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São tempos difíceis para aqueles que sentem muito / crônica

Anna Carvalho

Os dias passam e a cada minuto eu tenho mais certeza de que o maior problema da humanidade é duvidar daquilo que se sente pelo outro.

Nós somos levados a uma constante dúvida, a um constante questionamento. Sentimos medo, tristeza, pavor e nos escondemos disso.

Nós escondemos o rosto quando estamos irritados. Choramos no banho enquanto o mundo parece sentar e decidir escutar cada um dos nossos questionamentos. Ocultamos a felicidade por medo da inveja, sofremos em silêncio, pois não há vergonha maior do que... sentir?

Escondemos amores, evitamos abraços, temos todas as crises de ansiedade imagináveis porque não há medo maior nesse mundo do que... sentir?

Em toda a minha vida eu sempre fui reconhecida por ser sentimental. Eu chorava no meio das pessoas (e chorava muito, ainda choro), eu abraçava quem eu podia (e quem não podia também). Mas me disseram que era errado. “Passa uma maquiagem pra não saberem que você chorou”, “Você não pode demonstrar tanto assim, vão achar que você ta afim do menino”, “Ninguém precisa saber que você ta apaixonada”, “Ta feliz demais, a noite foi boa?”

E eu não entendia. Se todos nós sofremos dos mesmos males e comemoramos as mesmas vitórias, qual é o problema em compreender que não há mistério algum em sentir?

As pessoas estão morrendo por simplesmente deixarem que as suas vozes falem mais alto que o medo que fecha as nossas bocas. Nós sentimos pela arte, pela literatura, pela justiça, pelo amor direcionado ao mistério do universo. Nós não sabemos a verdade sobre nada. Pelo menos, pra mim, nunca houve sentido em fugir do nosso sentimentalismo tolo e clichê.

Talvez, essa falta de empatia toda que a gente questiona, não seja um problema tão só, social. Talvez a expressão sentimental seja a única solução pra resolver esse distanciamento que a gente não compreende.

É se colocar no lugar do outro. É entender a responsabilidade que cada um de nós tem pelos sentimentos alheios e não apenas compreender que o nosso sentimentalismo exagerado nos afasta do mundo. É aceitar que cada mínimo sentimento forma a nossa personalidade como nenhuma outra poderia ser.

Hoje, quando me julgam pelo sentimentalismo humano e as dificuldades da vida, eu apenas respondo “me desculpe, eu sinto muito”, com todos os sentidos que essa frase pode compreender.

Seja flor. Mesmo que você tenha nascido pedra.

 

+++ ilustrações drodrigo caldas +++

 

ANNA CARVALHO é estudante de jornalismo na Barão de Mauá, em Ribeirão Preto.

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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