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As cores do camaleão / literatura brasileira contemporânea; Antonio Risério; "Que você é esse?"

Haron Gamal

Que você é esse? ― de Antonio Risério, é um romance composto de duas partes, com capítulos alternados entre si, cada um correspondendo a uma dessas mesmas partes.

A primeira narrativa, “O solar do sertão” apresenta um Brasil recém-descoberto e é uma espécie de mergulho nas origens e na formação do país, regredindo a nossos antepassados africanos, alguns deles ainda habitando seus países de origem. A princípio, tudo leva a crer que se trata de narrativa de extração histórica, de formação da cultura brasileira, descortinando toda a diversidade que está por vir, inclusive o caráter anfíbio sempre presente nas nossas manifestações étnicas, culturais e religiosas.

A partir do segundo capítulo, no entanto, percebe-se a introdução do tempo presente (ou mesmo de um passado bastante recente), personificando-se a vida do suposto autor do trecho anterior. Risério, aqui, aponta para um dos trunfos do livro: a meta-literatura. Portanto, até o final do livro, haverá esta alternância entre uma espécie de novela de formação do Brasil e a narrativa da vida do personagem-autor e daqueles que estão à sua volta. O livro tentará abarcar o passado do Brasil, com seus principais episódios, conforme entendimento do autor, e também o passado recente, focalizando, preferencialmente, a geração nascida nos anos 1940/1950, com as respectivas ideias, percursos e ideologias.

Dentro da contemporaneidade, o capítulo 1, Mania das Marés, aborda o personagem Daniel Kertzman, autor fictício da ficção histórica que acompanha a narrativa. O trecho atua como contraponto e acompanha a família do personagem. Há a descrição da ocupação judaica no Brasil, especificando-se, sobretudo, a que ocorreu no norte e no nordeste do país. Risério faz um apanhado dos judeus em solo brasileiros, sejam eles oriundos do norte da Europa ou do Mediterrâneo. A genealogia da família do personagem e de seus amigos procura dar conta do caráter camaleônico deste grupo cultural-étnico-religioso, que durante sua história soube adaptar-se aos locais mais diversos e sempre esteve pronto a superar as mais variadas dificuldades. O livro, entretanto, é muito mais do que isso, mostra que o caso brasileiro é específico. O judeu que aqui chegou não conseguiu permanecer em guetos por muito tempo. Não demorou a se misturar à população local e a absorver culturas estrangeiras a ele, inclusive o candomblé. Por falar nos cultos afros-descendentes, o autor nos presenteia com um belo ensaio sobre nossas origens religiosas africanas.

Enquanto nos temas históricos somos surpreendidos por uma vertente violenta, muitas vezes nos sonegada pelos livros de história que corroboram a ideologia, na vertente romanesca em que autor tenta acompanhar a geração do personagem-autor Daniel Kertzman o que vemos é uma degradação da elite econômica e social brasileira da segunda metade do século XX. Há pessoas de todo calibre, desde aquelas que se entregaram à contracultura e à loucura dos anos 1960, como às que participaram da esquerda revolucionária (o livro marca ponto ao descrever a luta armada e a luta política contra a ditadura). Também aparecem como personagens aqueles que se aproveitaram, de maneira indigna, de todas as benesses que o poder lhes pôde oferecer. Nesta parte de romance geracional, o que se pode observar é que Antonio Risério não poupa uma geração de irresponsáveis, que não soube governar o país (ou não soube eleger ou cobrar dos eleitos) e acabou contribuindo para o caos instituído no momento em que vivemos.

Por vezes reclama-se da atual condição econômica e social do país, esta narrativa, em algumas passagens, propõe-se a esclarecer o motivo de toda a bancarrota, transitando do jornalismo à publicidade, mostrando como estas duas atividades podem atuar em benefício pessoal ou em benefício de pequenos grupos, enquanto a maioria da população trabalha e acredita em boas intenções.

Por falar em publicidade, o livro revela como funciona o marketing político, mergulhando nas atividades obscuras das agências. Ele mostra pormenorizadamente como se consegue tirar um candidato da mediocridade para alçá-lo na vida pública, proporcionando-lhe ares de estadista. Inclui-se aqui a grande movimentação de dinheiro que acompanha a publicidade e as campanhas eleitorais. O resultado de tudo isso são os escândalos que engrossam as páginas dos jornais.

Um dos pontos desnecessários, a meu ver, em ambas as narrativas (tanto na histórica quanto na contemporânea) é a abordagem exagerada em relação ao pornográfico-sexual. Tal fato acontece, sobretudo, quando o autor assume o risco de descrever a vida conjugal e extraconjugal de alguns personagens. Talvez sua intenção tenha sido de criar personagens femininas libertas da tradição patriarcal brasileira, incluindo aqui até as ideólogas do feminismo, que passaram a frequentar nossa cultura a partir dos anos 1960. A narrativa pornográfica assume muitas vezes um caráter repetitivo e enfadonho, colocando em risco a seriedade antropológica do romance. Sutileza narrativa não é sinônimo de fraqueza. Talvez a opção de Risério seja pelo barroco, tão presente na cultura baiana. Caso seja esta a intenção, devemos perdoá-lo, mas sempre é bom lembrar que a literatura não é feita de boas intenções.

Ao autor não falta talento, sua narrativa se desenvolve plena, com características de linguagem até mesmo vanguardista, como atesta a elaborada criação linguística na parte final do livro. Outro aspecto problemático é a característica totalizante da narrativa. O romance transita praticamente por todas as regiões do Brasil, tanto no percurso do personagem principal, quanto na abordagem dos acontecimentos determinantes da história do nosso país, não faltando episódios decisivos e pouco comentados pelos historiadores, como o da libertação da Bahia por ocasião da independência do Brasil.

 

Os grandes momentos deste romance estão em dois aspectos. Um deles é, como já foi mencionado, a formação da cultura brasileira, uma cultura que prima pela diversidade e por seu caráter camaleônico. Outro momento é o desnudamento do universo do jornalismo e do marketing, que criaram para o país uma narrativa fictícia e falaciosa durante boa parte do século XX e XXI. Nenhuma narrativa fictícia é maléfica, como atesta a própria literatura. Mas uma narrativa torna-se extremamente destrutiva quando tomada como verdade. E muitos profissionais da publicidade e do jornalismo tomaram tal tarefa a sério, tentando tornar o falso verdadeiro. Neste ponto, a narrativa de geração desnuda todo o fracasso até hoje não admitido pelos profissionais deste ramo. Por isso, o fracasso e a irresponsabilidade de uma geração que não soube lutar por uma política de estado, muito pelo contrário, deixou-se vender e, consequentemente, deixou-se morrer. A opção de Daniel Kertzman, na maturidade, pela literatura é a mostra de que talvez haja algo em que se possa apostar sem nenhum temor.

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O autor

Antonio Risério nasceu na cidade de Salvador em 1953. Poeta, tradutor e ensaísta, é mestre em sociologia com especialização em antropologia. Além de vasta produção teórico-ensaísta, escreve argumentos e roteiros para cinema e televisão, tem poemas publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior, publicou o livro de poesia Fetiche e fez sua estreia na prosa literária de ficção com a novela A banda do companheiro mágico. Que você é esse? é seu livro de estreia na Editora Record.

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Trecho do livro

Sob o céu sombrio, o camaleão se oculta pelo meio da ramagem, deixando provisoriamente de parte o verde brilhante que cobria seu corpo, para assumir uma coloração mais escura ou fosca, algo embaciada, tirante ao cinzento. Quando nos encontramos no quintal, perto da piscina, ele incha, cresce para o combate. Olho nos seus olhos e o que vejo é uma miniatura de dragão medieval. Não devo deixar que os cães o destruam, despedaçando-o pelo arvoredo adentro.

 

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   ilustração de Rodrigo Caldas   

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

 

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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18/06/2017