedade de sua época como a literatura poderia retratar esta mesma sociedade. Aqui entra em jogo o modernismo como recusa das estruturas vigentes. Não falamos apenas de estruturas linguísticas, mas de estruturas sociais. O autor argentino, que revoluciona as letras de seu país a ponto de se tornar mestre de Cortazár e Bolaño, não conseguirá reverter tais estruturas sociais, pois a literatura, como já falamos anteriormente, não possui armas suficientes para tal ação. No entanto, a nódoa, a mácula que se expande, é elevada a status de literatura, arte que deixa de ser pedestal a autores de academias, consagrados por seus pares como faróis da cultura. Se há algum tipo de iluminação, Artl mostrará que esta vem das ruas, das tabernas, das prisões e dos manicômios.

 

Vejamos outro exemplo:

Depois que acendi o cigarro que ele me ofereceu, Rigoletto apoiou o curto braço sobre minha mesa e disse:

– Sou inimigo de fazer amizades novas porque há gente que geralmente carece de tato e educação, porém você me convence... parece uma pessoa de bem, quero ser seu amigo – disse tal coisa e, vocês não acreditariam, o corcunda abandonou sua cadeira e se instalou à minha mesa.

 

O trecho revela a inversão de valores. O corcundinha, um vagabundo de ocasião, ser nefasto, pernicioso, mostra-se superior, entendedor da vida em sociedade, verdadeiro psicólogo da natureza humana. É importante, ao mesmo tempo, observar a descrição física do personagem, “Rigolleto apoiou os curtos braços”, mas Rigolleto não se mostra curto em inteligência. O trecho pode ser lido como uma crítica à sociedade em que viveu o escritor argentino, uma sociedade até certo ponto corcunda, deformada, em que os valores encontram-se invertidos. É lógico que tal observação precisa ser validada pelo período em que viveu Artl e pela data do aparecimento da obra. A chegada à literatura de personagens como esse corcundinha, e mesmo como o narrador, era recente, assim como a presença do submundo. Não sabemos, numa narrativa em primeira pessoa, quem na verdade está com a razão. O autor, com seu extremo requinte retórico, consegue criar um narrador muito convincente, que nos conquista, nos põe a seu lado, enquanto é possível que ele, com sua carga de preconceito, seja o personagem de rótulo negativo, o verdadeiro malfeitor. Ainda que voltemos na argumentação e consideremos Rigolleto como espécie de ser que se aproxima do narrador com objetivos escusos, um ser que vive de pequenos golpes, ele, Rigolleto, será a vítima, pois perderá a vida. Mesmo assim, pouco importa de que lado está a razão. Os dois transitam na mesma via, e seus crimes são muito semelhantes: o do narrador, principalmente, porque se trata de alguém que não consegue integrar-se à vida social, e Rigolleto, que consegue integrar-se, mas de maneira inversa.

É preciso ressaltar não apenas o tema da narrativa de Roberto Artl, mas principalmente seu vocabulário, a precisão nos diálogos, a verossimilhança com o submundo. A literatura, mesmo em diversos países europeus, não lograra até então uma via potencializada a tal monta em tema e estrutura, assunto e linguagem. Na história da literatura, toda vez que o subterrâneo, o precário, o transitório surge nas narrativas, a cumplicidade do autor não escapa à ideologia. Este tinha o dever de ter o pudor de deixar tais discussões um nível abaixo, o que revela a medida do papel do intelectual no universo das artes. Por mais retratar a pobreza, a sordidez, os vícios, ele tem uma explicação, uma tese, parâmetros que sustentariam as atitudes de seus personagens. Após a modernidade, não há mais tese alguma, a realidade despenca sobre cada um de nós sem explicação. E é isso que acontece, tanto quando falamos na linguagem de Artl, como no conteúdo de seus contos.

Voltando à questão da ruptura, conforme afirmo no início deste ensaio, Raduan Nassar, por um lado, com uma linguagem quase clássica, estruturada de acordo com os padrões gramaticais, plena de metáforas e sinestesias, retrata um universo que até certo ponto seria convencional, conservador para, a seguir, detoná-lo, demonstrando a sua impossível realização num universo contaminado por um tipo de relação que tenta prescindir das ramificações da pólis, de seu universo de troca e negociação. O que seu texto revela é a inviabilidade da relação apenas familiar, intramuros, como queria o patriarca, uma lavoura realmente arcaica, gerando, como consequência, relações perversas e incestuosas. Por outro lado, Roberto Artl, com sua urbis realizada em bares, becos, ruas sombrias, prisões, hospitais e manicômios, propõe as relações sociais possíveis, que, muitas vezes, se mostram fissuradas não pela falta de abertura, de relação com o mundo, mas por essas relações se mostrarem corrompidas e contaminadas pela falta de afetos, uma pólis às avessas, que também não deixa de ser perversa. Tanto num autor como no outro, não se apresentam saídas, nem seria esse o papel da literatura, que não pode ser vista sob as vestes de uma senhora missionária.

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arte final de rodrigo caldas

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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14/07/2019