)Sarau(

Crônica /

Ricardo Dalla Vecchia

 

 

 

 

 

 

A mala era maior do que ele. Quadrada. Pesada. Intrusa. Instalou-se no centro da sala. Entre o sofá e o criado, mudo. Ficava me olhando. Insinuando. Impedia a passagem. Atraia a sujeira. As roupas não cabiam. Um par de meias, camisa de botão. Um chinelo que a vida se encarregou de pisar. A alça era rubra, obscena. Da cor dos cabelos que um dia cultivei. Uma das rodas estava quebrada. Protuberava. Um nome na etiqueta o acusava. Dois, na verdade. Chorou bastante. O suficiente. Teve dor de dente. De cabeça. Disenteria. Tudo nele era espúrio. Dramático. Falso. Não era afeito à verdade. Não sabia o que isso significava. Tentou dormir uma noite. Era ignorante de sonho. Permaneceu de olhos abertos. Lacrimejava. Bocejava. Ressentia. Soluçava. Suspirava. Gemia. Fedia. Sobretudo, encarava. Tinha muitas caras. Todas elas. Alternavam-se. Muito. Isso irritava. Muito. Há tempos eu não sentia pena. Nem raiva. Aprendi a dessentir. A desfazer. A expulsar. Agora a sala estava novamente vazia. Limpa. Eu mesma agachei no chão. Esfreguei. Nada mais havia ali. Não gosto de dejetos. Talvez os da memória.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ilustração de Helton Souto

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RICARDO BAZILIO DALLA VECCHIA divide a casa com três gatos: Salomé, Frida e Pequi. Salomé foi adotada em Ribeirão Preto, no momento em que Ricardo ali vivia com Andréa. Frida caiu do telhado da sogra; é uma siamesa linda, porém “fridida”. Pequi, o caçula, foi adotado em Goiânia após soltar um grito numa esquina de dar inveja a Munch e Zezé Di Camargo. Acontece que em 2015 Ricardo mudou-se para a terra de Cora Coralina para ser professor na Faculdade de Filosofia da UFG. Canhoto, Ricardo executa um amplo e defasado repertório ao violão e não vê a hora de poder tocar com o seu ou a sua baterista, assim que el@ sair da barriga de Andréa. Desde que vive distante da família, de Batatais-SP, Ricardo passou a cultivar plantas. ricardovecchia@gmail.com

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 08 Gosto de Ser Como Sou

23/04/2017