)Livros(

Sobre livros e venenos / Resenha; "O livro e seus algozes, razões da desrazão"; Ronaldo Lima Lins.

Haron Gamal

Num momento tenso para a intelectualidade, em que as novas tecnologias servem mais como estratégias de marketing do que como um meio de transmissão de conhecimento, obras que vêm a público para discutir a relação entre tecnologia e humanismo sempre são benvindas. Estaria o livro impresso com os seus dias contados? O livro digital seria meio seguro de armazenamento do conhecimento? A informação fragmentada, como aparece nas redes sociais, é positiva ou estaria contribuindo para a idiotização das pessoas? Qual o papel do intelectual em meio a este aparato tecnológico monstruoso, em torno do qual ele se vê pequeno e insuficiente? Estaríamos irremediavelmente transformados, como Kafka soube representar em A metamorfose?

Estas e outras questões são discutidas no mais recente livro do professor emérito da UFRJ, Ronaldo Lima Lins, O livro e seus algozes. Composto de dez ensaios, a obra aborda e aprofunda a influência do livro como instrumento de transmissão do saber, semeador do esclarecimento e de preservação da memória. A preocupação com a permanência do humano, com a filosofia e a reflexão permeiam toda a obra.

É importante que intelectuais engajados sempre desconfiem da ideologia, de pensamentos enganosos, de tudo que é oferecido como produto fácil, capaz de resolver grande parte dos problemas que a humanidade enfrenta. A informatização acabou por dispensar o dado humano, ou mesmo deixá-lo em segundo ou terceiro planos. A tecnologização da cultura assumiu tal importância, que tornou impensável a vida humana sem o universo digital. Mas é necessária a discussão sobre a sua interferência nas ciências humanas, na filosofia, enfim, no ato de se pensar o lugar do ser humano no planeta.

No primeiro ensaio, “O que faz o veneno”, Lima Lins faz uma breve história do livro e o apresenta como semeador de um conhecimento que muitas vezes desagradou e ainda desagrada os tiranos: “Entre as alegrias que proporcionou, a invenção de Gutemberg não deixou de despertar a ira dos adversários, depois que os volumes publicados em papel passaram a atingir gente dos mais diversos estratos.” O autor enumera os problemas que tiveram diversos autores porque, já que cultura esclarece, este esclarecimento exige mudanças. O veneno do título do ensaio nada mais seria do que o saber a iluminar a mente dos homens, que passam a exigir mudanças em todos os sentidos.

O segundo ensaio, “O desaparecimento do livro”, aborda a questão da alteridade no processo de conhecimento. “Um indivíduo não se realiza sem o outro”, diz o escritor. Na rapidez em que circulam textos por meios eletrônicos através do mundo, tudo se realizando em frações de segundo, pensa-se na falta do outro, de um interlocutor, como alguém imprescindível para a construção do saber. Recorrendo a Sartre, o professor continua: “nós emprestamos pedaços de nossa matéria impalpável, algo do nosso princípio de alteridade, sem o qual não existimos.” Outro problema alinhavado neste capítulo, e com grande perspicácia, é a questão da segurança (ou da sua falta) no armazenamento da cultura por intermédio de meios digitais. Os livros impressos sempre foram ameaçados por incêndios, mas não estaria o livro eletrônico sujeito a um perigo maior? Foi difícil aos ditadores queimarem todos os livros, sempre esqueciam um ou outro escondido por trás de uma estante rebelde. Sobre a relação papel / digital, continua o professor: “Sob o aspecto do formato, se em papel ou em dispositivo eletrônico, há diferenças. O papel tem de ser queimado, destruído em praça pública, levado para os porões do autoritarismo, para a sua eliminação, na perspectiva do controle absoluto. No meio eletrônico, basta um comando, apertar um botão: a tela se apaga, a partir de uma decisão à distância, tomada por alguém e alheia à vontade do leitor.”

“O pensar suspenso” envereda pela necessidade de reflexão do ser humano. Um livro de ficção vai além da história que narra. Um autor não produz um relatório, sua narrativa revela pontos de vistas distintos, possíveis de serem apreendidos numa leitura de substratos metafóricos, ou mesmo apresentando ideias oriundas das leituras do autor, transmitidas por meio de referências explícitas ou não. Mas como ter tempo para tal reflexão em um mundo premido pela velocidade. O cinema e a TV, muitas vezes, apresentam produções contínuas, esvaziadas de sentido e de poder de crítica, sucumbindo ao império do supérfluo inerente à necessidade do avanço do capital. Como esta questão se daria em relação à leitura? Há ainda espaço para ela em meio ao aparato audiovisual? A crítica precisa de tempo para o amadurecimento, para a reflexão. Como exercê-la em meio a enxurradas e mais enxurradas de publicações ou de conteúdos culturais possibilitados pela velocidade do universo digital?

“Tédio, livros e pessoas” é um ensaio que se inicia com o pensamento de Kierkegaard sobre a importância do tédio e do ócio nas questões humanas. O ser humano sempre fugiu do tédio, no passado esta fuga era norteada pela leitura. Uma pessoa que sentia tédio tomava nas mãos um livro. Através da leitura, tanto podia distrair-se como, mesmo desejando assim fugir do tédio, mergulhar nele e exercer a reflexão, compreender melhor o mundo à sua volta. Mas o tédio, no mundo de hoje, é visto como um grande mal. A contemporaneidade tornou-se, para muitos, o lugar do entretenimento. Em consequência, os meios de fuga deste mesmo tédio acabaram por levar as pessoas a uma manipulação e alienação ainda maiores. Muitos, ao fugirem do ócio, fazem-no com medo que este os leve ao tédio, mal sabendo que, para o filósofo, para o intelectual, há a necessidade destes momentos de esvaziamento, de paralização. Assim se poderá, como diz Sartre, chegar ao conhecimento de “onde se situa a verdadeira causa dos atores políticos.”

“Da coisa, o nome” é um ensaio que trata da alegria e do desespero. “Pode-se imaginar, em princípio, que, de diversas maneiras, a humanidade experimentou a existência ora com momentos de alegria, ora com instantes de desespero, frente às dificuldades.” O autor afirma que estes dois aspectos da vida não existem em si, mas camuflam ou denunciam alguma coisa. No desenrolar do capítulo, o livro aparecerá como um meio de busca das causas da alegria ou do desespero, este último na maioria das vezes mais presente na vida de todos. A TV surge num falso papel de apaziguadora, vendendo-nos gato por lebre, como exemplo vide a brutalidade exercida pelas cenas das séries americanas, que atuam como substituto ao desespero, provocando naquele que assiste algum alívio, no momento em que um (falso) herói aponta a solução. Para tomar o mal pela raiz, no entanto, será preciso conviver com este desespero e dividi-lo através da leitura e da consequente reflexão.

O sexto ensaio, “O desespero, os livros e seus autores”, remonta à inquietação de Kierkegaard, que desejou “dizer não dizendo”, um modo de discutir os problemas humanos com a preocupação de não ser mal-entendido. Um autor, ao elaborar conceitos, teme as más interpretações, aos entendimentos de ocasião. “Dizer não dizendo foi sempre uma forma de expressão importante, recurso empregado nas narrativas de qualquer tipo, como maneira de proteger os documentos da inteligência, preservando-os sem contaminação.” O assunto é por demais importante na atualidade, tempo em que se deseja o entendimento rápido, em que se quer resumir toda a obra de um autor por meio de alguns parágrafos. Ronaldo Lima Lins apresenta seus argumentos não apenas por intermédio do filósofo dinamarquês, mas também com exemplos tirados da obra de Kafka, e de Sartre, sempre desdobrando a questão. Uma obra “apropriada e cultuada por especialistas, deforma-se e se reapruma de acordo com o gosto do freguês.” É possível, na contemporaneidade, observar tal fato em relação às obras de vários filósofos, com expressões utilizadas fora de seu contexto, que não visam à reflexão, mas ao consumo fácil, tornando-os uma espécie de autores de autoajuda, mirando o sucesso financeiro de editores sem escrúpulos.

“Até o final” apresenta a curiosidade humana, as descobertas e a necessidade de armazenar o conhecimento sobre todos os assuntos. Em consequência surge a enciclopédia, com Rousseau, Diderot, Voltaire, D’Alembert , Turgot etc. O saber é catalogado e se mostra de modo acessível.

Em “O intimismo e os livros”, somos levados a crer na necessidade do afastamento do burburinho da vida social para nos dedicar à reflexão e à escrita. Ronaldo Lima Lins acrescenta: “Alguns argumentarão que os três fatos fazem parte do passado (referência às atitudes de isolamento de Rousseau, Thoreau e Montaigne), de um tempo que não invadira ainda todos os recantos do mundo, sobretudo com o fenômeno da globalização. É possível. Demostram, no entanto, uma desarmonia entre coletividade e individualidade, algo que, com certeza, não desapareceu de todo. Certos intelectuais, inclusive de sucesso, usam recursos de direitos autorais para adquirir propriedades em lugres distantes, sossegados, e lá continuar escrevendo, como se uma incompatibilidade continuasse existindo entre o zum-zum das cidades e o trabalho de composição literária.”

“O papel da memória” une intimismo e a necessidade de se armazenar o conhecimento, já num momento em que o ser humano domina a impressão. O autor destaca, no início do artigo, o papel das mulheres na elaboração das cartas, um dos principais instrumentos de relato de suas angústias. A necessidade de uma “memória artificial” já fora constatada pelos gregos, quando as poucas pessoas letradas batiam-se contra a necessidade de evocar o conhecimento através de um processo seguro, que preservasse a sua integridade. Na era Moderna esta preservação expandiu-se, não apenas devido a processos mnemônicos, mas por meio do mergulho em si mesmo, na cultura letrada e nos mecanismos de impressão.

“Razões da desrazão”, último ensaio, assunto estudado em outros livros do autor, volta a apresentar o confronto entre o individual e o coletivo. Enquanto o homem, como indivíduo, pode chegar ao desespero, ver-se sem saída e cometer o suicídio, tal fato dificilmente ocorreria com a coletividade. “Na visão marxista, a política, forma de expressão da coletividade, dando a impressão sem embargo de fechar-se em certos instantes, compreende a capacidade de, por súbitas manifestações da inteligência, buscar saídas. O mais totalitário dos regimes encontra, desse modo, o fim de seus dias. É como se a pressão exercida levasse ao ponto de explosão e, com ele, aos processos de libertação. Esse é o motivo pelo qual a política sabiamente entendida constitui um instrumento de emancipação coletiva.” Muitas vezes, quando a organização do estado se volta contra o cidadão, contra as massas, esta precisa agir ao destempero, é a desrazão desestabilizando, uma via sinuosa, violenta, assim como foi parte da Revolução Francesa, mas um meio natural de se agenciar outra razão, um ponto adiante, razão que inclua, como beneficiário, um número maior de pessoas, a pólis, que deu origem à palavra política.

(o _ 0)

    ilustrações de Rodrigo Caldas    

(u _ u)

HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

+++

 

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

  • david_bowie_-_01_-_the_ode_to_joy

24/09/2018