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Gonçalves-se! / Gonçalves, MG.

Renato Alessandro dos Santos

Amanhã é dia de ir embora. Faz quatro dias que estamos aqui. Só hoje que a gente achou melhor não sair de casa, para não fazer nada mesmo. Quer dizer: Sementinha de Mostarda (Silvia) está prestes a fazer um churrasco. É ela quem cuida dos acepipes. Dráuzio Varella (Théo) está no quarto, diante do computador, decerto. Sarcófago (eu), como não poderia ser diferente, estou a mergulhar mais fundo nas profundezas do meu eu, tal o egocentrismo com que fico a esmerar a alma, lapidando-a sem compromisso, como agora. Como agora: poderia estar ao lado de Sementinha, ajudando-a com alguma coisa, ou poderia estar com Dráuzio, tentando desvendar os segredos da matemática, que a um rapazinho de 18 anos só o faz ir cada vez mais longe nos domínios dos números. Mas estou aqui, tergiversando, tergiversando. Gonçalves, MG, enfim, a “pérola da Mantiqueira”.

Estou sentado no meio de uma montanha; ao redor desse banquinho de plástico, ergue-se uma casa de alvenaria de dois quartos, um banheiro, uma cozinha, um alpendre e um gramado que a circula, com uma cerquinha de bambus. Há canteiros de hortênsias em toda ela, e, dentro deles, sabiás e outros passarinhos fazem ninhos. Agora mesmo, pousou outro sabiá na cerca --€• o bico com raminhos secos dessas coisas que, se se acabam por se enroscar em nossos pés, jogamos fora --€•, enquanto Dráuzio --€• aqui finalmente --€• faz uma foto panorâmica do que a gente vê, e o que a gente vê são montanhas, montanhas, montanhas, e casas ao pé de todos elas; pé, é modo de dizer, porque muitas delas estão lá no alto. Quando chegamos, o carro quase fundiu o motor --€• ou aquele cheiro de coisa queimada era dos pneus? --€•, mas no dia seguinte a gente já estava pendurado nas estradinhas de terra e de cascalho, com nosso carrinho mais intrépido que Herbie, o fusca. Bem, ao redor de nós há essa vista tão deslumbrante que se insinua. Eu deveria estar olhando para ela, em vez de ver a tela do notebook e, sem dúvida, devo fazer isso mesmo. Agora. Até mais.

 

 

4 horas depois...

Foi um belíssimo churrasco. Carne, linguiça, truta, cerveja, pinga e uma mistura de conhaque com mel que custou cinco reais a garrafinha. De plástico. Ah, havia também alface e tomate. Hoje foi o último dia por aqui, porque amanhã é acordar e ir embora. Então, o que valeu a pena nesta viagem? Creio que tudo. Fazia cinco anos que não viajávamos por estas bandas. Estas bandas: no centro de tudo está Monte Verde, MG, que será sempre esse lugar maravilhoso onde espero um dia morrer, mas não agora e, sim, depois de velho, bem velhinho, tipo aqueles lugares aonde nos dirigimos para estacionar de vez, tipo as baleias, os fósforos e os girassóis. Acho que a melhor forma de contar tudo é de trás pra frente.

 

Lá e de volta outra vez (Dia 4)

Então, houve o churrasco que acabou há pouco. Nesta noite que passou, aconteceu algo inusitado também. Duas garotas de 20 e poucos anos, mais perto dos 20 do que dos 30, apareceram aqui. Era quase meia-noite. Ariel e Neve (elas) buzinaram e bateram palmas, e quando eu fui ver o que era, achando que poderia ser alguém de alguma seita, tipo Manson, com gente que sairia de uma combi, com facas e muitas más intenções na cabeça --• onde mais? Nos pés? --€• mas não era nada disso; eram apenas duas garotas (um casal, na verdade) que me perguntavam se a casa que nós estávamos era o “Camping Gonçalves”, ou alguma coisa assim. Disse que não, mas como eu poderia saber? Estamos aqui há tão poucos dias... Fiquei com pena delas; primeiro, porque, para chegar aqui em cima, como você já sabe, o carro derrapa, engasga, regurgita, desmaia, suspira e tudo mais, e o automóvel delas --€• compacto, novo, importado (imagino) --€• não parecia feito para estas paragens (como o nosso também não).

Bem, lhes disse que, caso não encontrassem a pousada, ou o chalé, ou a casa que reservaram pela internet, voltassem aqui e ficassem com a gente. Minha mulher já dormia, e meu filho e eu dissemos a elas que voltassem, porque, àquela hora, sem ter onde ficar e com esses morros assustadores de Gonçalves...  Puxa! Esses Morros Assustadores de Gonçalves: uma subida quase vertical, de deixar qualquer um pensando duas vezes se vale a pena voltar à cidade, à noitinha, pra comprar o pão que esqueceu, um maço de cigarros etc. Pois bem, as meninas foram embora e, hoje, soube que ambas foram enganadas. A casa era aqui mesmo (!), mas o dono não tinha culpa alguma. Na verdade --€• e essa história é só mais uma daquelas com pessoas enganadas pela internet por ogros --€•, o dono desta casa a alugou por um tempo a um sujeito, e esse inquilino, matreiro, acabou ele mesmo “oferecendo” (!) a casa para outros (!), porém, sem avisar o verdadeiro dono (!), Floquinho (Felipe), e, como num jogo de azar, o inescrupuloso inquilino, Gargamel, acabou alugando a casa para outros (as meninas!), mas sem avisar Floquinho, que não sabia de nada...

Convenhamos, como pode existir gente assim, gente como Gargamel?! Duas garotas que poderiam ser minhas filhas aparecem aqui, à meia noite, sem ter para onde ir, sem ter um lugar para tomar banho etc., porque alguém alugou a casa para elas, enganando-as... O pior foi saber que elas dormiram no carro. Puxa, por que não voltaram para cá?! Hoje ainda fomos, eu e Sementinha, à cidade (comprar as coisas para o churrasco) e esperamos vê-las em algum lugar, mas que nada... Foi o dono da casa quem ligou e contou que as garotas dormiram no carro (o pai de Floquinho, que mora aqui perto, avisou-o, porque Neve e Ariel, depois que falaram comigo e com Dráuzio, pararam para falar com um casal, supostamente, parente de Floquinho). Triste. Se pudesse voltar atrás, teria insistido com mais veemência para que dormissem aqui. Ontem, então.

Sapoti não apareceu hoje.

 

17 de novembro de 2018 (DIA 3)

A ideia era entrar no carro e subir a montanha. Saímos de casa e começamos a subir, descer, subir, até que chegamos à estrada principal; então, em vez de virar à direita, rumo à cidade, viramos à esquerda, rumo à aventura. Deu certo. Fomos subindo, subindo, subindo e, de repente, uma placa: “Monte Verde, uns 40 km”. Uia! “Uns” 40 quilômetros para voltar a essa cidade onde vai morar, um dia, meu coração vazado de vermes é pouco. Então, fomos subindo, subindo, subindo... As nuvens cada vez mais perto. Foi então que, nem bem havíamos andado uns dois ou três quilômetros e lá vem um trecho da estrada que, sem carro 4x4, isto é, tracionado, nada feito. Nos abraçamos, choramos, rogamos a Deus. Hosana nas alturas. Olhando à direita e à esquerda, lágrimas escorrendo, enquanto gritávamos: por quê? Por quê? Por quê?! Mas nada feito. Era hora de voltar. Voltamos. Mas nada de entregar os pontos. Por que não virar ali, depois aqui, depois ali de novo e, de repente, estávamos perdidos. Não é bom se perder? Bem, não estávamos perdidos, porque um senhor (Deus?), que morava numa casinha rodeada de montanhas, nuvens, araucárias, pinheiros, rochas, trilhas e exuberante natureza, começou a conversar comigo:

-- É uma trilha tranquila --€• respondeu o homem, depois que perguntei que trilha era aquela. Era alguém entre Rip Van Winckle e o ator dos comerciais do posto Ipiranga. --€• Muita gente vem aqui pra subir até o topo. Dá para ver Campos do Jordão, São Bento do Sapucaí, Santo Antônio do Pinhal etc. etc.

Hmmm, por que não? --€• pensei, e, enquanto conversava, ao pé da cerca da casa, os dois, Sementinha e Dráuzio, em silêncio no carro, iam ouvindo tudo. Despedi-me do homem (Deus?) e dei a partida.

--ۥ Bora? --ۥ perguntei.

--ۥ Bora! --ۥ foi a resposta entusiasmada dos dois.

Começamos a subir a trilha. Cada um pegou um cajado de galho, com musgo e aranhinhas, e fomos em direção à visão redentora, mas, nem bem chegamos na metade do caminho, Sementinha de Mostarda resolveu abortar a peleja toda. --€• Estou cansada! --€• disse. --€• Quero descer! --€• E nós, como somos três, descemos juntos. Sem problema. Embora ninguém goste de abandonar as coisas pela metade, até que não foi ruim. Voltamos ao pé da trilha, e ao pé da trilha há um restaurante, e no restaurante há cerveja, e cerveja, depois que se volta de uma trilha --€• mesmo que pela metade --€•, é sempre um bônus sem fim, como juntar o mar e as férias, ou, numa tarde, uma trilha, uma montanha e um cajado. Almoçamos, tomamos cerveja e, com 130 reais a menos, voltamos para o carro. Descemos a montanha, com o corpo exaurido. Fomos à cidade. Chocolate, pão, suco de uva, cerveja, linguiça e um suspeito litro de groselha artesanal. Estava tudo pronto para ver o sol se pôr e, dali a algumas horas, assistir a How I met your mother na parede lisa e branca do quarto, com o projetor que levamos --€• somos professores, oras --€• acoplado ao notebook de Dráuzio. Foi o que fizemos e, em seguida, as meninas apareceram e, logo depois, fomos dormir.

Sapoti não apareceu hoje.

 

16 de novembro de 2018 (DIA 2)

Chegamos no dia anterior. Foi uma peleja para o carro ser estacionado ao pé da casinha no meio da montanha. Mas deu certo. Acordamos. Tomamos café. Ficamos um tempo indefinido e prazeroso aproveitando a vista que, da varanda, se insinua a quem se propõe a curti-la --€• likes a ela --€• e, horas depois, estávamos chegando a uma cachoeira. Pagamos cinco reais cada um e, quando menos percebo, eis que alguém está me encoxando. Como assim?! Deixo essa posição incômoda e, pelo rabo do olho, vejo que é um amigo, o Carneiro (Murilo), professor que trabalha comigo em Ribeirão Preto. Nos deixamos ficar estupefatos --€• pela coincidência do encontro marcado pelo destino a cinco horas e 36 minutos da Califórnia brasileira --€•, enquanto ele, a esposa, o filho e duas garotas nos falam das cachoeiras que, logo, estariam ao nosso alcance.

O sol estava impiedoso, e uma cerveja àquela hora não seria má ideia, até porque a visão das cachoeiras não era de se jogar fora... Mas, em vez disso, fomos pelejar em filia indiana pelo mato, encarando as duas trilhas para as quedas d’água, onde nos refestelamos que nem aquele ratinho tomando banho. Voltamos para casa, mas, antes, almoço no Restaurante da Mantiqueira, onde depois de duas trutas, outros dois pratos individuais, um suco de amora e duas cervejas, nos deixamos acabar com uns pedaços de doce de batata doce que havia ali no balcão. Foi o Mais Gostoso Doce de Batata Doce de Todos os Tempos. Gastamos mais um monte de dinheiro com porcarias (chocolate para fondue, cachaça, morangos, uma garrafa de vinho francês, tabletes de doce de leite) e voltamos para casa, Dorothy.

Banho, jantar, How I met your mother. Sono.

O amor chegou de madrugada.

Sapoti apareceu de novo.

 

15 de novembro de 2018 (DIA 1)

Eu e a esposa comemoramos hoje 16 anos de casamento. 16! Como não viajávamos pra valer há cinco anos, resolvemos voltar à estrada em grande estilo; isto é, Gonçalves, MG. Monte Verde, aguarde: em breve, iremos de novo até aí! Mas, por enquanto, Gonçalves. Em casa, tracei o roteiro no Google Maps e, pela primeira vez na minha vida, fiz uma viagem sem errar o caminho, só seguindo a ordem das cidades que ia conferindo num bloquinho de papel que fazia o papel de GPS. Deu certo. Seis horas depois, chegávamos a Gonçalves, com o sol quase a se pôr e uma cidadezinha convidativa a nos esperar, segurando o pôr do sol pelas mãos para que não chegássemos aqui sem ele, porque, sem ele, tudo estaria escuro e, sem a aura desse entardecer especial, não poderíamos formar uma imagem idealizada de Gonçalves. Não poderíamos.

Deu tudo certo. Chegamos aqui com o sol quase a esconder-se atrás das montanhas. Mas ele nos esperou. Ligamos ao dono da casa e, meia hora depois, estávamos dentro dela (a lamentar só o contratempo da subida com o carro cheio de bagagem).

Foi de noitinha que, ainda desafinado com a natureza, me vi frente a frente com um sapo que apareceu no alpendre, todo calado, super na dele. Tentei demovê-lo de sua decisão de ficar ali, jogando-o com uma pazinha de lixo para além da terra encantada, mas, dois minutos depois, olha só quem voltou?! Bióloga, minha mulher divertia-se com minha covardia, enquanto ela lembrava que aquele sapo poderia ser um príncipe de contos de fadas! Sim, um príncipe! Fiz as contas e descobri que minha desvantagem era o sangue azul que eu não tinha. Respirei fundo, fechei os olhos e invoquei a figura do jaburu, no Pantanal, apoiado numa perna só, igual ao Daniel San em Karatê Kid. Em seguida, recitei “Vamos pular”, ao contrário, como nos filmes de terror, esfregando uma folha de alecrim e de hortelã uma na outra, piscando os olhos rapidamente e mexendo os braços e as pernas que nem aquela mulher que vai receber o FBI no aeroporto de Twin Peaks... Deu certo: Sapoti sumiu! Ao menos esta noite. Então, “Gonçalves-se!” -- eis a sugestão, como propõe o pessoal de uma fanpage do Facebook, dedicada aos pássaros da região; portanto, venha a Gonçalves, MG, e gonçalves-se!

 

 

 

+++    Ilustrações de Rodrigo Caldas    +++

 

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS nasceu em Araraquara em 1972. É professor de literatura no ensino médio (COC, de Batatais, e Colégio Marista, de Ribeirão Preto) e superior (Centro Universitário Moura Lacerda, de Ribeirão Preto, e Faculdade Calafiori, de São Sebastião do Paraíso). Fez mestrado e doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, onde também se graduou em Letras (licenciatura e bacharelado); é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia (Engenho e arte, 2018), Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco, 2011) e, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco, 2011), de Literatura futebol clube (Multifoco, 2012) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial, 2012); escreveu a dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac (2002) e a tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road (2015). É editor do sítio Tertúlia(tertuliaonline.com.br), colunista do site Digestivo Cultural e fundou, em 2018, a editora Engenho e Arte. Contato: realess72@gmail.com Facebook: Renato dos Santos Santos

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

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20/01/2019