)Cinema(

50 anos depois daquele beijo / "Blow-up - depois daquele beijo"; Michelangelo Antonioni; cultura pop; The Yardbirds; swinging London

Renato Alessandro dos Santos

Thomas (David Hemmings) é um fotógrafo de moda e na moda. É arrogante, tem tudo que quer e, em Blow-up – depois daquele beijo (1966), de Michelangelo Antonioni, vai aprender uma lição. Profunda. É uma alegria para os olhos o que se vê neste filme. O espectador, após poucos minutos de exibição, tem certeza de que está diante de um dos grandes filmes do cinema. Um dos melhores, mesmo que tenha ficado fora da seleção dos 100 melhores filmes, da revista Bravo (R.I.P.sad), e dos 501 filmes que merecem ser vistos. Mas a boa notícia é que dos 1001 filmes para ver antes de morrer ele faz parte, como um dos eleitos; deveria estar nas outras listas também, mas não está não. Nenhum problema, pois é um clássico. Assista Blow-up – depois daquele beijo e, em seguida, durante essas pausas fantásticas entre uma obrigação e outra, presentei-se e leia o conto em que o filme foi inspirado, As babas do diabo, de Julio Cortázar. Ou faça o contrário. Ou não faça nada. Mas lembre-se de que você poderia, primeiro, ler o conto e, depois, ver o filme. O que acha?

É Londres, e os anos 1960 são um caleidoscópio iridescente. Swinging London. Como a vida de nosso fotógrafo arrogante. No início do filme, ele deixa uma fábrica, no horário de saída dos operários. Happy hour. Nosso fotógrafo trabalhando em uma fábrica? Nada disso. Mas anonimamente trabalhando numa fábrica, fotografando — como se não estivesse ali — o dia a dia daqueles que apenas em fotografias em preto e branco podem ludibriar a realidade, fazendo-a parecer arte. É um ponto a favor de Thomas. Ele nem chega a estacionar totalmente seu carro conversível diante do loft que serve de estúdio e casa, e duas garotas correm na direção dele. Esfuziantes. Gritinhos, mas Ele, o Sr. Gelo, as ignora; não apenas. Ele as maltrata também. Como se, sempre à disposição, pudesse servir-se – que verbo misógino é esse, Renato? – delas apenas para distração. Vai comandar uma sessão de fotos com algumas modelos e, para não perder o costume, judia delas. De novo. Você é um gorila, rapaz! Encontra uma hélice em um antiquário e seu dia parece finalmente ter valido a pena. De volta ao mesmo antiquário, obrigado a esperar (que ultraje!), sai com sua câmera fotográfica modelo G.O.D. XXX por aí, saltitante, e chega a um parque. Há um casal ali, que chama a sua atenção. Lá vai ele bisbilhotar, que nem James Stewart, e como no filme de Hitchcock também irá se deparar com um crime.

Ele fotografa o casal. A moça está com um homem mais velho. Seu pai? Claro que não, leitor pervertido. Seu amante. A moça vê o fotógrafo, que faz cara de paisagem. Eu? Assobio. Olhos para a ponta do pé direito, e como José de Anchieta nosso fotógrafo traça riscos imaginários no chão. A câmera de Antonioni os deixa por ali e mira o topo das árvores. E algo está a.c.o.n.t.e.c.e.n.d.o. ali. Algo que os olhos não veem – o vento como metáfora? –, mas que está ali. Ouvimos o barulho da ventania beliscando os galhos, que estremecem de satisfação. Há algo ali. Voltamos ao chão. A moça quer o filme da máquina. O fotógrafo nega. Claro. Mas ela agora tem seu endereço.

No estúdio, entediado como todo dândi que se preze, resolve revelar o filme e... descobre… algo. Mas nem eu nem você sabemos do que se trata. Ainda. Talvez nem mesmo o fotógrafo. Então, ele começa a ampliar, ampLIAR, AMPLIAR uma das fotografias que não deixa suas sobrancelhas relaxadas. Amplia. Amplia. É a técnica do blow-up, mundialmente conhecida por qualquer amador em cinema, como este rapaz que obriga você a vir até aqui, leitora ou leitor. Amplia. Amplia e…, G-zus, o que é isto aqui, atrás desta moita?! Um pássaro? Um muro? Sim, um cadáver. Nosso herói não acredita: presenciou um homicídio e, sem querer, ainda o registrou. Esqueci de mencionar que ele está prestes a concluir um livro de fotografia. Seus olhos se iluminam: a sequência de fotos no parque encerrará o livro. É a cereja que faltava. Liga para seu editor: “O livro está pronto, homem!”, diz. Chamar a polícia? A arte. Em primeiro lugar. Mas vai até o parque. É alta noite. Descobre o cadáver. Chamar a polícia? A arte em primeiro lugar. Volta ao estúdio e… surpresa: cadê as fotos? Os negativos? Chamar a polícia?
 
Sai por Londres enlouquecida. Chega a um bar onde uma banda se apresenta. Ninguém menos que The Yardbirds com dois guitarristas de cada lado do palco, ninguém menos do que Jimmy Page e Jeff Beck, que está com problemas com sua guitarra. O amplificador começa a pagar o preço e, em seguida, o chão, que tem a guitarra despedaçada sobre si; ao menos até que o guitarrista enfurecido pegue o que sobrou do braço de sua Lucille e a jogue para os fãs, que se espremem, se matam, dedos nos olhos, dedo na boca, safanões, citronela, e, então, quem sai correndo com o pedaço ensanguentado de Lucille em uma das mãos? Quem? Sim, mas nosso fotógrafo almofadinha não está nem aí para aquele braço de guitarra ainda vibrando, e o espectador ri quando ele, nosso fotógrafo presunçoso, o joga na calçada, sem remorso algum. Há algo aqui também, e você não deixará de perceber isso.

Como perceberá também que aquele fotógrafo que poderia ter o que quisesse não tem o que mais quer, agora. Seus ombros caem. Seu rosto denuncia o quanto pode existir de humano em um fotógrafo arrogante. Londres está amanhecendo. Uma trupe de artistas passa por ele. Celebram o segundo que se vai agora, agora e agora. Param o carro e entram numa quadra de tênis. Com uma bolinha imaginária, a dupla, um de cada lado da quadra, imita dois tenistas atentos a uma partida de tênis. Sem bola. É verdade. Mas emocionante. Os olhos dos artistas que estão do lado de fora da quadra vão                                                                                          para lá 

para cá,

que nem a canoinha do Rosa, acompanhando uma das partidas mais difíceis na vida daquela dupla de tenistas-mímicos. Mas os olhinhos de nosso fotógrafo não estão acompanhando o jogo. Não estão acompanhando o jogo. Não estão acompanhando o jogo. Um dos tenistas, então, joga a bola bem

                                                                                      longe da quadra, chamando finalmente a atenção daqueles dois olhinhos tristes de um fotógrafo, então, não mais arrogante, mas esfarrapado por dentro. Ele finalmente entra na encenação toda e caminha até a bola.

Se você fosse nosso fotógrafo janota, o que faria? Devolveria a bolinha imaginária ao mais feliz grupo de pessoas que já viu ou fugiria dali, levando como um troféu o objeto invisível mais importante da vida daqueles artistas?

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  ilustrações de HELTON SOUTO    

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 44, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio COC-Batatais. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes  a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor deste sítio: TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com; Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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12/02/2017