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Três filmes para hoje / La La Land; Na Terra do Amor e Ódio; Meu nome é Khan

Beto Canales

La La Land é musical que vale a pena ser visto

A primeira cena de La La Land tem cerca de dez minutos e é uma espécie de aviso: “você está aqui para ver um musical!”. Corta para um sujeito comendo bife de fígado, com os olhos semiabertos, cara de feliz e fazendo “hummmm”… Essa cena só é possível  com uma condição básica: gostar de bife de fígado. Corta para um viaduto com dezenas de carros parados em um engarrafamento e todas os motoristas e caroneiros cantando e dançando, subindo nos capôs, sorrindo, enfim, uma verdadeira festa. Isso tudo por aqueles dez minutos lá de cima. Pois é. Só quem gosta de bife de fígado faz “hummm” ao comer. E o mesmo serve para musicais. Se você não gostar, certamente sairá correndo da cena do viaduto, mas, se você gostar, verá que ela é uma tomada muito bem feita e complexa e que a música e a dança são bem bacanas. Portanto, se você gosta de musicais ou ao menos suporta, continue.

La La Land vai um pouco além do clássico. Não tem aquelas conversas “cantadas” de alguns musicais tradicionais. Também não exagera em nada, nem nas músicas e muito menos nas coreografias. Ele parece dosado com muita cautela e precisão. Natural, pois a direção é do meticuloso Damien Chazelle, de Whiplash: em busca da perfeição.
A dupla romântica formada pelo excelente Ryan Gosling – de A grande aposta – e Emma Stone – de Birdman – está em plena sintonia. Os dois estão muito bem e, creiam, em papéis nada fáceis de interpretar.

Sem ‘mais do mesmo’

Além de uma linda e bem contada história, o filme tem mais uma peculiaridade: o jazz. O enredo se desenvolve a partir e para ele, esse gênero belíssimo, muito bem explorado do começo ao fim. Parece algo impossível, mas já vi musicais com trilha ruim, o que não acontece de maneira alguma em La La Land.
Sem dúvida alguma estamos falando de uma obra imperdível, principalmente para quem gosta de musicais. Arrisco até a dizer que mesmo quem não for fã do gênero acabará gostando do filme. Talvez somente a cena final já valha o ingresso. Ela é memorável. Então, vá ao cinema. Veja. Você não se arrependerá.
E, caso não conheça, experimente bife de fígado. Também é bom!

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Na Terra do Amor e Ódio é filme para quem tem estômago forte, e é imperdível!

Não veja!

Se você não tem estômago forte, repito, não veja!

Na Terra do Amor e Ódio, dirigido, produzido e roteirizado por Angelina Jolie é, certamente, o filme mais forte que vi na vida. Talvez por tratar de uma tragédia recente que acompanhei pela TV, talvez pela proximidade que a globalização traz entre todos os povos ou talvez pelo simples descaso que a comunidade internacional teve pelo genocídio em plena Europa. O filme marca fundo.

A guerra da Bósnia ocorreu nos anos 90 e teve tudo o que de mais horrível uma guerra pode produzir. Foi uma carnificina somente superada pela segunda grande guerra. Bósnios matavam bósnios a título de limpeza étnica. Foi uma guerra mais suja que o normal. O estupro, por exemplo, era usado como “técnica” de guerra contra o inimigo. O assassinato em massa era comum e o famigerado cerco a Sarajevo foi o mais cruel desde o cerco a Leningrado.

O que há de pior

Pois o longa consegue em pouco mais de duas horas mostrar esses horrores todos através da relação de um militar sérvio e uma artista também sérvia, mas muçulmana. Em Na terra do amor e ódio convivem traição, desprezo, humilhação, soberba, crueldade e tantas outras coisas. Algumas inomináveis.

Zana Marjanovic

Esse é um filme daqueles que a vontade é escrever muito. Perder-se em meio a devaneios e teorias. Contraditoriamente, dá vontade também de calar. E respirar fundo para suportar tudo que somos capazes de fazer. Todos os horrores que a humanidade é capaz de produzir. Tudo que somos capazes de aceitar em troca de um fictício equilíbrio entre nações. Quando lembro que hoje existem conflitos no Sudão, na Líbia, na Síria, no Congo e em tantos outros lugares, escolho calar. E respirar fundo porque nossas mãos estão amarradas e não há muito o que fazer. Pelo menos nós, pessoas comuns. Para algumas poucas que poderiam fazer algo, muitas vezes o que há no subsolo dessas regiões  “justificam” a falta de atitude. Enfim, o longa é estrelado pela excelente bósnia Zana Marjonovic, de Snow, e o enigmático e também bósnio Goran Kostić, de Os últimos dias em Marte e Busca Implacável.

O filme está disponível na Netflix. Mas, lembre-se: só veja se estiver preparado psicologicamente para presenciar o que de pior conseguimos produzir.

Simplesmente falando de cinema: é um bom filme!

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Obra-prima de rara beleza, Meu nome é Khan é filme para chorar

Religião, doença mental grave e incurável, imigração, preconceito, terrorismo, romance, bullying, política e o pior de todos os acontecimentos: a morte de um filho. Um filme com todos esses elementos consegue fazer alguém rir?

E mais: claramente ocuparia um destaque enorme na “prateleira” de Filmes para chorar. Com toda essa bagagem e predestinação, você acha possível rir? Gargalhar? Enfim, se divertir?

Pois prepare-se: Meu nome é Khan, um filme Bollywoodiano, com o excelente Shah Rukh Khan, um popular produtor indiano, e a linda Kalon Devgan, consegue esse feito com facilidade. Boa parte do filme desperta risadas e até gargalhadas.

E o interessante nisso é que muitos risos são originados pelas trágicas consequências da terrível Síndrome de Arperger, uma espécie de altismo que atinge o protagonista. Uma doença curiosa e trágica.

A história é longa e rica em detalhes. Começa em Bombain, Índia, onde Rizvan Khan sofre preconceito por ser “diferente”, e termina em Washington, frente à casa branca, com o presidente dos Estados Unidos cumprimentando o protagonista.

Riqueza

Entre um fato e outro, desenrola-se uma bela história de amor. Outra de perseverança, ainda outra de obstinação, além de muito preconceito, aventura, assassinato, amizade. Tudo isso tendo como plano de fundo os atentados de 11 de setembro. A riqueza do filme para chorar que faz rir é enorme. Ele é conduzido de uma maneira que emociona o espectador, muitas vezes por detalhes bobos até. Mas o personagem sindrômico, o muçulmano Khan, cria uma espécie de aura que o torna simpático e passa-se a torcer por ele.

Kajol Devgan

Karol Devgan, que encarna a cabeleireira hindu Mandiba, também desperta rapidamente a simpatia do espectador. Provavelmente porque sua personagem é boa, uma espécie quase em extinção, dessas pessoas puras e ingênuas, além de sua beleza pouco convencional, que certamente ajuda para criar esse elo.

Pois essa relação entre a sudável e o sindrômico, entre o muçulmano e a hindu, nos Estados Unidos sob ataque terrorista, é o mote para esse excelente filme. São quase três horas que valem a pena. É um tempo que, além da diversão, traz alguns questionamentos sobre religiões, raças e tudo o que estamos, ou não estamos, fazendo para viver em paz.

Enfim, está na Netflix. Não perca!

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     ilustrações de helton souto    

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BETO CANALES é colaborador de Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema no #partiucinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

 

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05/03/2017