)Contos(

Casa grande / Heloana Zolla; novos autores

Heloana Zolla

 

A sala de estar estava às escuras. A mucama não tivera tempo de preparar a lareira, tirada da cama às pressas como fora. O lampião de querosene nas mãos de Ezequiel, o capataz, era a única fonte de iluminação. As sombras que dele se projetavam produziam desenhos sinistros no teto, nas paredes e nos rostos dos quatro residentes trêmulos de medo. E mesmo nunca tendo visto uma expressão tão transtornada no rosto de papai, Justina ainda foi capaz de engolir em seco, muda de pavor ante a visão fantasmagórica do rosto sombreado: uma figura saída de seus pesadelos.

O estrondo na porta se intensificou. Podiam ouvir punhos esmurrando a madeira furiosamente, grunhidos animalescos e rascantes. A porta estremeceu. A barricada de móveis europeus, caríssimos, que Ezequiel e Madalena providenciaram, já não parecia mais tão segura.

- Diabo! – Seu Francisco quase gritou, escondido atrás do capataz apavorado – Que inferno aconteceu com esses pretos?! – Ele encarou Madalena acusadoramente. A pobre mucama parecia prestes a chorar.

- Eu já falei, seu Chico, ninguém sabe o que se sucedeu... – Ela balbuciou, as mãos agarradas às roupas de dormir – Ciço voltou da lavoura deitando sangue, falando que um fugido sentou uma dentada na braço dele. Ieu só tive tempo de entrar na casa atrás de unguento e quando ieu voltei... – Ela não foi capaz de continuar, finalmente sucumbindo às lágrimas.

- Deixa de choro, imprestável, que isso não resolve nada! – O senhor esbravejou, ameaçando a serviçal com a mão em punho – Vai ver se a porta da cozinha está trancada.

- Mas seu Francisco, os escravos endoidaram de vez. Ouviste o que a Madalena falou do Ciço, não? Se arredarmos pé daqui...

- Não me interessa. – Ele rosnou ameaçador para Ezequiel. Manqueteou até estar de frente para o capataz, cutucando o peito dele com a ponta da bengala – Vão os dois ver a porta, e se esses demônios tentarem entrar, dá teu jeito. Usa a espingarda, atira pra matar, mas faz o que eu tô mandando!

A atmosfera pesada, o medo da morte iminente e o que ouvira sobre Ciço fizeram com que o estômago de Justina se revirasse. Percebendo tarde demais que não conseguiria se conter, ela dobrou-se sobre si mesma e vomitou sobre o tapete. O capataz e a mucama se afastaram rapidamente com expressões enojadas; o pai, manco desde o acidente com o cavalo, não fora tão rápido: respingos do que havia sido um farto jantar borrifaram o tecido de sua roupa de dormir.

- Jesus amado! Olha o que você fez, sua infeliz! – Ele esbravejou, erguendo a bengala no ar e acertando a nuca da garota, que gritou de dor e se engasgou com a bile que voltava para a garganta – Se recomponha, ou vai ser pior!

Tentou fazer como ele mandou, no fundo sabendo muito bem que o enjôo repentino tinha outras causas além do medo. Tocou a barriga proeminente, ofegando enquanto via o suor pingar da ponta de seu nariz no carpete fedendo a vômito. Devia estar uma visão de dar pena: a única filha do senhor de engenho daquelas terras, gorda, feiosa, desengonçada, tremendo feito um leitão a caminho do abate e estragando o carpete, presente de um duque francês e que custara uma fortuna.

E prenha de um rapaz escravo, como se isso tudo não bastasse.

- Já não é o suficiente que esses imprestáveis tenham resolvido endoidar, ainda tenho que aturar dois serviçais incompetentes e essa coisa. – Rosnou, olhando com desdém para a criatura patética, carne de sua carne, ainda de joelhos dobrados e ofegando – Cadê Jeremias que ainda não trouxe novas?

- Não voltou desde a tardinha, seu Fracisco. Parece que bloquearam a estrada.

- Jesus, Maria e José... – Madalena balbuciou, juntando as mãos – Minha Nossa Senhora do Bonfim... É tudo castigo de Deus...

- Pare com as rezas que isso não resolve nada. E pare de chorar! – Gritou para a filha, que acabara de soltar um soluço sofrido – Levanta essa cabeça, desgraça! Só pode ser castigo de Deus mesmo, ter que me refugiar na minha própria casa, ameaçado por esses pretos loucos e com uma filha imprestável que só sabe comer e chorar. Maldita seja tua mãe que só soube te encher de dengo.

- Seu Chico, não seja assim com Tininha...

O estrondo soou mais uma vez, agora vindo da janela. E ali estava um deles: o escravo, roupas rotas e sujas de sangue seco, os olhos vidrados e mortos, os dedos que eram como garras forçando brutalmente contra o vidro. Ele abriu a boca putrefata e soltou um som gutural, animalesco, as mandíbulas abrindo e fechando enquanto tentava inutilmente atravessar o vidro com as mãos. Mais se juntaram a ele, aplicando mais pressão contra a janela que começava a ceder.

- Vá pegar a espingarda, rápido! – Francisco gritou para Ezequiel, que largou o lampião nas mãos de Madalena e correu para os aposentos interiores. A mucama dava tapinhas nas costas de Justina, tentando parecer solidária, sem conseguir esconder o asco ao ter que se aproximar da poça de vômito, porém.

- Não fica chateada, Tininha... Vai dar tudo certo, tá?

A única resposta que a garota conseguiu formular foi um grunhido. Pálida como uma folha de papel, suando frio e tremendo, parecia tão infeliz quanto o pai a descrevera. A mucama só conseguia sentir pena. O patrão nunca aceitara o fato de a esposa nunca ter lhe dado o filho varão pelo qual tanto ansiara e fazia questão de lembrá-la disso das maneiras mais cruéis possíveis. E depois de sua morte, o alvo passara a ser Justina.

A menina já tinha idade suficiente para compreender as razões por trás do desafeto do pai, mas isso não a impedia de sentir punhaladas de tristeza pela rejeição. Mesmo em uma situação como aquela, acordados no meio da madrugada pelos brados animalescos dos escravos enlouquecidos e forçados a se barricar na sala de estar, ele não era capaz de demonstrar um pingo de afeto ou preocupação. Desde a noite em que ele a forçara a açoitar um menino escravo, que assumira a culpa por uma travessura de sua autoria, ela sabia que não receberia demonstrações de consideração e que não deveria demonstrar o quanto ansiava por elas. Não tinha outra escolha a não ser se encolher, tentar parecer menor e menos ameaçadora possível e aceitar que sempre seria assim.

Exceto durante o sonho.

O som de vidro se estilhaçando a despertou subitamente. Dois pares de braços conseguiram, em conjunto, quebrar o vidro da janela. Os rostos contorcidos e desprovidos de emoções se espremeram pela abertura, parecendo não se importar com os cacos pontiagudos que rasgavam suas peles.

Madalena gritou. Ezequiel voltou correndo com a espingarda, acertando o primeiro tiro na testa do invasor mais próximo. O sangue se derramou pelo umbral da janela quando o homem caiu, mas outros vieram para continuar o que ele havia começado.

- Atire! Atire neles! – Francisco gritava por detrás de Ezequiel, parecendo muito pequeno enquanto tremia. A perna manca bambeava, tendo dificuldade em sustentar seu peso. Os olhos castanhos estavam arregalados, temerosos.

Justina nunca o vira parecer tão frágil, diminuto. E naquele momento, ela sentiu um prazer que não cabia naquela sala. Talvez não coubesse na casa inteira.

Viu, papai? Você também é um imprestável.

A sensação de poder que aquilo lhe dava era muito semelhante a do sonho.

No sonho, era sempre noite. As luzes do casarão e das estrelas lá encima se tornavam insignificantes diante da imensidão alaranjada da fogueira, no meio do pátio. Os ouvidos de Justina eram tomados por gritos estrangulados, animalescos, soltados pelos empregados e escravos que a cercavam. A mão pesada e opressora do pai apertava seu ombro. E diante dela, amarrado nu ao tronco, a pele suada, luzindo à luz da fogueira, estava o negrinho.

As lágrimas desciam pelo rosto do menino, se misturando à coriza. Os dentes muito brancos arreganhados de pavor, ele encarava Justina pelo rabo do olho como se implorasse. E ela queria gritar. Queria largar o chicote e correr em disparada para seu quarto. Queria arrancar a mão de papai de seu ombro mesmo que fosse a dentadas. Mas aquela mão enorme era como as garras de uma ave de rapina, cruel e inescapável. Não havia para onde se refugiar quando estava sob o domínio daquele aperto férreo.

- Levanta o chicote, infeliz. – Ele rosnava, afundando as unhas em seu ombro – Levanta, ou vais tu no lugar dele.

E soluçando, as lágrimas quase a cegando, Justina brandia o chicote. O estalo ecoou pelo jardim junto aos gritos do menino. Os brados da multidão se intensificavam. As unhas de papai em seu ombro arrancavam sangue. E ela continuava a brandir o chicote, ofegando, cada estalo e cada grito arrancado lhe provocando náusea. A prova de seu egoísmo e covardia estava bem na sua frente, escorrendo das costas do negrinho na forma do espesso sangue vermelho. Quase desejou que fosse ela ali. Quase.

De repente, o rosto do menino assumia feições delicadas, femininas. Olhava para Justina com um ar triste e maternal. Ela estava chicoteando mamãe agora. Machucando-a e matando-a como papai fizera. Papai, que nunca perdoara a esposa por não ter lhe dado o filho varão que sempre quisera. Papai, que nunca a perdoara por ter lhe dado uma menina gorda, fraca, feiosa e que só fazia chorar. Papai, o dono daquela mão cruel que a impedia de escapar, que a prendia ao lado dele, mostrando que não havia vida para ela longe dele. Sempre presa, submissa, humilhada e infeliz. Era sua punição por ter nascido mulher, feia e desengonçada. Era a punição de mamãe.

Brandiu o chicote novamente, dessa vez com uma fúria que não sabia ser capaz de conjurar. Não aguentava mais ser punida; agora era ela quem queria mais do que nunca punir. Ferir, humilhar, ver sofrer alguém que não era ela, uma vez que fosse. E naquele instante, os estalos do chicote e os gritos cortantes eram seu alívio, sua libertação, sua vingança.

Porque não era nem o negrinho e nem mamãe que ela chicoteava brutalmente. Quem agora se encontrava amarrado ao tronco, as costas em carne viva e gritando para os céus era papai.

E era nesse momento que ela sempre acordava, suada e ofegante, lágrimas escorrendo pelas bochechas e um sorriso que fazia sua boca se arreganhar de maneira diabólica.

No dia a dia, porém, não havia como tornar aquele sonho uma realidade. Mas se não podia brandir um chicote contra as costas de papai, poderia dar verdadeiros golpes em seu orgulho, ainda que ele nunca viesse a saber. Fora por isso que se deixara ser seduzida por Ciço.

Ele tinha uma fala mansa, uma risada jovial e um sorriso que deixava aparecer dentes muito brancos que pareciam luzir contra sua pele escura. Começou permitindo que ele a acompanhasse em suas caminhadas pela propriedade sob o pretexto de fazê-lo carregar sua sombrinha. Logo permitia toques ocasionais: uma mão no ombro, um roçar de dedos. Em duas semanas já andavam de mãos dadas. Na terceira semana, sob as sombras da frondosa mangueira, ela permitiu que ele a beijasse. E na quarta semana, permitiu que ele metesse as mãos embaixo de suas saias.

A sensação de liberdade que as horas ao lado de Ciço proporcionavam era indescritível. Mas não era ingênua ao ponto de chamar aquilo de paixão, e ele também não o era. Tratava-se do prazer de pecar, de deflorar, de saber que estava jogando sua honra na lama por vontade própria e que não havia nada que seu pai pudesse fazer para evitar. Sua timidez, baixa auto-estima e ódio ao seu corpo desproporcional pareciam não existir quando Ciço a tocava. Não lhe restava nem o pudor: certa feita ele rasgara um dos dedos de seu par de luvas ao tentar arrancá-los com os dentes e ela se vira incapaz de se importar. Sabia que ele também tirava prazer no fato de estar deflorando a filha de seu senhor, o homem que o fazia prisioneiro e o tratava como um bem descartável. Era uma vingança tanto para ela quanto para ele.

Por isso, quando os enjoos matinais começaram, ela soube que não poderia contar com ele. Não era como se o laço entre eles fosse profundo o bastante para que ele aceitasse os riscos de assumir uma criança bastarda. A criatura em seu ventre era fruto de uma relação puramente carnal, alimentada pelo prazer da humilhação do carrasco de ambos os seus pais. Talvez nunca houvesse amor para ela ali.

Enojada consigo mesma, Justina contemplou o que seria dela a partir dali. Não conseguia imaginar um futuro em que traria aquela criança ao mundo; se os escravos não a matassem, em seu estado irracional, papai a mataria. E mesmo com essa certeza, não conseguiu conter a enorme onda de satisfação ao ver um medo absoluto estampado no rosto de seu genitor. Ele não estava mais no controle e o mundo perfeito que ele construíra, com ele no centro de tudo, como o soberano absoluto, desabava bem diante de seus olhos.

Mais estrondos ensurdecedores, e a barricada enfim desmoronou. Os escravos entraram aos montes, cambaleando como bêbados, os dentes batendo freneticamente ao verem o quarteto encurralado. Ezequiel abriu fogo, derrubando os mais próximos, mas cada vez mais deles apareciam. Os gritos agudos de Madalena eram a sinfonia perfeita para acompanhar aquele caos.

E então ela viu Ciço. O sorriso que outrora ela achara bonito agora se resumia a um esgar macabro, parte da mandíbula dele tendo sido arrancada. Os olhos desfocados pareciam chamá-la. Os dedos dele se contorceram como garras enquanto manqueteava em sua direção.

- Vai pra trás, peste! Quer morrer? – O pai gritou, agarrando Justina pelos cabelos e a puxando para trás. Ela resistiu, os olhos fixos em Ciço.

- Seu Francisco, pega a Tininha e corre pra cozinha! – Ezequiel gritou para eles. Atirou no peito de um dos escravos uma última vez, e tudo o que se ouviu da arma depois disso foram os cliques surdos do gatilho sendo puxado, sem efeitos. Chorando, Madalena agarrou-se à cintura avantajada de Justina.

- Jesus, Maria e José... ieu não quero morrer, ieu não quero...

As mãos de uma das mulheres se fecharam ao redor do pescoço da mucama. Gritando em pânico, ela se agarrou com mais força à garota. E Justina, dominada pelo pavor, reagiu empurrando-a violentamente. Madalena desabou no chão, guinchando, sendo imediatamente atacada por cinco escravos, amontoando-se sobre ela e cravando seus dentes em cada parte do corpo dela que conseguiam alcançar.

Ezequiel parecia prestes a desmaiar. Sem mais munição, eles eram agora uma preza fácil. Justina sentiu a mão do pai tentando puxá-la, mas se via incapaz de desviar os olhos do espetáculo macabro ao qual submetera Madalena. A pobre mucama que cuidara dela como cuidaria de uma filha, e ela a empurrara para a morte sem pensar duas vezes...

Ciço estava mais perto agora. Bastavam seis passadas para que ficassem frente a frente. Se ela estendesse os braços, os dedos deles poderiam até se tocar...

- Anda logo, infeliz! – Francisco a agarrou pelo braço e a puxou novamente, mas a resistência inicial dela foi o que bastou para que fosse tarde demais. Ciço caiu sobre ela, as mãos férreas a enlaçando pelos quadris e as mandíbulas destroçadas se fechando vorazmente sobre seu peito, pouco acima dos seios. Justina gritou em agonia ao sentir os dentes rasgarem sua carne, a dor terrível ao sentir que ele tentava arrancar o que conseguira abocanhar, o cheiro pútrido que dele exalava a deixando tonta. Ele só não a mordeu novamente porque Ezequiel chegara a tempo, acertando a cabeça do escravo com a coronha da espingarda. Ele a soltou, mas Justina, zonza pela dor e pela perda constante de sangue, sabia que já não faria mais diferença. Aquele era seu fim.

A despeito do zumbido em seus ouvidos, ela foi capaz de ouvir o pai gritar alguma coisa para Ezequiel. As mãos férreas praticamente a carregaram para longe. A última visão que teve antes da porta da cozinha ser fechada foi a do capataz completamente cercado, a espingarda sem munição pendendo inutilmente ao lado de seu corpo.

Foi então atirada ao chão duro e frio. As mãos do pai apalparam seu ferimento, fazendo-a gritar de dor novamente. Ele não fazia qualquer esforço para ser delicado.

- Rapariga louca... – Ele rosnou – Olha só o que ele fez com você...

O balbucio de Justina foi sufocado por mais sangue, desta vez descendo garganta abaixo. Lutando para se manter consciente, ela viu a expressão de fúria retorcer ainda mais as feições de Francisco, deixando-o quase parecido com os monstros que devoravam seus serviçais na sala ao lado.

- Era isso o que você queria? Deixar ele te dar uma dentada? – Ele a olhava como se nunca tivesse visto nada parecido – Então o Ezequiel não estava inventando lorotas. Vocês estavam se encontrando, não é?

Ele sabia. Não havia mais porque continuar escondendo. Seu silêncio foi toda a resposta de que Francisco precisava. A palma da mão enorme a atingiu em cheio na lateral do rosto, produzindo um estalo que ecoou pela cozinha. Mas Justina já passara há muito do ponto de se importar. Sorriu fracamente para ele, os dentes manchados de vermelho vivo.

- É, paizinho. E eu dormi com ele também.

Ele a esbofeteou novamente. Ela se limitou a rir.

- E eu também tô prenha. O senhor vai ganhar um netinho, papai. Um netinho preto e bastardo.

As mãos dele estavam trêmulas demais, sem mais força para continuar a estapeá-la.

- Seu Francisco do engenho de Ouro Preto, pai da rapariga que dormiu com um escravo e avô do mestiço bastardo...

Ela agora murmurava incoerentemente, os bonitos olhos esverdeados se revirando, as córneas injetadas de sangue. E Francisco só conseguia olhá-la em um fascínio horrorizado. Sua filha, sua única filha morrendo nos seus braços e escapando lentamente de suas mãos...

Desde que se acidentara com o cavalo, ficando permanentemente manco, sua necessidade por controle chegara a um nível patológico. Sentia que não possuiria mais nenhum valor como homem e senhor se todos o olhassem como o pobre coxo incapaz. Precisava sentir que estava no controle de absolutamente tudo: dos serviçais, dos escravos, dos negócios e, acima de tudo, de Justina. Era humilhando-a e desprezando-a que se sentia soberano a ela. A filha o olhava com medo e reverência apesar de sua deficiência, e era aquela sensação de poder que o impedia de sucumbir, de reduzir-se ao velho manco que muitos ainda enxergavam. Precisava da subserviência de Justina como precisava de alimento, de água, de ar.

Mas agora ela escapava entre seus dedos. Fugia como Ezequiel e Madalena fugiram: pelas mandíbulas dos escravos enlouquecidos. Não poderia impedi-la, não poderia gritar, esbravejar, ameaçá-la para fazê-la desistir da ideia de morrer. Percebeu então que era exatamente aquilo que ela queria: escapar, libertar-se de seu domínio, nem que fosse através de uma morte agonizante. Mas não sem antes humilhá-lo ao jogar sua honra na sujeira sob seus pés.

Era isso. Há muito tempo que já não tinha qualquer controle sobre a filha. Ela andara as voltas com um escravo bem debaixo de seu nariz, chegara a conceber um filho pelo simples prazer de estar escapando de sua tirania. E agora ela morreria vitoriosa, dando a última gargalhada.

Talvez o seu reinado já estivesse nas últimas antes mesmo de toda aquela loucura começar. De que adiantava ter aquela propriedade e tantos sob seu comando se não teria Justina? Tudo havia desmoronado. Aquela casa grande, seu engenho, seu império meticulosamente construído desmoronava pelas mãos dos escravos que agora eram como animais enfurecidos, pelo abandono de seus serviçais ao escolherem a morte e pela absurda rebeldia de sua filha. Não conseguia se manter em pé, a perna manca doía mais do que nunca e as mãos outrora tão poderosas estavam trêmulas como as de um velho.

Porque sem nada sobre o que lançar seu domínio, era isso o que ele era. Apenas um velho coxo.

E esse foi o seu último pensamento racional antes de Justina cravar os dentes em seu pescoço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 ilustrações de rodrigo caldas 

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HELOANA ZOLLA. 24 anos. Recentemente formada no curso de Letras, pelo Centro Universitário MoUra Lacerda, de Ribeirão Preto. Tem a leitura e a escrita tanto como um hobby quanto, futuramente, como uma ocupação profissional.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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06/01/2018