)Sarau(

marinha névoa azulada / poesia contemporânea brasileira; alex dias;

Alex Dias

 

 

 

 

 

 

notas escassas de silêncio.

 

um templo e um monge

sobre a calda do piano

velho e de pedra:

 

de mármore empoeirado,

suas teclas nuas

densas de vento.

 

rio represado pela falta

de dedos vibrando as cordas,

não acorda a árvore sonâmbula,

 

a pintura na parede,

o vaso sobre a moldura,

a nuvem sobre a chama

do som que lembra algo,

 

neste assobio entre frestas.

 

música,

é impossível lembrá-la,

por mais que vibre.

 

lágrimas, impossível

contê-las, como um bonsai

florido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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isto. uma doçura

que diz com lâminas

como se abre uma carta.

 

raros reflexos rubros

transeuntes de lembranças

numa boca pálida.

 

marinha névoa azulada

encobre o verde em fumaça,

os cabelos da mata.

 

cemitério de automóveis

em plena chuva, poços

de ferrugens sobre a terra.

 

placas me falam da distância

de teu corpo em outra rota

nauseante entre os passantes.

 

no fundo, será mesmo a água

que inunda os corpos

e iguala todos nesta praia:

 

piano na garganta do oceano

em que ainda tentamos

tocar com os dedos dos pés:

 

ausculta esse silêncio de algas.

 

marulha essa agonia de concha.

 

sussurra no tímpano da areia

 

 

 

 

 

 

 

 

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lá fora

onde a memória

                  lança 

uma esperança no resto da mobília 

na caçamba, 

 

fora do alcance das mãos, 

quase dos olhos, 

não fosse a imagem presa

nas roldanas,

 

destes resgates além-vidraças.

 

   [   quase-chuva,

       quase-dor,

       quase-nada.   ]

 

a cor da noite colore

a espera-madrugada,

 

a vida é um raio no cedro

da nossa cadeira quebrada, e o amor

essa luz que não passa

 

 

 

 

 

 

 

 

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nosso dia/

 

 

lâmina

             vencida

                            por um

                                        leve véu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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    ilustrações    de    rodrigo   caldas    

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ALEX DIAS é mestrando em Teorias e Crítica da Poesia, pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UNESP de Araraquara, com a pesquisa: Construção e utopia na poesia moderna. Tem pós-graduação em “Gestão Cultural: Cultura, Desenvolvimento e Mercado”, graduação em Ciências da Informação e da Documentação e Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP), Campus de Ribeirão Preto (2006). É poeta, ator e produtor cultural. Autor do livro de poesia Lírica abissal, lançado pela editora Urutau em 2016. Fundou e dirige a empresa OSNÁUTICOS - de Arte, Cultura e Educação. Também fundou e coordena o “POÉTICAS - Laboratório de pesquisa e Criação Literária e Poética” e o projeto “BAGAGEM... POESIA!”, voltado à mediação de leituras. Fez Magistério (2002) em São José do Rio Preto. É Animador Sociocultural do Sesc Ribeirão Preto.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

  • 05 Rêverie

16/07/2017