)Sarau(

jarid / poesia contemporânea brasileira; Jarid Arraes;

Jarid Arraes

 

 

 

 

 

Cria

aceitei que sou louca

que meus joelhos rangem e meus cotovelos furam

meus olhos latejam

as pálpebras tremem

aceitei minha loucura como uma gravidez de cadela

de poucos meses

e muitas tetas
 

o problema de ser louca

e ter a cabeça cheia de ideologias

convicções e fantasias [políticas]

é que não te oferecem um quarto sem trancas

um refeitório branco com bandejas vazias

a prole da minha insanidade desceu pelas minhas pernas

estendendo os braços

e já tinha alguns anos – que não pude contar

eu somente a fitei com os olhos borrados

os cílios duros de rímel

as unhas que cortei no dente

“mãe, me tome em seus braços”

minha loucura clamava

em prantos que não se repartiam dos meus

e nós choramos, loucas de primeira viagem

a minha loucura

e eu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Intensa

não te quero como cerveja
social
entre conversinhas
com uma casualidade
e uma leveza
características

te quero como vodka
pura
e quente
de efeito forte
e de repente
te quero em muitas doses
e uma ressaca
que seja,
por favor,
recorrente.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sem filtro

O cigarro
pendente
entre os lábios
e a fumaça
escapando,
como bruxaria
num ritual
pra me atrair.
Quis dizer:
solta em mim,
me marca
com esse cheiro
que agora é teu,
que quero nosso.
Entre saliva
e nicotina
uma vontade
tão grande
de molhar teu lençol
escorrer no colchão
deixar lembrança.
Me pega,
assim,
com essa mão.
Eu troco de dedos,
de posição.
Mistura
teu gemido
com o meu
que eu quero
me espalhar
nos teus pêlos.
Feito aviso,
colada,
um vício
escolhido
uma entrega
tragada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Porre

Queria ter dito:
Sonhei com você.
A cintura cabia entre meus braços
e eu te abraçava com tanto amor
sentindo você toda minha.

Sonhei com seu cabelo de chocolate,
as olheiras e o nariz finíssimo
e o som do meu nome adocicado
saindo da sua boca como sorriso.

Sonhei com você e fui feliz.
Pura aceitação, tudo tão normal
Ninguém nos dramatizava
por sermos duas, ali.

E aí acordei assustada, sofrendo
porque parecia tão real o momento.
Parecia que a gente tinha conseguido.

Mas ao invés disso,
mandei só uma mensagem bem pontuada.
Um choro contido que apenas dizia:
Sonhei com você e acordei de ressaca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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     ilustrações de rodrigo caldas    

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JARID ARRAES é escritora, cordelista, autora de As Lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras, além de mais de 60 títulos em literatura de cordel. Como boa caçadora de sarna para se coçar, escreve poesia, sobretudo as eróticas. Criou o Clube da Escrita Para Mulheres porque acredita em novas lógicas e caminhos diferentes. Coleciona tatuagens, musicais e livros escritos por mulheres negras. Contato: jaridars@gmail.com. Facebook: Jarid Arraes.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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11/06/2017