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Precisamos falar sobre Kevin /

Renato Alessandro dos Santos

Gosto de Kevin Spacey, como gosto de Woody Allen; não na mesma proporção, mas ambos terão no seu curriculum a acusação do sexo mais vil, seja o estupro seja a pedofilia. Uma pena. Em nosso tempo, distinguir o artista de sua vida é impossível. Mas sempre haverá aqueles a quem Annie Hall ou House of cards falem mais alto. De fato fica difícil separar as coisas. Mas é preciso. 

Falemos de Kevin e deixemos de lado, Woody, casado e neurótico, esse inegável artista genial. Falemos de Kevin, porque as notícias recentes dão conta de um monstro por trás do ator. Vencedor de dois Oscar, Spacey caminhou pintando como bem quis e bordando seu brasão naqueles férteis terrenos shakespearianos em que a virtude desaparece àqueles que carecem de princípios, mesmo que seja o princípio banhado a sangue e minério daqueles tempos em que a espada era a lei, embora a moral e a ética, modeladas a seu tempo, já estivessem ali para soterrar os espíritos mais daninhos. 

Penso nas vítimas, especialmente, nos dois rapazes que serviram de matrioska a Kevin. Anthony Rapp tinha 14 anos em 1986; Kevin Spacey, 26. Como o site de notícias da BBC anunciou: “ele me carregou no colo como um noivo carrega a noiva... então, se deitou em cima de mim”. Usar desse poder masculino, em que, pisando astros distraído, tudo é possível e permitido a eleitos homens, é coisa de dar vergonha alheia... Trata-se da permissividade em que a ética, a moral, ou aqueles ensinamentos ancorados nos pais, dentro de casa, em que o certo é certo e, no fundo, tudo se resume a isso, deixam de existir, e, então, faz-se aquilo que der na veneta, e na veneta de Kevin, de indisfarçável vaidade, a vilania falou mais alto, e nos deparamos com tudo que vem aí, para desfastio público, trazendo um ator de quem gostamos, mas que, boa-noite, Cinderela, deixou inconsciente um rapaz, que, enquanto era estuprado, acordou e se viu ali, objeto de desejo de uma mente doentia, como relataram o inglês The Guardian e a Folha de S. Paulo em seguida, no sábado, 4 de novembro. Eis a segunda vítima, ainda no anonimato, que vive à sombra do estupro desde 2008, quando tinha 23 anos, e procurou o ator em busca de alguma possibilidade de emprego no arco-íris hollywoodiano; encontrou nada parecido e, em vez disso, Kevin, língua de fora, rosto sobejando suor, e a imaginação, um parque de diversões. Mas como vem acontecendo nas últimas semanas o dia do juízo final parece ter chegado a algumas pessoas que, aspirando ir além do que cabe a cada cidadão, agiram à surdina, trocando as mãos pelo pênis. 

Não se enganem. Nada disso trará de volta o sujeito inocente, anterior às experiências de juventude, das mangueiras, dos laranjais; tanto Kevin como Harvey Weinstein, o chefão lá dos estúdios repletos de atrizes que seviciou, podem até ficar longe das câmeras, mas não estarão longe de seus fantasmas. Descem um patamar, mas com toda a dinheirama viverão bem; felizes, como antes, não, mas bem somente, longe da barca da glória, embora com caviar à revelia. É um preço módico a se pagar, vocês não acham? Enquanto isso, o mercúrio ferve: tribunais online da Santa Inquisição já estão armados, apenas esperando ver rolar a cabeça de Kevin. 

A história vai além de ativistas a condenar a pior saída do armário da cultura pop gay, ou mesmo de, nesses tempos sombrios, sermos privados de exposições que são proibidas em museus, por prefeitos que o próprio povo escolheu, ou de outros que condenaram episódio parecido, enquanto vêm fazendo da privatização uma propaganda eficaz, sempre capaz de resolver um problema a menos ao município. A história vai além, pois no centro disso tudo estão as mulheres, que chegaram a um dos grandes pontos luminosos da humanidade. 

A mulher deixou de ser o bibelô que foi, ao longo dos séculos, para se tornar, longe do alcance das mãos dos homens, alguém que não é mais um brinquedo, que se pega e se faz o que se quer; a mulher chegou a um lugar do qual não há que retroceder, porque não mais entendemos o mundo anterior a este em que vivemos, e foram das acusações de atrizes que se viram abusadas que reis começaram a cair, deixando uma fileira de cartas tropeçadas sobre a lona, cartas que estão sangrando, como sangram, por dentro, todos essas pessoas que, até agora, vinham sofrendo caladas com a injustiça a pesar sobre elas. Há algo de podre no reino, mas a chuva começa a cair. 

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 ilustração de rodrigo caldas 

 

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 45, é professor de literatura no Centro Universitário Moura Lacerda e no COC (Batatais). Doutor em Estudos Literários com a tese Romances rebeldes a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É autor do livro Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet, editor do tertuliaonline.com.br e colunista do site Digestivo Cultural. Contato: realess72@gmail.com; Facebook: Renato dos Santos Santos.

 

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

  • 08 Talento não Tem Idade

26/11/2017