)Sarau(

[gr]ávido de poesia / Bruno Remundini; novos autores; poesia contemporânea.

Bruno Remundini

 

 

 

 

 

 

perdi o dom
de pedir perdão.
a culpa é
da desculpa.

 

 

 

 

 


lírios.

 

 

 

 

 

M A [is] D U R O.

 

 

 

 

 

 

fugindo do caos
me afastando da ordem,
no silêncio total
hei de achar minha voz

juntando os pedaços
buscando os perdidos
descartando o que sobra
feito pele de cobra,
fundindo o aço
entre erros queridos
e acertos tão crassos,
eu sou minha obra.

por isso, não me definam
que não me pus ponto,
os rótulos definham
e ainda não fiquei pronto.

 

 

 

 

o tempo é a mão invisível que entorta
a coluna dos homens
até quebrar:
simples assim.

a arte é uma tentativa inútil mas bela
de eternizar o efêmero.

 

 

 

 

das coisas loucas e lindas
foi que retirei o sumo da vida
e o sorvi no nosso jardim secreto
entre flores sem nome
e aves hoje já extintas

dançavas, oh, felicidade
tão nua e tão perto
que bastava estender a mão
para te colher
e te possuir ali mesmo

engravidei-te, felicidade,
de insensatez e esperança
e, invejosos de nossa plenitude,
te sequestraram
te bateram
e te fizeram abortar -
no entanto,
o natimorto fruto desse crime...
chamou-se Vida! e, ainda que morto,
era melhor e mais precioso
do que todo o ouro que eles possuíam!...

 

 

 

 

 

só o sólido solo
foi testemunha
das minhas solas insólitas
em carreira solo sob o sol
rumo a lugar nenhum

deixei jogadas
todas as pegadas
no chão abandonadas
a bandos de nadas

as queridas pegadas
por não ter tido como pegá-las
para trazer comigo
embaixo das asas

 

 

 

 

de tanto pegar atalhos
esqueceu do caminho.

 

 

 

 

 

NOITE DE MAIO

igual ao dirofilaria immitis, o verme
que devora o coração dos cães,
assim te levo dentro de mim,
lembrança maldita
- e, ainda assim, derradeira herança:
tua imagem
sem som
num filme antigo
que se repete
sem fim.

eu te enfrento,
cara a cara verme a ver-me,
e saio vencido
pelos meus próprios guerreiros
de repente voltados contra mim
e sangro pela lâmina de minha espada.

o escudo?
eras tu.
o escuro?
eras tu
-do.

 

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ilustrações de rodrigo caldas

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BRUNO REMUNDINI é aluno do curso de Letras do Moura Lacerda.

 

 

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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01/04/2018