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Picadeiro de urina / Cobain: 25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind + bonus tracks; literatura brasileira contemporânea

Paulino Júnior

Tem gente que nasce pra fazer o som e gente que nasce pra ouvir. Eu me contento em ouvir. Embora já tenha feito. Faz tempo, na época em que eu tinha uma camiseta igual a do Kurt Cobain na foto de uma revista com a letra traduzida de Territorial Pissings. Quase ninguém se ligava na ilustre sósia que virou o meu uniforme, mas eu não apenas a vestia, eu a carregava feito um patuá. Um rolê com ela e eu já não pertencia mais ao mundo ordinário. Quer dizer, eu continuava nele, mas com o encanto de resistir, como se fechasse o corpo e fosse transportado para um videoclipe.

Isso foi quando eu era um Alienígena – literal e metafórico – e sequer existia Internet. Demorei quase dois anos entre ouvir falar em Sex Pistols e ouvir Sex Pistols. Conheci Ramones pelo Mondo Bizarro num K7 que o camelô trouxe do Paraguai. Perguntei se não conseguia mais de som pesado e ele arranjou o Black do Metallica, o Arise do Sepultura, e o Nevermind. Essa era toda minha coleção (mais uma coletânea do Raul Seixas) quando eu tinha treze, quatorze anos. Morava com minha mãe no conjunto habitacional e trampava numa firma de instalação de campainhas e alarmes.

Aprendi a tocar violão na igreja. O professor voluntário conhecia alguma coisa e me deu uns toques na formação de acordes, além de me vender uma guitarra Jennifer no bagaço. Juntei um pedaço do salário com uma graninha que descolei e deu pra comprar um pedal de distorção de segunda mão. Acabei trombando com um cara que estudava à noite também, que fazia um barulho na bateria, que conhecia outro que tinha baixo, mas não sabiam tocar direito e... Foda-se! Eu puxava um dó-ré-mi sujão e nós, Os Alienígenas, tacávamos o terror.

“Gotta find a way, a better way, I’d better wait, gotta find a way…”

A necessidade é a mãe das invenções, não é? E eu tinha muitas necessidades e recursos próximos ao zero. Escrevi algumas letras num inglês que aprendi com os encartes dos discos e nas revistas de música que eu folheava nas bancas. Daí eu pedia pro professor do colégio revisar e mandava bala. Quatro canções depois e comecei a viajar que a banda pudesse fazer algum sucesso.

Sei lá, querendo ou não, a gente acaba caindo nesse papo de acreditar nos sonhos, ter o talento descoberto, receber propostas. Ainda mais quando a gente tem como ídolo um cara que veio de baixo, quebrado de grana e filho de pais separados. Coisas assim, que faz a gente se identificar e achar que pode ter uma trajetória de ídolo também.

“Tenho que encontrar um caminho, um caminho melhor, melhor esperar, tenho que encontrar um caminho...”

Encontrei há pouco tempo na Vicious – a loja especializada em som aqui da cidade – o ex-guitarrista de uma banda de Heavy Metal que fez sucesso relativo nos anos 90. Ele tava de passagem, participando de um curso de capacitação, trajava social e cabelo aparadinho. Foi ele que se apresentou: “Pode não parecer, mas eu toquei...” Então os frequentadores mais velhos da loja (eu incluso) reconheceram o sujeito. Ele se gabou de que o emprego numa grande empresa lhe proporcionava vantagens que a vida musical dificilmente daria. Comprou quase uma dúzia de camisetas e uma pilha de CDs e vinis. Vários títulos de gosto duvidoso no meio, mas que combinavam com o tipo que se esforçava pra passar a impressão de que não levava as coisas muito a sério e que se dava ao luxo de consumir e descartar facilmente. Um emprego financeiramente invejável e um hobby que concedesse a sutil ilusão de sentido na vida, a combinação que parecia formar o segredo simples da felicidade do metaleiro.

Sei bem que o tempo passa e aplica golpes que nos deixam mais duros de um lado e nos amolecem de outro. Então chega o momento de constituir aquilo que a gente tinha convicção ao taxar de “instituição falida”. Se a gente tenta negar completamente o mundo que vive, dá murro em ponta de faca; se a gente se rende, beija a lona. O meio termo poderia ser uma boa estratégia, mas qual seria a linha da cintura entre o meio humano/meio alienígena?

Hoje me sinto bem no meu tranquilo anonimato. Aliás, faço o máximo pra ser notado o mínimo possível a partir do momento em que visto o colete preto com a designação em amarelo nas costas: Segurança. Quem trabalha com gente precisa ter cautela e discrição. Disponibilizo meus serviços para clubes, casas noturnas, bailes, comícios, salões de festa, feiras comerciais e demais eventos que geralmente reúne e mistura todo tipo de gente. Portanto, em vez de ceder à vontade de descer o braço em uns tipos folgados, trato no carisma: “Vamos lá pessoal, sorriem para seu irmão. Todo mundo junto. Tentem amar uns aos outros. Agora!”

Não tenho quem garanta minha segurança depois do expediente. Sou eu por mim no sentido mais implacável do ‘faça você mesmo’. Terminou a festa, me misturo a todo mundo. Saio e sou cumprimentado por quem não tenho a menor ideia: “E aí, segurança, firmeza!?” Aceno com um cumprimento amistoso qualquer e sigo pra tocar a vida com mulher e filho pequeno pra criar. Teve época, inclusive, em que eu saía de um evento e ia pra outro direto, sem descansar, da noite para o dia, de uma whiskeria para um congresso religioso, aqui, ali, acolá...

Foi numa dessas que minha mulher quase me dá as contas. A treta tem a ver com uma bombeira militar que fazia uns bicos de segurança também. Vez ou outra a gente trabalhava junto e um dia ela chegou fardada e eu fiz uma brincadeirinha sobre botas, cinturão, algemas... A bombeira deu corda e eu peguei. Eu não tinha tempo nem pra mijar e ainda fui arrumar um caso extraconjugal. De fato, nunca conheci um sábio que fosse homem. Pior é que a bombeira quis marcar posição e começou a bancar a namoradinha, com mensagens e ligações fora de hora. Ficou difícil apagar o incêndio e a casa caiu.

Por que o amor e o sexo precisam ser tão complicados? Meu pai fudeu minha mãe e deu no pé, deixando uma cria pra trás. Eu posso comer qualquer mulher que não muda o que sinto pela minha. Os homens passam a adolescência inteira babando e sendo esnobado pela mulherada; quando chega a vez delas caírem de pernas abertas em nosso colo, estamos em um relacionamento sério demais para aproveitar sem culpa. Mulheres mentem quando afirmam que desejam diversão e não estão pensando em compromisso...

Só sei que assumi o prejuízo e ainda saí no lucro por não ter levado um pé na bunda. “Escuta aqui, seu filho da puta...” E abaixei a cabeça como uma criança que faz arte, aguentando o desabafo sobre troca de lugares e perda da confiança. Por fim, balancei a cabeça e chorei. Eu andava alucinado, tomando uns remedinhos que circula entre o pessoal para trabalhar feito louco, e não pensava em nada além do pau em riste e uma paixãozinha que dava uma pitada de sabor pra vida.

O filho veio logo depois da confusão, numa decisão nossa. Eu o rejeitei instintivamente no começo e às vezes me arrependo de tê-lo trazido ao mundo. Ainda mais nas ocasiões em que fica doente e atacado da bronquite – transformando minha vida num purgatório perfeito. No entanto, recorro com frequência à lembrança do dia em que nasceu. Paguei o adicional que o plano de saúde não cobre e pude acompanhar o parto. Assim que o bichinho foi retirado do conforto e segurança das entranhas maternas e posto no aparelho que restabelece a temperatura, ele parou de chorar e atacou com uma tremenda mijada territorial. O pinto feito chafariz. É isso!, pensei. Uns nascem pra fazer e outros pra manter, o importante é não deixar a bola cair. Dentro do mundo há o nosso mundo, que precisa ser demarcado, onde se atua mesmo quando encenamos papéis sociais inevitáveis. Dá pra entender aonde quero chegar? É necessário encontrar nosso caminho. Não escolhi estar aqui, mas vou mijar ao meu redor e montar o meu picadeiro de urina.  

Não sei se me faltou dom pra música, mas a natureza foi generosa com meu porte físico. Graças a isso, e ao meu jogo de cintura, encho o estômago da minha família e sustento fantasias. Aliás, também uso terno e gravata na minha atividade e é comum encontrar uns malucos que são músicos e fazem um som, mas precisam tocar em bandinhas de baile e formatura pra pagar as contas. Sempre tiro um sarro deles: “Ei, manda um Seasons in the Abyss ou Holiday in Cambodia pra agitar a galera”.

A gente era muito jovem e eu era o Cobain com meus gritos e sussurros, de calça jeans, camiseta e Jennifer estropiadas. Guardei a passagem de ônibus da primeira vez em que tocamos fora da cidade sem colocar a mão no bolso. Não teve cachê, mas teve passagem de ida e volta, rango, e pernoite em colchão encardido num ginásio de esporte. Nem sei onde foi parar a recordação com data e horário de embarque, que guardei na esperança de que um dia pudesse mostrar em uma entrevista.

E quando Os Alienígenas pensaram que fossem tocar em lugares diferentes e decolar, fiquei sem emprego. Deduraram que peguei dinheiro no caixa da firma e o pior é que chegou ao ouvido da minha mãe. Eu morava debaixo de seu teto, ela que me educava, então eu tive que abaixar a crista, dar um tempo de tudo e arranjar outro trampo. Sem dinheiro, sem sorte e, quem sabe, sem talento... Depois disso, brochei. 

Sempre que bebo um pouco mais e entro em crises de melancolia, mando um Nevermind pra cabeça. Tenho lembranças anárquicas para o bem e para o mal. Mas ouço em outras ocasiões também. Ontem, assim que entramos no carro, notei que minha mulher havia vestido nosso filhote com uma camiseta listrada que lembrava a do Kurt, girei a chave na ignição e automaticamente o toca-CD retomou a faixa que tocava na véspera, abaixei um pouco o volume e seguimos pra emergência pediátrica ao som de Territorial Pissings – “Gotta find a way…” –, a mais punk do disco.

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i.l.u.s.t.r.a.ç.ã.o. d.e. Rodrigo Caldas

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PAULINO JÚNIOR (Presidente Prudente/SP, 1979) é autor de Todo maldito santo dia – selecionado no Edital Elisabete Anderle (Fundação Catarinense de Cultura) e premiado pela Academia Catarinense de Letras como ‘Melhor livro de contos publicado em 2014’. Foi um dos convidados do 5º Festival Nacional do Conto e participou do e-book Cisco – produzido especialmente para o evento. Ainda em 2015, lançou o livro-conto Bife a cavalo para a coleção Coice de Porco (Butecanis Editora Cabocla). Atuou como cronista semanal no jornal Notícias do Dia de 2014 a 2016. Seus contos figuram em coletâneas, antologias de concursos literários e diversos periódicos – Cobain; O outro lado da notícia; Histórias de Trabalho; Revista Coyote; Jornal Cândido etc. Vive em Florianópolis desde 2005 e sobrevive afiando faca e tesoura.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar Cheek to Cheek com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

 

  • 07-Territorial Tiss Pissing's

29/01/2017