)Música(

Ode à dor-de-cotovelo, coisa nossa / Lupicínio Rodrigues; Música Popular Brasileira

Julio Bastoni

Em um show que o Oduvaldo Vianna Filho escreveu, "Telecoteco, Opus n. 1", na década de 1960, para a dupla Dilermando Pinheiro e Cyro Monteiro, dois figuraças do samba brasileiro no século XX, há uma sequência de músicas chamadas de “dor-de-cotovelo”: coisa da lavra de Ismael Silva, Wilson Baptista e, claro, Lupicínio Rodrigues.

Para abrir, Cyro Monteiro diz que “o brasileiro nasceu talhado para dor de cotovelo”, que ela é “patente nossa”. De fato, se olharmos para nossa lírica, ao menos desde o Domingos Caldas Barbosa, no século XVIII, a dor-de-cotovelo parece ser cantada e recantada ao longo do tempo.

Caldas Barbosa, compositor de modinhas e lundus, era capaz de cometer uma estrofe como esta: “Dos olhos de Ulina bela / O Deus de amor espreitou / A um volver de olhos feriu-me, / Bateu as asas, voou”. Ainda melhor: “Eu, sei, cruel, que tu gostas, / Sim gostas de me matar / Morro, e por dar-te mais gosto, / vou morrendo devagar”. É a mais pura expressão desse sentimento diabólico, que vai desaguar lá no nosso Cartola e em Nelson Cavaquinho, para falar de outros dois poetas dessa arte.

Dor-de-cotovelo é expressão fora da moda, substituída pela dor-de-corno, uma coisa medonha, que já beira a indignidade, e foi muito cantada no pagode da década de 1990 e, óbvio, no nosso sertanejo comercial. Pior, essa coisa virou sua expressão e forma, e a dor-de-cotovelo original, também conhecida nas brenhas desse mundão de Deus como ‘amor’, foi tachada como “brega”. É a morte cruel desse misto de tristeza e alegria, de sofrer e aprazar-se no sofrimento, a coita (coita, com ‘a’, percebam) d’amor dos trovadores ibéricos, nossos antepassados. Sinal dos tempos.

Da modinha à Bossa Nova, dor-de-cotovelo é expressão de uma sentimentalidade muito brasileira, muito lusitana, muito africana; algo das raízes. A própria Bossa, essa coisa aparentemente tão plácida, tão joãogilbertiana, tem um Vinícius, aquele que fala que é “melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”. Até quando faz cena, como em “Lígia”, do Tom Jobim, o eu-lírico da bossa é um portador cínico da dor-de-cotovelo, escondida pra não passar vergonha.

Aliás, um mais austero diria que dor-de-cotovelo é falta de vergonha na cara. A que ponto chega a hipocrisia dessa gente.

Noel Rosa, esse tuberculoso ultrarromântico da Taberna da Glória, cantou muito a dor-de-cotovelo. Chico, outro maioral, também. E nem se fale dos intérpretes, mestres na arte, como Nelson Gonçalves e Jamelão. Tem ainda um Paulinho da Viola, com coisas dele e de outros: em “Dança da solidão” consegue enfiar melodia em uma palavra estranha, como ‘desilusão’, pra ser entoada e ficar martelando na cabeça como refrão. Uma coisa de louco.

Mas temos um verdadeiro especialista na matéria, que ficou conhecido justamente pelas músicas desse filão congenialmente brasileiro. Trata-se de Lupicínio Rodrigues, humilde funcionário do ECAD, gaúcho de nascimento, compositor do hino do Grêmio, seu time de coração.

O disco “Dor-de-cotovelo” abre com a mais perfeita situação do desamparo providenciado por essa insidiosa dor na articulação, a música “Se é verdade”:

Se é verdade
O que você vem me dizer
Se é mesmo certo
Que ela vai me procurar
Então me diga
A quem devo agradecer
Depois que fiz
Tantas promessas
Pra meu bem não me deixar

No desespero
De perder o meu amor
Naquela ânsia
Sem saber o que fazer
A todo santo
Que encontrei me ajoelhei
E implorei que ela voltasse
Para eu não morrer

A precipitação
Neste momento de amargor
Só pode trazer coisas
Como a que me aconteceu
Naquele desespero
De perder o meu amor
Ofereci até um coração
Que não é meu

Agora se é verdade
O que você vem me dizer
Que a dona do meu ser
E da minha alma vai voltar
Por Deus, esse bom Deus
Por certo há de me compreender
E com certeza vai me perdoar

A música é um exemplo clássico dessa efusão cordial, manifestada em canção. Lupicínio era um mestre na composição e no discurso, o que faz com que a lamentação e a esperança não tenham sabor de chororô: é quase um causo, um desabafo, cerzido pelos enjambements, pelas assonâncias e rimas internas. Quase encontramos com o bom Lupi no boteco, tomando um conhaquezinho e recebendo a alvissareira notícia da volta da amada. Augusto de Campos, num ensaio célebre sobre Lupicínio, fala sobre outras músicas, também, mas tenta renegar a ideia da dor-de-cotovelo como marca valorativa. Deveria ser o contrário, caro Campos mais jovem! Há mais dor-de-cotovelo entre Pindorama e o Cruzeiro do que sonha nossa vã filosofia.

Mas a pérola, a cereja do bolo, a nota de R$100 escondida no bolso do paletó guardado, é “Loucura”, música de uma beleza indefinível, porque dói na gente também:

E aí
Eu comecei a cometer loucura
Era um verdadeiro inferno
Uma tortura
O que eu sofria
Por aquele amor
Milhões de diabinhos martelando
Um pobre coração que agonizando
Já não podia mais de tanta dor

E aí
Eu comecei a cantar verso triste
Os mesmos versos que até hoje existe
Na boca triste de algum sofredor
Como é que existe alguém
Que ainda tem coragem de dizer
Que os meus versos não contêm mensagem
São palavras frias, sem nenhum valor

Ó, Deus! será que o Senhor não está vendo isto
Então, porque é que o Senhor mandou Cristo
Aqui na Terra semear Amor
Se quando se tem alguém
Que ama de verdade
Serve de riso para a Humanidade
É um covarde, um fraco, um sonhador

Se é que hoje tudo está tão diferente
Por que é que não deixa eu mostrar a essa gente
Que ainda existe o verdadeiro Amor
Faça ela voltar de novo para o meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve o seu mundo com a minha dor.

Começando por “e aí”, começando pela conjunção duas estrofes, vejam só, o homem já sabia que nós o sabíamos: a merda é profunda, dá para se imaginar. Os diabinhos, esse diminutivo lusitano-brasileiro teorizado por Gilberto Freyre, perseguem a todos nós; basta viver. E ficam lá, jogando frio no peito e insônia. É um camarada na mesa do bar, é a gente falando para nosso amigo, que a coisa está difícil. Mais pra São Benedito que pra Santo Antônio. O “verso triste na boca de algum sofredor” continua por aí, valha-me Deus, e que o diga o jovem defunto Álvares de Azevedo. Lupicínio é um mestre, dos bons, daquele rancor bem chorado que há no tango, há no samba, há na moda.

Para continuar com a “Loucura”, de fato, o que precisamos é mostrar “a essa gente que ainda existe o verdadeiro amor”. Uma coisa que o brasileiro se especializou, e não precisa nem resgatar. A gente pega pelo cheiro, no ar, na moça bonita do nosso bem querer. A dor-de-cotovelo incomoda por demais, mas ela está aí é pra ser chorada. Chorando bonito assim, quem liga?

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ilustração de rodrigo caldas

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JÚLIO BASTONI, natural de Espírito Santo do Pinhal (SP), é professor e pesquisador da Literatura Brasileira, com formação pela Universidade Federal de São Carlos e pela Universidade Estadual Paulista. Escreve crônicas e artigos sobre a literatura, a música e a cultura brasileiras.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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29/10/2017