)Contos(

Sra. Otário-idiota / Taciana Vaz; literatura brasileira contemporânea

Taciana Vaz

O cara só pode ser um otário. Ou não teria postado aquela foto idiota dele comendo uma porra de um macarrão gourmet que ele mesmo cozinhou, tomando um vinho com notas de sei lá que merda e que deixou ele com uma cara de idiota! Mais que o usual.

E o pior é que eu tive uma foto desse mesmo otário-idiota na cabeceira da minha cama, durante anos. ANOS! De um lado meu, a foto de nós dois sorrindo e, do outro, o próprio otário. E eu achava que era feliz. Eu, a senhora otário-idiota. Talvez eu até tenha sido mesmo, eu cheguei a pensar que sim. Até o dia que...

A gente jogou coisas pela janela, enquanto mandava o outro tomar no cu, ou ir pra puta que o pariu, coisas assim... Eu joguei copos, ele jogou discos, e por sorte ninguém passava pela rua naquela hora. Eu saí andando... Andar sempre me ajuda a acalmar.

Então encontrei aquela mesma moça, na praça. Ela estava ao celular, acho que falava com Deus. Foi o que pensei quando a vi. Ela sempre estava ali, pedindo cigarro pra quem passava, ou falando ao celular, que deve ter pegado em algum lixo.

O fato é que, naquele dia, naquele instante, eu percebi que estava apaixonada por ela. Alguma coisa mágica aconteceu naquele dia específico que me fez entender que ela era quem poderia me tornar um ser humano completo, total. Andaríamos juntas livres pelo mundo, parando quando desse vontade, e se desse vontade. Sem rumo. Sem nada.

Principalmente, eu não queria nunca mais ter tapete. Eu sempre olhava pros tapetes da minha casa e pensava como eu tinha chegado ao ponto de ter tapete em casa? Quando eu parei de precisar apenas do essencial? Era irritante olhar pros malditos tapetes, muito irritante. Triste até.

Eu pensava, enquanto caminhava, que só não queria mais sentar naquele mesmo bar, com aqueles mesmos idiotas, ouvindo aquelas mesmas merdas machistas, aguentando o otário-idiota em questão, ou qualquer outro. Não queria mais ouvir aqueles mesmos discos com aqueles mesmos amigos do otário-idiota. A única coisa que eu queria naquele momento era deixar as coisas saírem de mim, lá do meu útero. Queria que nascesse de mim qualquer vontade, qualquer desejo... parar de querer o que eu não quero de fato.

Eu me sentei ao seu lado e disse: é com Deus que você está falando? Ela olhou assustada para mim e respondeu: por que você está falando comigo? Quem é você? Eu sou uma idiota aí... e eu te acho linda. Ela gargalhou de forma que me deu medo. Você é louca, isso sim. Sai fora, sua louca! Vai se catar! Não posso. Eu não quero mais fazer nada do que eu fiz até hoje. E você quer fazer o quê? Fugir com você. Ser livre.

Livre? Você disse que era idiota e eu vou ter que concordar. Sai fora, otária! E me dá 10 reais pra eu comprar uma pedra! Anda logo! Mas eu não tenho nada, saí sem nada de casa, depois de brigar com... Cala a boca, caralho, eu vou te furar se você não me der dinheiro, sua puta! Mas... Porra, vai ficar falando bosta e não vai me dar dinheiro? Vai se foder e me deixa em paz! Ela saiu andando. Eu me sentei no banco e chorei sozinha.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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TACIANA VAZ é escritora, amante de dança, dependente de música, mineira-paulistana vivendo de boa na Lagoa (em Floripa). Incansável buscadora de momentos felizes e poéticos e de trocas ricas... Adora balanços. Diverte-se conhecendo pessoas e ouvindo causos; curte a preguiça com seus pets e muitas vezes, para ela, nada faz muito sentido!

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • Deixe-me outro dia menos hoje

15/04/2018