)Contos(

O gordinho /

Demétrio Panarotto

O gordinho bom fim de semana trabalhava em uma das portas da cidade (talvez a única) e, todas as sextas-feiras (provavelmente, todos os dias eram sextas-feiras), quando as pessoas, nas idas e vindas, o encontravam (situação inevitável), ele dizia: bom fim de semana.

O gordinho era craque nisso, como se tivesse sido concebido especialmente pra essa função.

Passava a mão no cabelo, estufava o peito, encolhia a barriga, o sorriso vinha quase, mas quase mesmo, naturalmente, a sobrancelha era alta, a testa se franzia, a orelha se mexia, o nariz era deveras imperceptível, e ele, com todo o calor da profissão, dizia: bom fim de semana.

O tom de voz era impecável, como se as notas se encaixassem uma a uma delicadamente na partitura do de sempre.

É óbvio que seu timbre era algo que agradava a todos:

Aveludado.

Preciso.

Era uma voz que parecia reviver e ajustar a sensação de proximidade entre os que o circundavam.

As pessoas, a maioria, naturalmente respondiam:

- Obrigado, bom fim de semana pra ti também;

- Que gentil! Bom fim de semana pra ti também;

- Boa tarde e bom fim de semana pra ti também; ou, somente,

- Bom fim de semana; ou, ainda,

- Pra ti também.

Havia aqueles que não respondiam absolutamente nada.

Havia, ainda, aqueles que sentiam uma vontade indescritível de mandá-lo à merda. Não o faziam por educação, por princípios, por falta de jeito ou por sei lá o quê.

O gordinho bom fim de semana, gostando ou não, era uma pessoa conhecida nas redondezas.

Ele era a personificação máxima daquilo que parece debochar da capacidade de entender a vida que segue. Numa pesquisa despretensiosa na casa de documentos da cidade, descobriu-se o absurdo do mundo do papel timbrado. Qualquer morador tinha acesso ao documento que informava que, para ocupar o referido cargo, o gordinho bom fim de semana havia eliminado centenas, talvez milhares de concorrentes e foi aprovado com a nota máxima.

Quem o avaliou?

A resposta para essa pergunta nunca ficará clara.

Não insista (por favor, não...).

'Às claras' é força do hábito, não passa de um jogo retórico.

Evidentemente, ele tinha apenas a boa e velha eficiência e, naturalmente, a competência nos demais pormenores que a profissão requeria (ou deixava de requerer).

O gordinho bom fim de semana cumpria sua função com maestria, pois fazia chuva, fazia sol, até quando nevou, e foi uma vez apenas, o gordinho estava lá a postos para dizer com toda sutileza, elegância e desenvoltura o que todos esperavam dele quando passavam pelo local que os conduzia de volta às suas casas depois de um dia extenuante.

Um (nem tão) santo dia o gordinho bom fim de semana deixou de fazer parte da rotina daquele lugar. Ninguém sabe o motivo: se fez algo que não devia, se disse algo a mais que o combinado, se foi aposentado ou se pediu demissão...

Onde foi parar?

Ninguém sabia dizer, e nem era necessário.

O fato é que o gordinho bom fim de semana foi substituído por outro nem tão gordinho, que repetia com maestria a frase que lhe cabia e para qual havia sido contratado no lugar do outro gordinho.

As pessoas passavam e o nem tão gordinho dizia: bom fim de semana.

Aquela frase que cativava a todos parecia ser o segredo das relações humanas naquela pequena vila, desesperadoramente grande para os que nela viviam.

Desesperadora assim no sentido de desespero, se é que é necessário insistir na retidão da palavra.

Importante frisar que não se fala aqui de educação ou falta de, fala-se especificamente de uma imagem (como tantas outras): um gordinho prostrado na porta da cidade, que foi contratado para dizer bom fim de semana para as pessoas que iam e que vinham, ou melhor, que vão e que vem.

Uma peça bem colocada em um local certo é (sem dúvida) fundamental para manter a cidade como ela é, como ela está, como ela foi e como ela será.

Poder-se-ia dizer nesse momento, com receio de tornar o texto grosseiro, um 'bosta' bem alto às convenções.

Afinal, convenções são algo assim com a cara daquilo que não se precisa, mas também, assustadoramente, por um motivo ou outro, algo assim que faz falta. Como se as pessoas não sentissem a falta do outro, mas apenas daquilo que lhes dá, por mais funesto que possa parecer, a sensação de estarem vivos.

Sim.

Que bonito.

Talvez o estar-vivo aqui desmonte a preocupação com a vida do outro. Vida essa que não cabe no mesmo bojo, mesmo que todos dividam e celebrem o mesmo espaço.

Por isso ninguém, absolutamente ninguém, nem com a mínima possibilidade de desconfiança, notou que a pessoa que dizia bom fim de semana não era mais a mesma. Isso não importava. Isso nunca importou. Passou despercebido, só pode, por causa da roupa que a função requeria e que deixava todos os funcionários com cara da mesma coisa.

Nesse momento, nem os provérbios, nem os ditados caberiam no texto, se sentiriam deslocados.

Provavelmente outros gordinhos bom fim de semana passarão pelo cargo, do mesmo modo que outros tantos já passaram. Isso não tem a mínima importância. (A palavra importância aqui é uma dádiva, tanto que foi retomada no texto: daquilo que importa, mas que também pode ser importado).

Há mais coisas sem importância no mundo do que se possa imaginar, por mais que se faça um esforço danado pra pensar o contrário.

Desse modo, como não há mais nada que possa engrossar o caldo ralo da conversa hoje, de ontem e de amanhã, despeço-me dizendo a todos que me acompanharam nessa empreitada:

Bom fim de semana.

 

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ilustração de helton souto

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DEMÉTRIO PANAROTTO nasceu em Chapecó-SC, em 1969. É doutor em literatura, professor universitário, músico e escritor. Publicou, dentre outros, Poema da Maria 3D [Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book], Ares-Condicionados [Nave Editora, 2015, contos], A de Antônia [Miríade, 2016, infantil], No Puteiro (Butecanis editora cabocla, 2016, poemas). Vive em Florianópolis-SC.

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

18/03/2018