)Contos(

59 minutos /

ANA CRISTINA BRAGA MARTES

Acordou antes do despertador, como se tivesse cravado no cérebro: cinco e meia. Não precisou conferir as horas, nem recordar a sequência: espiaria pelos vãos da veneziana, antes de abrir a janela com a mão direita, usando a palma da mão esquerda para abafar ruídos. Gostava de sentir a madeira raspando no trilho quando erguia a vidraça, deslizando no mesmo modo há anos. Depois apoiaria os cotovelos em cima do batente branco esfolado. No quarto escuro e ainda frio, o silêncio cortado por um suspiro gordo, porque aquele momento era hora de esperar.

Estela pressente uma pequena nuvem se aquecendo e, exatamente naquele ponto, enxerga uma brasa acesa, imaginando um sopro e outro mais forte, como faz seu pai ao acender fogueiras na areia. Abre os olhos para enxergar mais alto e apartar as nuvens recém-iluminadas das sobras cinzas da noite. Estela vê fios de prata vergando a faixa amarela: o sol nasce.

No chão do quarto, sombras já podem ser observadas, mas não a ponto de revelar a poeira, as manchas no assoalho, nem o beliche velho que nunca foi usado. No canto, a penteadeira com espelhos que havia sido da avó e que as vezes usava para desenhar.

Dez férias de julho, dos doze anos de Estela, foram ali. O primeiro dia corria mais rápido e ela queria acordar antes, precisava ter certeza: havia chegado. Mais feliz impossível, a menos que seu pai já estivesse lá.

O pequeno sobrado na subida do morro, estreito e mal conservado, era o refúgio que permitia ver longe. Os olhos em linha reta, como o ponteiro maior chegando aos quinze minutos. Telhados em relevo, como aquele mais inclinado, e que poderia ser o da casa de Mateus, a casa de Francisco um pouco adiante, mas talvez não fosse. Respira o ar grosso da manhã. Com o indicador, acompanha a descida de uma gota na superfície gelada da vidraça. Enquanto desliza o dedo no vidro, percebe uma aranha encolhida no canto. Tão pequenininha! No cômodo já quase claro, consegue ver que, daquele ser diminuto saiam pernas finas como fios de cabelo de um bebê e desproporcionalmente longas, aptas para escapar. Estela inveja a liberdade da aranha que saberia correr para onde quisesse, mesmo sendo tão pequena. É fácil imaginar os lugares onde a aranha pudesse se esconder sem que ninguém a encontrasse, com tantas fendas e buracos pela casa.

- Já passou das cinco e meia, Maria Estela! Seu pai já vem te buscar!

Estela gostava da voz de sua mãe, exceto quando a chamava pelo nome inteiro.

- Já acordei, manhê!

Estela até pensou em falar do jeito certo porque, horas assim lhe vinha a vontade de ser “boazinha e alegrinha”. Mamãe, ela devia ter dito. Mas o espelho da penteadeira estava logo ali para mostrar que a camisola decotada e transparente, subtraída da gaveta da mãe sem permissão, não combinava com o que acabou de passar por sua cabeça.

- Não vai levantar? Vai ficar aí sonhando? Sonhos sempre acabam, garota.

Não é verdade, porque acordar naquele quarto, passar o dia na praia, era um sonho intermitente. E seu pai a buscaria, faltava apenas meia hora, dessa vez conferida no relógio. Como de hábito, andariam até a praia do centro para esperar a chegada dos pescadores com os barcos repletos de peixe. Peixes frescos, ainda vivos.

Repete a si mesma a letra da música: Estrelas de ouro / os peixes, de prata / eu tão só, solta no ar / você entre tantos, nem vai me notar/ Eu tão pequena, você, tão maior / me leva contido pro fundo do mar. Antes que os pescadores arrastassem seus barcos na areia, os dois ficariam sozinhos e Estela diria ao pai: não quero voltar para São Paulo com minha mãe, vou morar aqui com você, pra sempre, pai. Talvez ela dissesse pa-pai. O melhor seria decidir tudo já nessa manhã. Deitada, usou os minutos que ainda tinha, para descobrir como seduzir o pai.

- Não vai abrir? Tá bom, te encontro lá embaixo. Está me ouvindo, Maria Estela?

A mãe se lembra de descer com calma, já havia rolado por aquela escada. Relembra a queda e se pergunta por que ainda se chocava com aquela cena, por mais que quisesse esquecer. Foi sua decisão: esquecer, superar cenas e atos que escapam da compreensão. Preciso me preparar, ele vai chegar, já está chegando.

Escolhe na gaveta uma toalha velha, mas com cheiro bom, sem mofo nem manchas. Começaria o dia fazendo boas escolhas. Aqui, agora, repete: aqui, agora. Alisa o tecido com a mão, ah! como é bom sentir uma coisa antiga e sólida! Coloca as duas mãos em cima da mesa como se fossem seus pés pisando no chão. Abre a porta do armário da cozinha, a xícara não pode cair, segura firme. Ele vai chegar, já está chegando.

Pensei muito na sua mensagem – ela diria enquanto terminava de pôr a mesa do café -  acho que você tá certo, vamos tentar de novo. Vai ser melhor pra mim e pra Estela, a vida aqui é mais simples, ela vai ter você todos os dias, ela sente tanto a sua falta... No meio da frase, se perde, não deveria ter metido a filha na conversa, colocado Estela de novo no meio deles dois. Devia falar o que sentia e sobretudo, o que queria. Sabia que teria que perdoar, mas perdão é uma palavra que promete o inalcançável, você sobre uma escada que não chega a lugar algum. E a cena da escada volta, o barulho seco do corpo rolando os degraus e a lembrança dos berros que vieram depois. A mão erguida e a voz que ameaçava “você não tem a menor condição de cuidar dessa criança”, ele dizia; e então o tapa na cara revidado. E Estela? Estela fingindo que dormia...

Da janela do andar de cima, Estela vê o pai abrindo o portão sem fazer barulho. Encosta a bicicleta no arbusto ao lado do muro. Ela sai do quarto com pressa, mas desacelera no primeiro degrau, como se suspeitasse. A desconfiança aumenta a cada passo, e então ela se senta no meio da escada. Sem poder ver nem ser vista, apenas ouve “Omar!”. Talvez devesse espiar, precisava descobrir. “Que bom esse abraço”, ele diz, “quero um beijo”, diz Luana. Depois não consegue mais ouvir. Eles falavam?

Volta para seu quarto, caminha até a janela. Os braços finos e longos de Estela, os cotovelos despencados com má vontade sobre a madeira esfolada. Às suas costas, o barulho que vinha subindo lá de baixo, e que ela tenta acompanhar:  pés sobem as escadas, a porta se fecha, a chave dá duas voltas.

À sua frente um jardim descuidado, a casa do Francisco e a do Mateus, o sol a postos, uma pequena nuvem no céu. Nenhuma aranha.

+++

             ILUSTRAÇÃO    DE     HELTON   SOUTO              

+++

ANA CRISTINA BRAGA MARTES é cientista social, professora da Fundação Getúlio Vargas, SP, escritora, amante da literatura e de Clarice Lispector. E também pinta e desenha desde sempre. Facebook: Ana Cristina Braga Martes.

+++

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 05 Moptop - Bem Melhor

27/02/2017