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Celsius 232,778 / literatura brasileira contemporânea; André Carretoni

André Carretoni

As primeiras coisas que fiz foram sair das redes sociais, entrar no meu correio eletrônico, enviar as minhas mensagens para a lixeira e esvaziá-€•la. A seguir, suprimi o meu site do servidor, apaguei os arquivos que tinha enviado para nuvens, cancelei as minhas participações em blogs, exclui as minhas inscrições de fóruns, formatei o meu computador, coloquei as minhas chaves USB e os meus CDs e DVDs dentro de um saco e fui até o quintal, acender uma fogueira.

Uma vez que o lume pegou e das chaves USB e dos CDs e DVDs restavam apenas plástico contorcido e bolhas de ar, entrei em casa e voltei enfim com o meu computador. Aliás, a partir daquele momento, não parei mais com o entra-€•e-€•sai, trazendo tudo que podia carregar para também atirar no fogo.

O disco rígido onde estavam as minhas cópias de segurança, os meus manuscritos, exemplares dos livros que havia conseguido publicar, os manuais que havia comprado para melhorar o meu estilo literário, a minha caneta de predileção, os livros que ainda pretendia ler, os meus livros prediletos e alguns livros raros ou autografados que faziam parte da minha coleção particular.

As chamas subiam até os céus, e a minha dor de cabeça desapareceu.

...

Quando o meu amigo chegou, os bombeiros já haviam apagado o fogo da minha alma.

-€• Meu Deus! - ele parou ao meu lado – O que houve? Você está bem?

A perda havia sido total.

-€• Estou. Verdade! Eu tenho algo aqui para você.

Coloquei a mão no bolso e lhe entreguei uma folha de papel.

-€• O que é isto?

-€• O texto que você me pediu.

Ele nem mesmo olhou para a folha.

-€• E o que você vai fazer agora?

Olhei para ele, sorri e disse:

-€• Pra começar, vou reaprender a ler. E isso vai levar algum tempo.

 

 

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   ilustrações de rodrigo caldas   

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ANDRÉ CARRETONI nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

  • 11 - Angel Olsen - Windows

04/02/2018