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Amor fantasma / crônica

Anna Carvalho

Quando uma pessoa passa por uma grande tragédia, um acidente, e os médicos concluem que sua salvação seria a amputação de um membro, isso torna - se o maior desastre na vida de um paciente. Os médicos provam que a amputação é a melhor saída. Que retirar aquele membro aumentaria todas as chances de vitalidade do paciente. Isso quando o membro já não se perde por causa quase natural durante o acidente.

Quando um membro é amputado dá - se um longo espaço de tempo para que o paciente se recupere totalmente do incidente. Recomendam - se fisioterapias, sessões com psicólogos, terapias, medicamentos, acompanhamento médico. Dependendo de como o membro do paciente é amputado, os médicos conseguem até indicar o uso de próteses. Estas não se tratam exatamente de um membro igual ao que o paciente possuía anteriormente.

Dependendo do modelo, pode-se utilizar recursos de melhores movimentações, uma prótese com maior capacidade e que se adapte de forma correta ao paciente. Mesmo com todo o esforço, com toda a dificuldade e toda a tristeza do processo, alguns pacientes sempre dizem que a pior parte de toda a tragédia é o efeito do membro fantasma. Possuir efeitos de membro fantasma é passar pela sensação de sentir o que não se pode sentir.

De forma simples, os pacientes sentem dores, incômodo, coceira no lugar onde antes havia o membro que agora já não existe mais em seu corpo. A partir desse momento, torna -se uma saga incessante de recuperação da sanidade. Ou seja, de reconhecer que aquilo é só uma grande sensação e um grande estímulo neurológico que o nosso cérebro faz porque ainda não reconhece a perda.

Em toda minha (curta) vida de escrita, nunca escrevi textos científicos. Nunca defendi teses, nunca li muito os livros de ciências.

Então você me pergunta “porque é então que agora resolveu falar sobre a anatomia humana (ou a falta dela)?”. Ora, é simples. Não seria o fim do amor um ato claro de membro fantasma?

O amor está ali, sempre esteve. Você convive dia e noite com o sentimento. Você leva o amor com você para todo e qualquer canto que você vá. Você usa o amor como usa cada um dos seus dedos porque ele claramente está passando pelos seus dedos e por toda a sua via sanguínea. Você vive o amor e, num ato quase desesperado, num momento inesperado, sem preparação ou estudo algum, numa tragédia, quase como um bater de carros, o amor é amputado. O amor é retirado sem anestesia.

Quase como algo que não funciona mais em qualquer corpo humano. Cortam fora o amor porque os médicos anunciam & “se você ficar com isso em seu corpo, será tão perigoso à sua saúde que poderá causar a sua morte”. Os remédios já não fazem efeito e a única opção é arrancar o amor fora. Deixar uma cicatriz de guerra.

Quase tão insensível como amputar um membro. A partir daí, inicia - se um longo processo de recuperação. Você corta foras as lembranças, os encontros pelo olhar, o toque, o cheiro. Você foge de qualquer coisa que te faça lembrar daquela parte que estava ali.

Sendo isso frio ou insensato, as vezes você se deixa até ter recaídas. Prova uma prótese ou outra, se prepara pra qualquer meio de recuperação. E então vem a pior parte.

A crise do membro fantasma. Perder um amor é sim um membro fantasma.

Porque vai machucar. Vai doer. Vai incomodar.

Vai te provocar de todas as formas inimagináveis e quando você cogitar olhar se aquela parte realmente está ali te fazendo todo esse rebuliço, você vai notar que agora a única coisa que ocupa o espaço dantes ocupado é o vazio. Nada.

Não há nada que ocupe o espaço do membro amputado. Não há nada que provoque aquele incômodo senão você mesmo e toda a sua capacidade cerebral de conduzir circulação sanguínea para onde ocupa o nada.

E por mais que todos te digam que ali só ocupa o vazio, que não há nada preenchendo aquele lugar, você segue sentindo todos os sintomas do que eu, carinhosamente, batizei de ”amor-fantasma”.

Com muito esforço, provavelmente você vai se recuperar destes sintomas.

Vai entender que, mesmo dolorosamente, retirar do seu corpo aquilo que te faz mal, talvez, seja a melhor saída.

Eu descobri que para se ter um membro fantasma não precisa se passar pela tragédia de um acidente físico e arriscado. Para tal sensação, basta se apaixonar. E ser deixado para trás.

 

 

+++ ilustrações de rodrigo caldas +++

 

 

ANNA CARVALHO é estudante de jornalismo na Barão de Mauá, em Ribeirão Preto.

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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23/12/2018