)Sarau(

Eu não sei mentir / poesia contemporânea brasileira; George dos Santos Pacheco

George dos Santos Pacheco

 

 

 

 

 

A gente finge entender. A gente finge aceitar. A gente finge que lê. A gente finge respeitar.

 

A gente finge.

 

A gente finge que acha graça. A gente finge se divertir.

A gente finge que é pirraça. A gente finge não desistir.

A gente finge a barriga. A gente finge a cor da pele. A gente finge a cor dos olhos.

A gente finge a cor do cabelo. A gente finge ter dentes. A gente finge ter peitos.

A gente finge ter.

 

A gente finge.

 

A gente finge a roupa que veste. A gente finge ser importante. A gente finge ser famoso.

A gente finge que é. A gente finge não ser.

 A gente finge ignorância. A gente finge inteligência. A gente finge tolerância.

A gente finge possuir. A gente finge se preocupar. A gente finge prometer.

A gente finge ajudar. A gente finge lembrar. A gente finge esquecer.

A gente finge gozar. A gente finge dormir.

A gente finge chorar. A gente finge sorrir.

A gente finge ouvir. A gente finge dizer.

A gente finge reclamar. A gente finge desconhecer.

A gente finge abraçar. A gente finge beijar. A gente finge amar.

A gente finge ter coragem. A gente finge ter medo. A gente finge seguir em frente.

A gente finge problemas. A gente finge soluções.

 

A gente finge que não vê.

 

A gente finge ter dinheiro. A gente finge não ter.

A gente finge pagar. A gente finge escolher.

A gente finge procurar. A gente finge se comprometer. A gente finge melhorar.

A gente finge não querer. A gente finge enganar. A gente finge crer.

A gente finge trabalhar. A gente finge obedecer. A gente finge ganhar. A gente finge perder.

A gente finge mastigar. A gente finge comer.

 

A gente finge.

 

A gente finge ter segurança. A gente finge ter educação. A gente finge ter saúde.

A gente finge ter.

A gente finge informar. A gente finge dizer. A gente finge se conformar.

A gente finge merecer.

A gente finge que não é com a gente. A gente finge o tempo todo.

A gente finge não concordar.

A gente finge.

 

A gente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ilustração de Rodrigo Caldas

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 1981. Desde a adolescência rascunha histórias em cadernos, mas só tomou coragem de escrever depois de assistir a uma entrevista da escritora Sônia Belloto, em que a autora afirmava que, se quisesse, qualquer um poderia escrever. Assim surgiu O fantasma do Mare Dei, publicado pela Multifoco, do Rio de Janeiro. É graduado em Pedagogia e um dos autores da Coletânea Assassinos S/A Vol. II, também da Multifoco. Tem participado de Desafios Literários propostos em sites, o que lhe rendeu a participação no e-book Contos sombrios de Natal, do fórum literário Fórum Câmara dos Tormentos (atual A Irmandade). Publicou também um conto na edição do 3º trimestre de 2011 da Revista Marítima Brasileira. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, tema lírico-filosófico. Blogueiro desde 2009, publica textos na Revista Pacheco e nos sites A IrmandadeTertúliaAs Crônicas do Edifício Cinza, dentre outros. A partir de janeiro de 2014, passou a compor o quadro de colunistas da Revista Êxito Rio. No Facebook: Revista Pacheco.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

 

 

  • 03 Saudosa Maloca

27/05/2018