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Três autores e um destino / "Tentativas de capturar o ar"; Flávio Izhaki; literatura brasileira contemporânea;

Haron Gamal

Tentativas de capturar o ar, de Flávio Izhaki, é um romance que começa em tom de farsa. Há uma “nota do editor” informando que “o livro a seguir é incompleto”. Na verdade um pesquisador, cujo nome é Alexandre Pereira, juntava material para escrever a biografia de Antônio Rascal, maior escritor brasileiro dos últimos 30 anos, segundo o livro. Mas Pereira, o pretenso biógrafo, falece num acidente automobilístico. Mesmo assim, o editor decide publicar o material. Completando a nota, há a estrutura do livro: “diários do biógrafo, dois textos supostamente inéditos de Antônio Rascal e trechos da relação entre o escritor e seu filho, enviados ao biógrafo por este último. Constam também entrevistas conduzidas pelo biógrafo com pessoas próximas ao escritor.” Este é o material ficcional de que Izhaki vai se servir para construir o seu romance. Pode-se perceber desde a primeira página que, do ponto de vista do personagem-biógrafo, teremos um não livro sobre um não escritor.

Nas duas páginas seguintes há o prefácio, escrito pela mulher de Rascal. Ela introduz a discussão sobre a morte, que vai permear todo o romance. Uma vez que autor e biógrafo já morreram, o argumento é lícito. A mulher afirma: “Grandes filósofos já pensaram sobrei isso (a morte). Mas preferi os romancistas, como meu marido, para levar a questão além.” Mais à frente, ela mesma chega à conclusão da impossibilidade de qualquer biografia, “o desafio de escrever uma biografia é destinado ao fracasso”. O que sobra são perguntas que devem ser colocadas pelo biógrafo, questões que ela mesma diz não ousar propor. Se há respostas é porque o leitor “não entendeu nada”.

Mas a pergunta principal, que leva o biógrafo a se interessar pelo autor, é responder por que Antônio Rascal nunca mais publicou, questão que permeará todo o romance, uma vez que o autor só lançou três livros e nada mais publicou nos últimos 26 anos. A partir desta questão, Tentativas de capturar o ar, além da morte do autor e a do biógrafo, ainda nos impõe outra morte: a da literatura.

O que virá pela frente é um romance difuso, atuando em várias frentes, difícil não apenas para o leitor, mas para o próprio autor, aqui o verdadeiro. Trata-se de se tentar escrever um livro sobre o nada. Izhaki tenta dar substância ao seu livro criando personagens adjacentes, como o filho de Rascal. O rapaz emigra para a Inglaterra porque não suporta viver à sombra do pai. Ao ouvirem seu nome, vem a pergunta: você é parente do famoso escritor Antônio Rascal? Talvez a parte mais interessante seja esta, a narrativa de próprio punho que ele entrega ao biógrafo, quando relata sua relação com o pai.

Nas suas investidas, Pereira vai atrás de um episódio onde pode estar a resposta para a sua principal pergunta. Como deseja saber por que o autor abandonou a literatura, o biógrafo bisbilhota um episódio da vida do autor, onde poderia estar a resposta. A suspeita surge por intermédio de um texto inédito de Rascal que lhe chega às mãos dentro de um envelope, enviado pela viúva do autor. Aqui entra em discussão a distinção entre vida e obra, assunto pertinente quando levamos em consideração o leitor, personagem invisível mas importante em toda a história da literatura. O leitor, muitas vezes, deseja saber mais sobre a vida do que sobre a obra de um grande autor. Além de discutir morte do autor, morte do pai, morte da literatura, também encontramos no texto este ponto: o que seria vida, o quer seria a obra? O biógrafo viaja, procura autoridades, consulta arquivos de mais de duas décadas, tudo para tentar comprovar a veracidade do que o autor escreveu.

No livro de Izhaki ainda se pode observar a presença ostensiva do universo editorial. Isso acontece pela primeira vez no prefácio, depois quando o ávido editor decide editar a biografia incompleta de Rascal. Pereira, ao descrever o funcionamento dos meandros de uma editora, afirma: “terei que falar que a minha tia é tradutora na editora que publica a obra de Antônio Rascal, e que conheci o publisher numa festa de aniversário e, bêbado, comentei que era o maior fã de Rascal (leve exagero), no que o editor (também bêbado, mas não tanto quanto eu) sugeriu que eu escrevesse a biografia.” O editor sempre estará em busca de um número cada vez maior de leitores, como se pode observar por meio dos vários tipos de texto que compõem o livro, podendo mesmo este leitor ser um jovem enamorado, presente num outro inédito do famoso escritor, cujo título é “Mas, não”, publicado já na parte final do livro, conto voltado a estudantes, com clima de festa de escola, namoros e desejos adolescentes.

Devido à colagem de vários tipos de texto, o romance de Izhaki não pode ser visto como um livro contínuo, com características próprias. Mas, talvez, esta seja uma de suas intenções, discutir a própria literatura num universo vazio, pois além do fosso reduzido entre vida e obra, o principal escritor na verdade não existe, o biógrafo está morto e, quem sabe, a literatura. A descontinuidade e os diversos estilos que levam o livro a parecer obra inacabada são meras coincidências.

Por mais difuso que seja o romance, como também atesta a “nota do editor”, ele possui uma trama, e é isso que prende o leitor até o final. Ela se prende à procura do autor em descobrir por que Antônio Rascal abandonou a literatura ou, pelo menos, por que nunca mais publicou. É esse fio que vai conduzindo o livro, apesar de todos os desvios que aparecem pelo caminho.

O não livro sobre um não autor poderia servir de pretexto para se criticar a atual literatura, seja ela de qualquer cultura, mas seria uma crítica injusta. O que se pode dizer é que Flávio Izhaki encontrou motivo para uma história que, até certo ponto, lhe pode envolver numa boa polêmica. Qual o papel dos professores de literatura, sobretudo daqueles pesquisadores que escreveram dissertações de mestrado e teses de doutorado, qualificações atribuídas a si próprio pelo biógrafo? Ainda para atestar tal caminho, o livro possui um posfácio com um estudo sobre a biografia escrita por Alexandre Pereira, texto que, à moda acadêmica, tenta validar as intenções e pesquisas do discutível biógrafo.

Já que vivemos numa época em que quase tudo parece regido pelo “mercado”, é louvável o aparecimento de um livro como este. Por não se tratar de um romance para o grande público (para muitos, a leitura pode não ser muito agradável), o autor apresenta-se corajoso ao tentar descortinar o universo da publicação de biografias, gênero muito consumido, mas sempre superficial, procurando geralmente se adequar ao (mal) gosto do leitor. No livro em questão o que se pode descobrir é o lado avesso de toda essa história.

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Trecho do livro

A grande pergunta que tenho que responder com essa biografia é por que Antônio Rascal nunca mais publicou. Cada leitor estará interessando nisso ao comprar o livro e os jornalistas me farão essa pergunta quando me entrevistarem para a divulgação do lançamento. Da minha resposta, ou melhor, da minha capacidade de responder categoricamente a isso, dependerá o sucesso da literatura.

Tentativas de capturar o ar
Flávio Izhaki
Editora Rocco, 221 páginas

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O autor

Flávio Izhaki nasceu no Rio de Janeiro, em 1979, e publicou os romances De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008) e Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013), eleito pelos jornais O Globo e O Estado de São Paulo como um dos melhores romances brasileiros de 2013, e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Como contista, já participou de oito antologias.

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   ilustração de RODRIGO CALDAS   

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar Cheek to Cheek com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

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