)Sarau(

Nessa imensa correnteza / poesia contemporânea brasileira; vivane mosé.

Viviane Mosé

 

 

 

 

 

 

Vida/tempo

 

Quem tem olhos pra ver o tempo?

Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele

Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto

Com uma navalha fina.

Sem raiva nem rancor

O tempo riscou meu rosto com calma.

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.

Acho que ganhei presença.

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.

Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida

em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

Por falar em sexo quem anda me comendo

É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia

Porque ele me pegava à força, e por trás.

Um dia resolvi encará-lo

de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer

Que seja com o meu consentimento. E me olhando nos olhos. Acho que ganhei

o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até

remoçando

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Receita pra lavar palavra suja

 

Mergulhar a palavra suja em água sanitária,

Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras quando alvejadas ao sol

adquirem consistência de certeza,

por exemplo a palavra vida.

Existem outras e a palavra amor é uma delas

que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,

o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,

depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que ainda permanecem sujas

depois de submetidas a esses cuidados

mas existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.

Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.

Mas nunca vi palavra tão suja

como a palavra perda.

Perda e morte na medida em que são alvejadas,

soltam um líquido corrosivo

— que atende pelo nome de amargura —

capaz de esvaziar o vigor da língua.

Nesse caso o aconselhado é mantêlas

sempre de molho

em um amaciante de boa qualidade.

Agora se o que você quer

é somente aliviar as palavras do uso diário,

pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo aqui é misturar palavras que mancham

no contato umas com as outras.

A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra

e deve ser sempre clareada sozinha.

Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,

já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,

pode, o que não é inevitável,

esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.

Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras

sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva

produz uma oleosidade que conserva a cor

e a intensidade dos sons.

Muito valioso na arte de lavar palavras

é saber reconhecer uma palavra limpa.

Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos

que passeie pelas expressões dos seus sentidos.

Á noite, permita que se deite,

não a seu lado, mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme

a palavra plantada em sua carne

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar a convivência

até não mais perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Toda Palavra

 

Procuro uma palavra que me salve

Pode ser uma palavra verbo

Uma palavra vespa, uma palavra casta.

Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.

Ou palavra muda,

molhada de suor no esforço da terra não lavrada.

Não ligo se ela vem suja, mal lavada.

Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.

Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei

e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.

Penso em quanta fadiga me dava

o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.

Hoje imploro uma fala escrita,

não pode ser cantada.

Preciso de uma palavra letra

grifada grafia no papel.

Uma palavra como um porto

um mar um prado

um campo minado um contorno

carrossel cavalo pente quebrado véu

mariscos muralhas manivelas navalhas.

Eu preciso do escarcéu soletrado

Preciso daquilo que havia negado

E mesmo tendo medo de algumas palavras

preciso da palavra medo como preciso da palavra morte

que é uma palavra triste.

Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.

Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.

Toda palavra é bem dita e bem vinda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rios

 

Rios, quando ainda são rios,

Conservam vegetação nas margens.

Córregos são águas geralmente claras

Que correm rasas entre as pedras.

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:

Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas

(em geral muito limpas) que correm.

As margens de um rio são plantas e terra molhada.

Terra e água em convivência pacífica.

Que não é lama, é terra e água,

Em sua diferença.

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão.

Eu poderia chorar de coisas assim:

Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.

Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário

Como derramar, escorrer, atravessar.

Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.

Tenho dificuldade em caber.

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.

Vou acalmar meu excesso pensei

Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,

Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,

Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados

Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,

Reconhece certos humores próprios a vento.

Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.

E árvores.

Se bem que tenho enorme ternura por bois

Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.

Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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         ilustrações de RODRIGO CALDAS         

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VIVIANE MOSÉ não para. Leia perfil da autora aqui.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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02/07/2017