)Cinema(

F.I.L.M.E., de Lillian Ross / "Filme"; Lillian Ross; "Glória de um covarde"; John Huston; Stephen Crane.

Renato Alessandro dos Santos

É sempre uma satisfação deixar-se levar pelo entusiasmo que alguns livros dão ao leitor, encorajando-o a cada linha, mesmo que, nem sempre, eles ensinem algo novo - best sellers como sugestão - quando leitores ansiosos voam como corsários rumo ao desfecho de uma narrativa que - rapaz! - deixou-os a atropelar noites sem dormir e… para quê? Para ler. Ah, quem sabe um dia alguém escreva a história secreta da leitura interior...

Não há grandes sobressaltos neste Filme, de Lillian Ross, jornalista que, aos 22, aceitou o convite de John Huston para acompanhar as filmagens de Glória de um covarde (The red badge of courage), adaptação do clássico romance de Stephen Crane sobre a Guerra Civil americana.

A jornalista, curiosa com a indústria cinematográfica, queria saber mais sobre os percalços que um filme passa, antes de chegar, fresquinho, à tela grande do cinema. Durante mais de um ano e meio, da pré-produção à recepção do filme, a memória e os apontamentos de Ross serviram como um "gravador embutido" (Edmund Wilson), com o qual ela  escreveu uma das reportagens mais importantes do jornalismo literário, sim, este Filme, obra que fez Truman Capote sabatinar Ross, enchendo-a de perguntas sobre seu método de escrever, enquanto ela respondia tudo o que queria saber o futuro autor de A sangue frio, outro texto sagrado a compor o que hoje se entende como obras que buscam na literatura as técnicas ficcionais capazes de ampliar os relatos fatuais do jornalismo. A fórmula é simples: jornalismo + literatura = jornalismo literário.

Ross, caderno de apontamentos 12x7 na mão, deixava o cenário ser montado. Ela estava ali e, ao mesmo tempo, não. Não mergulhava na mente de seus personagens; apenas os observava, registrando o que diziam e faziam de importante. A memória era infalível e, em relação aos apontamentos, o "gravador" sempre vinha em primeiro lugar: observando como uma câmera, ela escrevia, sem julgar a cena; cabe ao leitor tal honraria, e a jornalista lhe dá esse prazer, fazendo-o tirar suas conclusões, em vez de dizer o que ele deve pensar. Nem sempre lições como essa são aprendidas como deveriam.  Matinas Suzuki Jr., na apresentação que faz da obra da autora, lembra do que ela escreveu em Reporting. Trata-se da regra de número 11 (de um total de 17) do que ela chamou de "Manual Ross de Reportagem": 

Evite a interpretação, a análise, passar os seujs julgamentos dizendo ao leitor o que ele deveria pensar. Restrinja-se ao que pode ser observado e reportado. Chegue o mais perto possível da verdade e deixe o leitor fazer a cabeça por si mesmo. Se tiver um incontrolável impulso para tornar suas opiniões explícitas, escreva um artigo polêmico ou um ensaio ou um planfleto ou um editorial, mas não tente fazer reportagem. Ter um ponto de vista é outra coisa: o seu ponto de vista deve estar implícito nos fatos que você apresenta.

Filme, o livro de Ross, mais do o filme em si de Huston, vem sobrevivendo melhor. Ao mostrar como uma película pode ser mutilada na pós-produção, para desgosto do diretor, que nunca mais reviu seu filme, Ross conseguiu iluminar mais ainda Glória de um covarde, algo que bons livros como este são capazes de fazer.

 

+++    Ilustração de Rodrigo Caldas    +++

 

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS nasceu em Araraquara em 1972. É professor de literatura no ensino médio (COC, de Batatais, e Colégio Marista, de Ribeirão Preto) e superior (Centro Universitário Moura Lacerda, de Ribeirão Preto, e Faculdade Calafiori, de São Sebastião do Paraíso). Fez mestrado e doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, onde também se graduou em Letras (licenciatura e bacharelado); é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia (Engenho e arte, 2018), Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco, 2011) e, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco, 2011), de Literatura futebol clube (Multifoco, 2012) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial, 2012); escreveu a dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac (2002) e a tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road (2015). É editor do sítio Tertúlia(tertuliaonline.com.br), colunista do site Digestivo Cultural e fundou, em 2018, a editora Engenho e Arte. Contato: realess72@gmail.com Facebook: Renato dos Santos Santos

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

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24/02/2019