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Pra que mentir? Vadico, Noel e o samba / samba; Noel Rosa; Vadico; música brasileira; biografia

Renato Alessandro dos Santos

Tarde de sábado. O Poeta da Vila no aparelho de som. Chego à página 253 - a última do capítulo 11 de Pra que mentir? Vadico, Noel Rosa e o samba, de Gonçalo Junior - ciente de três coisas: (1ª) não fosse por Noel Rosa, não sei se a biografia de Vadico viria parar nas minhas mãos. Oswaldo Gogliano foi músico, arranjador, compositor, e, com o século XX na metade do caminho, tornou-se reconhecido por seu talento e, principalmente, pelas doze canções que fez com Noel; (2ª) a alegria por Rosa, como mostra o título, depois de sua morte (aos 26!), continuar nos trend topics de Gonçalo, que não deixa de mencioná-lo sempre que a oportunidade aparece - algo de que nenhum leitor vai reclamar, mesmo que às vezes Vadico pareça o fantasma e Noel, aquela corrente, eternamente arrastada; (3ª) ao contrário de tudo que veio antes, o lamento pelo descuido com o texto, quando em muitas páginas há erros e mais erros, dos mais simples aos mais absurdos. A favor do autor é bom que se diga que suas linhas tortas não são (nem de longe) ruins; o problema são os outros mesmo, aqueles que ficaram com a responsabilidade de revisar, de limar as garatujas que, ao autor, escapam, mas que, a bons revisores e preparadores de texto, nunca, ou quase sempre nunca. Há erros grandes e pequenos nestas páginas e, provavelmente, em outras também: 26, 29, 34, 42, 44, 50, 60, 67, 80, 82, 90, 109, 133, 141, 161, 163, 185, 187, 219, 239, 245, 250, 278, 279, 291, 318, 334, 335, 336, 339 e 380.

É uma pena, e imagino a tristeza do biógrafo com o que deve ter estranhado tão logo pôde sentar-se para ler o que escreveu, em um daqueles momentos pelo qual todo autor espera; isto é, abrir uma cerveja ou servir-se de um xícara de café, após a peleja toda com o texto, enquanto se vai percorrendo o que fica, finalmente, impresso. Uma pena mesmo, porque o livro é de enorme beleza gráfica: páginas em várias tonalidades de cinza; iconografia constante; escolha de tipologias, de cores, como aquele insinuante amarelo da capa sobreposto ao preto e ao branco, e de outros detalhes que fazem a alegria de quem se interessa por livros não apenas bem escritos, mas bem feitos, tipograficamente falando.

O que houve então?

Imagino que nas mãos de um bom revisor de textos tal problema não teria ocorrido, e um editor que tivesse mergulhado na empreitada, sem pressa de emergir, também não teria sido ruim. Porém, mesmo com todos esses percalços, por iluminar a vida de Vadico, é inegável a importância deste livro de Gonçalo Junior - até porque todos esses problemas podem ser resolvidos na edição seguinte, corrigindo erros de concordância, de digitação, de coesão, de coerência, enfim, do que possa turvar a língua de Camões e de Criolo. Fora isso, ficam os acertos: a dedicada descida vertical da empresa, trabalho árduo por que passa todo pesquisador; o título – da célebre canção criada por Vadico e Noel; a arte final pontuada de nostalgia; o olhar atento ao microscópio, que apontado para o biografado vai ampliando sua importância na história da música brasileira.

Vadico escondeu, por anos, o coração fraco que, possivelmente, o impediu de alcançar consagração em escala mundial, quando, naquele que pode ter sido seu maior erro, recusou convite do amigo Vinicius de Moraes para cuidar da orquestração da peça Orfeu da Conceição (1956), musical criado pelo poetinha e que apresentou ninguém menos que Tom Jobim à jornada da bossa nova, que vinha se insinuando por ali. Por que Vadico recusara o convite? Muitos não souberam à época, mas o coração, esse comboio de cordas, é mesmo feito para ser partido ou para partir, acompanhado da vizinhança, quando é chegada a hora da ave-maria. Ainda não era dessa vez, mas sempre haverá um preço acre a ser pago por quem, do coração, se descuida.

Vadico e Noel, juntos, deixaram 12 músicas, como mencionado. Trabalho a quatro mãos; trabalho que legou obras-primas como “Feitiço da Vila”, “Conversa de botequim”, “Feitio de oração”, “Pra que mentir?”, dessas canções que alegram os ouvidos da gente. Referir-se a Noel como letrista parece pouco àquele que, se não fosse a música, vagamente teria sido médico; o mais provável é chamá-lo infalivelmente de poeta, tais eram as soluções espontâneas que encontrava para rimas, aliterações, assonâncias e trocadilhos que ficam pulando na imaginação de quem, ouvindo-o, se depara com elas. Morre o sambista e, do trabalho dos dois, restam apenas essas canções a enaltecer a memória de ambos: um marco a partir daqueles anos lendários em que nosso cancioneiro passou a ser saudado por gente como Pixinguinha, Geraldo Pereira, Assis Valente e tantos outros que, no choro ou no samba, deixaram músicas das mais expressivas.

A biografia, indo além de Noel, mostra como foi importante a contribuição de Vadico ao sucesso de Carmen Miranda nos EUA, onde ele morou por quase 14 anos e por muito tempo anexado à “pequena notável”, o que o levou aos Estúdios Disney e a trabalhos ao lado de Ary Barroso, com quem, por lá, também conviveu. De volta ao Brasil, viu que seu nome nem sempre era lembrado como coautor de Noel nos discos que as gravadoras iam lançando. Processou todas, reivindicando direitos autorais que, naquela época, não eram levados a sério e, por isso, encerravam valores irrisórios. Sua atitude, incessante, alavancou em muito a forma como as gravadoras passaram a lidar com a cessão autoral e a difusão das faixas, dali em diante mais bem amparadas por direitos que, hoje, são o pão e o vinho de autores e de compositores. No país, Vadico, depois de tantos anos fora, passou a ser referência entre os músicos e as pessoas que faziam acontecer a vida noturna das boates do Rio de Janeiro, especialmente o Rio de Janeiro regado a whisky, boleros e sambas-canção pré-bossa nova. Era uma época de ouro de nossa música, a despeito dos samboleros ou de outras faixas suspeitas em que o jazz e o samba fundiam-se sem muita identidade.

Gonçalo Junior segue à risca o ofício: pesquisa fontes esperadas (revistas, jornais da época etc.); dá crédito aos compositores após citar cada faixa; compara dados, certificando-se do que escreveu esse ou aquele biógrafo que, antes dele, trilhou a mesma estrada por onde trafegaram Vadico e Noel e, ao final de cada capítulo, geralmente, o autor antecipa o que virá pela frente, naquela que é uma forma eficaz para fisgar os leitores, feito folhetim:

Assim, aquele ano de alegrias, 1956, chegou ao fim. Vadico tinha motivos para acreditar que sua carreira continuaria em ascensão. Estava feliz e escondia de todos que trazia no peito um coração que mais parecia uma bomba-relógio. Para piorar, fumava e bebia muito. Mas parecia bem. Até se meter em um dos mais rumorosos, desgastantes e polêmicos episódios da história da MPB. Uma briga das mais turbulentas, em que ele estava absolutamente sozinho e exposto no meio do salão. Tudo isso aconteceria em 1957.

Não é de fazer qualquer um interessar-se em ler o que virá, para saber onde foi que Vadico se meteu? Foi o que fiz. Até aqui, era pouco mais que a metade da biografia. Restava pouco. Pelejei. Vieram as férias, e cheguei ao fim do livro. É essa outra metade que continua a resgatar a história de um sujeito honesto, decente, alcoólatra, notívago, zeloso de sua arte, amigo de todo mundo, salvo a briga com Almirante. Há o coração a bater desafinado, manco, sem harmonia, a bebida e o cigarro a servir feito um cantil a quem tem sede, a gravação de LPs valiosos hoje, porque raros e bem produzidos, como Festa dentro da noite (1959), volumes 1 e 2. O desfecho disso é, sem spoilers que tudo põem a perder, a morte, inevitável, que chega dentro de um táxi.

Todas essas informações são reunidas por Gonçalo Junior com bastante eficiência, mas, por conta da sucessão de erros que surgem, daninhas ervas entre os canteiros, vale a pena torcer pela segunda edição do livro, certamente revisada, ou por um impossível recall dessa primeira, algo que imagino impensável, financeiramente, a uma editora ainda em busca de se firmar no mercado.

A noite já caiu. Noel não toca mais. É sábado ainda. Hora de ver um filme ou de ir a algum lugar. Ou de não fazer nem uma coisa nem outra. Melhor é ficar com Vadico e Noel, com o samba e a esposa. Pra que mentir?

 

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 ilustração de rodrigo caldas 

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS nasceu em Araraquara em 1972. É professor de literatura no ensino médio (COC, de Batatais, e Colégio Marista, de Ribeirão Preto) e superior (Centro Universitário Moura Lacerda, de Ribeirão Preto, e Faculdade Calafiori, de São Sebastião do Paraíso). Fez mestrado e doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, onde também se graduou em Letras (licenciatura e bacharelado); é autor de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia (Engenho e arte, 2018), Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco, 2011) e, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco, 2011), de Literatura futebol clube (Multifoco, 2012) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial, 2012); escreveu a dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac (2002) e a tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road (2015). É editor do sítio Tertúlia (tertuliaonline.com.br), colunista do site Digestivo Cultural e fundou, em 2018, a editora Engenho e Arte. Contato: realess72@gmail.com Facebook: Renato dos Santos Santos

 

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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21/10/2018