)Livros(

Pulmões de Cronos /

Haron Gamal

Amortalha, de Matheus Arcaro, é um livro com vinte e um contos. Na mesma trilha de seu romance, O lado imóvel do tempo, o autor usa como material de criação literária a temática da morte e das perdas, ou ainda a perspectiva de que sempre há algo que nos falta. No embate vida / morte; amor / ausência, as narrativas constroem-se e entrelaçam-se, como se apreciássemos uma longa exposição em que quadros e mais quadros não completassem o sentido de nossa existência, mas que mostrassem o seu sem sentido e exibissem, como uma faca próxima ao pescoço, o fato de vivermos num precário equilíbrio, e sobre o fio de uma navalha.

No primeiro conto, “Salvação”, há uma menina que se lembra de um cachorro que tivera e já faleceu, chamava-se Bernardo, nome de ser humano. Mas a frase da catequista lateja em sua mente: “Não, Elizabeth, os cachorros não vão pro céu; somente nós humanos, que somos imagem e semelhança de Deus, temos alma.” “Deus não era cheio de bondade?”, interpela a menina. No final Bete perdoa o veterinário por ter dito que seu cão não tinha cura, perdoa a catequista, dona Elvira, “e perdoa os pecados de Deus.” Talvez neste perdão esteja seu grito de perenidade. Ela deseja encontrar seu cão, mesmo depois de morta.

Os contos vão se construindo nesta espécie de paradoxo, há o caminho, mas existe também algo que pode ter dado errado, não apenas em relação a Deus (para quem acredita e examina a criação sobre este ponto de vista), mas em relação ao próprio ser humano, suas supostas certezas e conclusões.

Em muitos contos, filosofia e psicanálise servem de pilares para o desenvolvimento da narrativa, muitas vezes explorando o sentido inverso de algumas dessas disciplinas.

Há um inusitado encontro entre Sócrates e Freud, em “Foucault ficcionista”. O mestre da antiguidade clássica, após uma sessão de análise, deseja renegar sua filosofia, não deixar herança alguma a qualquer seguidor, sobretudo a um deles conhecido pelo nome de Platão. Mas já não é possível. As palavras, mesmo as não escritas, são imortais.

“Má educação” é um conto em que mestre e discípulo encontram-se, tempos depois, em posição opostas na luta pela vida. O mestre é professor de filosofia. O discípulo tornou-se policial, incumbido de integrar a tropa que vai dissuadir uma manifestação política.

Palavras mudas, através do próprio título e de uma epígrafe de Pascal (Em matéria de amor, o silêncio vale mais do que a fala) apresenta um casal que se encontra a cada semana, durante quatro anos, mas a única linguagem existente entre os dois é a do amor, materializada no momento do ato sexual.

O tema da morte retorna no conto Celebração, narrativa curtíssima, que representa o suicídio. “Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou de si próprio: as pessoas matam-se sempre para existir”, vale também esta epígrafe de André Malraux, no começo do conto.

“Demétrio” é um dos contos em que a passagem do tempo e o abandono mostram-se mais cruéis. Um homem, após anos ausente, retorna à casa paterna, mas já é tarde demais.

“Alemão” é um conto pungente, além de mostrar a relação pai e filho, apresenta a ideia que os filhos têm sobre o preconceito social em relação ao trabalho dos pais. Trata-se de um menino de onze anos que tem a mãe enfermeira e o pai mecânico. Nas reuniões da escola é a mãe que sempre comparece, mas na última do ano há um imprevisto. No lugar dela, é o pai que precisa marcar presença. Ao contrário do que o filho esperava, tudo corre bem. A humildade de Luiz, o pai, conhecido como Alemão, é contagiante, mostrando que nem sempre a cultura acadêmica se sobrepõe quando o assunto é visão de mundo e educação.

Difícil fazer resenha de livro de contos. Os assuntos são muitos, personagens entram e saem constantemente, temas se entretecem multiplicando questionamentos, a literatura desliza nobre, como arte insubstituível, palavras que são comuns na linguagem coloquial crescem e assumem estaturas inimagináveis.

No final, o conto “A gestação de um pai” nos mostra a cumplicidade do homem na gestação do filho, o ato de aguardar seu nascimento, a tentativa de também ser uma espécie de mãe, já que apenas ela tem tanta proximidade com a criança. Todas essas ações podem figurar, ao mesmo tempo, a gestação da literatura; “é verdade, nunca vi teu rosto, tua pele, teus olhos. Mas o que sinto é algo que tenta se ajeitar nas minhas frestas e acaba vazando.”

Assim continua a vida. Quando nascem nossos filhos, talvez já tenhamos, quem sabe, trilhado quase a metade da existência. Mas estes vêm para dar continuidade, para tornar perene a vida, que no início parecia tão frágil.

Assim também é a literatura. Palavras podem perder-se no vento, ou podem imortalizar-se, como aconteceu com Sócrates, podem ser muito necessárias ao ouvido de Freud. São capazes de recuperar o tempo perdido e, como acontece nos livros de Matheus Arcaro, de fazer um inventário de nossos nascimentos e nossas mortes, de discutir nossas dúvidas e aflições, e ainda enumerar todas as esperanças.

 

 

 

 

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O autor

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela UNICAMP. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, palestrante, artista plástico e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016) e do livro de contos “Violeta velha e outras flores" (Patuá, 2014).

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Trecho do livro

Observando tua mãe que cochilou há alguns minutos, filha, pula-me à mente o sono do qual não conseguirei escapar. E o imagino sem muitos pesares. Tu sentada na cama a falares com teu pai que já não fala, sorrindo pela lembrança de nossa biografia entrelaçada. Eu com o peito repleto ao recordar dos momentos em que colorimos a vida. Nós a sorvermos os instantes que restam como se usássemos os pulmões de Cronos.

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Ilustrações de Helton Souto que fazem parte da série 7 maquinários abstratos: 1 Maquinário abstrato para lidar com sentimentos desencontrados. 2 Maquinário abstrato para voar em dias nublados como os de amanhã. 3 Maquinário abstrato para lidar com rotas de fuga obstruídas. 4 Maquinário abstrato para construir arquiteturas móveis e funcionais de gosto duvidoso. 5 Maquinário abstrato para relembrar passado recente de glórias e o presente que ainda não veio. 6 Maquinário abstrato para escapar à justiça dos homens brancos sempre no comando e da própria consciência 7 Maquinário abstrato para destravar obscenidades destilar ódios buscar o equilíbrio devido.

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

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28/01/2018