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#E#L#E#N#Ã#O# /

André Carretoni

Eu tinha 15 anos quando tentei surfar pela primeira vez. Foi em 86, no Leblon. Foi a primeira de quatro tentativas. Minha prancha tinha uma quilha quebrada (a do meio), eu não consegui nem mesmo me aproximar de onde as ondas quebravam, mas um acontecimento iria marcar minha vida.

Na areia, um repórter e um “cameraman” do programa Viva a Noite estavam à procura de uma entrevista.

Eu já havia saído do mar quando alguém se aproximou de mim e disse: “vamos entrevistar o surfista aqui”.

– Você tem medo da morte? - o repórter perguntou ao surfista e pediu-lhe para que olhasse para a câmera enquanto responderia.

– Tenho como acho que todo mundo deve ter – respondi –, pois, no final, a gente não sabe se tudo acaba ou se a gente se vê, enfim, diante de Deus.

O repórter olhou para o surfista durante alguns segundos e foi embora sem se despedir.

No dia seguinte, uma amiga do colégio me diria que tinha me visto na TV e que não sabia que eu era surfista, e eu não desmentiria, mas, ainda naquele domingo, eu chegaria a casa e choraria, porque – acredite! – tomaria consciência de que havia negado Jesus Cristo em cadeia nacional e que o havia feito antes do primeiro cantor do Show de Calouros daquele dia.

E por que contar essa história agora? Depois de tanto tempo? Para me emendar e afirmar em rede social que sou espírita. Pois é. Nem todas as pessoas que conheço sabem disso. Eu acredito em reencarnação, na pluralidade dos mundos, na existência da alma, na evolução constante do espírito, no rico que vai voltar pobre, no pobre que vai voltar rico e em Jesus Cristo. Não como o filho único de Deus, mas como uma alma que também nasceu ignorante e que, através de várias vidas, terminou por evoluir. Eu acredito no caminho de Buda, no estilo de vida de Gandhi, na liberdade encarcerada de Mandela, nas preces de Bob Marley, na coragem de Martin Luther King, na guerra de Arjuna, no amor incondicional de Maomé e na mudança política de Malcolm X. Eu acredito que todos nós um dia alcançaremos o sentimento de compaixão através de inúmeras reencarnações (até mesmo Stalin, Mao Tse-tung e Hitler) e hoje estou aqui para também falar de política. Aliás, foi para isso que comecei a escrever este texto.

O espiritismo é como um surfista em cima de uma prancha, se equilibrando sobre dois gases. Se o ser humano ficar apenas na borda da inteligência, ele cai; se ele ficar apenas na borda da moral, também. Com a política também é assim. Se o eleitor ficar apenas na borda do fascismo, ele cai; se ficar apenas na borda do totalitarismo da esquerda, também.

Claro que você pode votar em quem quiser e não penso que você tenha de acreditar naquilo que eu acredito – a cada um segundo suas obras –, mas eu acho que você tem de votar com consciência e assumir suas próximas escolhas, pois elas dirão muito sobre quem você realmente é.

Hoje, estamos vivendo um momento muito delicado no Brasil. Hoje, muitas pessoas – espíritas, católicos, crentes, budistas, ateus – estão pretendendo votar no Bolsonaro apenas para não verem o PT voltar ao poder, assim como aconteceu em 1938, quando Hitler foi nomeado Chanceler na Alemanha apenas porque os alemães acreditavam que toda aquela crise era culpa dos judeus, que foram enviados para campos de concentração ao lado de presos políticos, homossexuais, ciganos e comunistas.

Eu não estou dizendo que o Bolsonaro, se eleito presidente, irá fazer a mesma coisa que o Hitler fez – acredito que não já que os tempos são outros –, mas uma coisa é certa: ele é racista, machista e homofóbico, e se você for realmente votar nele apenas para mostrar seu desagrado com o PT, muito bem, mas não me diga que você não é, ao menos, um cúmplice daquilo que ele representa, como aqueles milhares de alemães que viveram ao lado de Auschwitz e que não fizeram questão alguma de se envolverem. No final, eles tiveram de recolher as cinzas. Eu não! Aqui está minha posição! Eu não votarei no PT no primeiro turno, votarei no Amoedo, mas se, no segundo turno, eu tiver de escolher entre Haddad e Bolsonaro, entre Lula e Bolsonaro, entre um preso político (já que o Aécio, o Temer e tantos outros estão soltos) e um cara que homenageia a tortura e já disse o que ele disse, eu votarei com todo o coração no PT, porque se alguém for bater em algum homossexual na minha frente, em algum comunista, em algum maconheiro, em alguma pessoa por causa de sua cor, em algum religioso em particular, em alguma mulher, eu vou me meter no meio e vou gritar: “não!”, porque sabemos que “para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”; e que me matem por causa disso. De onde quer que esteja, eu tentarei sentir compaixão por você.

O PT roubou? Roubou. Mas todos os políticos que têm estado aí também têm roubado (inclusive a família Bolsonaro), e o PT também tem feito coisas boas. E já que eu tenho de esperar mais quatro anos para que o Partido Novo ganhe mais votos, prefiro fazê-lo com o PT no poder.

Durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma – futura senadora –, eu me lembrei do que Chico Xavier havia dito durante as semanas de ódio que antecederam o afastamento do então presidente e hoje senador Fernando Collor de Mello, para que as pessoas rezassem por este. Hoje, eu irei rezar pelos simpatizantes do fascismo, para que na próxima noite tenham o mesmo sonho que o Dr. King teve.

– Não – diria eu hoje. – Não tenho. A vida está apenas começando.

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    ilustração de Rodrigo Caldas    

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ANDRÉ CARRETONI nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de janeiro de 1971. Tem dois livros publicados (um deles foi traduzido para o francês); fala cinco línguas e adora Luis Fernando Verissimo, Shakespeare e Hemingway. CONTATO: andre@carretoni.com   HOMEPAGE: www.carretoni.com

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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