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Nirvana literário / Cobain: 25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind + bonus tracks; literatura brasileira contemporânea

Haron Gamal

Inspirado nos 25 anos de lançamento do álbum Nevermind, do Nirvana, o livro Cobain traz, como revela o subtítulo, "25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind + bonus tracks". Organizado por Sérgio Tavares, vem a público em E-book, fazendo homenagem à famosa banda cujo líder, Kurt Kobain, acabou por se tornar uma lenda no mundo do rock. Cada conto é antecedido do título de uma letra do grupo, servindo de motivo ou inspiração para a narrativa a seguir.

Não sou especialista em música nem em rock, mas creio que não é preciso muito conhecimento em relação às muitas bandas surgidas no final do século XX para reparar nos contos uma intensidade poucas vezes observada em antologias desse tipo. Os temas são os mais variados, partindo, sobretudo, do abandono, dos conflitos em que estão inseridos todos os seres humanos, passando por relacionamentos amorosos, crises existenciais, loucura, nostalgia em relação à juventude perdida e afirmação da sexualidade, ou da homossexualidade.

Já no primeiro conto, Essa coisa de máscara, de Bruno Liberal, percebe-se a violência imanente ao masculino contra aquele que não se identifica com ele. Alguém usando uma “máscara”, busca (ou esconde) a própria identidade, “caminha cantando baixinho com os lábios finos e apertados a música que embalou seus desejos”, mais adiante o narrador acrescenta “mas os meninos estão do outro lado e esperam e se espalham para pegá-lo.”

O segundo conto, Como aprisionar um duplo, de André Timm, vai na mesma direção. Um jovem narra as aventuras e de desventuras do pai, mas não deseja ser como ele. No final, assim como no primeiro conto, há a presença do espelho, o garoto olha-se e despede-se do ser que foi até então, prometendo-se um novo ser humano dali a pouco: “despedi-me de meu corpo e olhei uma última vez para o reflexo à minha frente, dando adeus ao homem que morreria para que eu florescesse.”

Nick na Sombra, de Moema Vilela, é uma narrativa onde predominam as loucuras e o amor na juventude, espelhando o desvario de um grupo de amigos, “Pergunto onde estão os outros e o Igor inclui na música da taturana, canta: De um sonho eu acordo e onde estão os meus amigos?

Cachorro correndo sem cabeça, de Alessandro Garcia, empresta muita violência para contar a história de uma menina, o que não desmerece a narrativa, mas serve para lhe dar o máximo de pungência. É também digna de nota a estrutura do conto, com vários tempos misturando-se e alternando-se o foco narrativo. No final, uma das personagens diz: “Sabe, Romero, essa história é uma daquelas histórias tão escabrosas, uma coisa que se você contar para você mesmo vai parecer só como uma lembrança, uma coisa que você viu num filme, escutou numa música”.

Picadeiro de urina, de Paulino Júnior, introduz um personagem que retorna ao passado por meio das próprias lembranças para reviver uma juventude em que as coisas não deram muito certo para ele. Mas o protagonista não olha isso com tristeza: “Tem gente que nasce pra fazer o som e gente que nasce pra ouvir. Eu me contento em ouvir. Embora já tenha feito. Faz tempo, na época em que eu tinha uma camiseta igual a do Kurt Cobain na foto de uma revista com a letra traduzida de Territorial Pissings.” O personagem, já num presente em que sua profissão é ser segurança de eventos, lembra os dias que se passaram: “Isso foi quando eu era um Alienígena – literal e metafórico – e sequer existia a Internet.” O texto é um dos que transmitem nostalgia, saudades de um tempo que o personagem gostaria que acontecesse de outro modo. “Sei lá, querendo ou não, a gente acaba caindo nesse papo de acreditar nos sonhos, ter o talento descoberto, receber propostas. Ainda mais quando a gente tem como ídolo um cara que veio de baixo, quebrado de grana e filho de pais separados. Coisas assim, que faz a gente se identificar e achar que pode ter uma trajetória de ídolo também.”

Lounge act, de Flávio Torres, mostra um casamento fracassado, em que a mulher, por meio da beleza e do requinte num jantar que prepara para o marido, tenta recuperar a atenção que lhe falta. O final, porém, surpreende o leitor.

Proibido mentir, de Anderson Fonseca, aventura-se pela ficção científica. Ambientado em 2083, as pessoas estão conectadas permanentemente e, para burlar a fiscalização das autoridades que regulam um sistema capaz de controlar a tudo e a todos, um personagem transgressor encontra-se em sérias dificuldades.

História interessante, já na segunda parte do livro (bonus tracks), é A nova onda, de Delfin, narrativa em que predomina uma espécie de realismo mágico. Um homem, numa situação inusitada, encontra uma fada. Ela tem um dom todo especial, que vai prendê-lo e torná-lo seu amante. Mas nada sai de graça. Uma questão para pensar sobre a vida em sociedade, relacionamentos e o nomadismo de algumas pessoas no mundo de hoje.

O sorriso e o eletrochoque, de André Tartarini, trata da solidão e da loucura. A enfermeira-chefe de um manicômio mantém uma paciente sob custódia. Seu objetivo é manter relações sexuais e de poder com a vítima. O conto, entre outras possibilidades de leitura, revela uma forma de fugir da realidade e discute o labirinto em que se encontra a maior parte dos seres humanos.

Árvores do cerrado não dão sombra, de Débora Ferraz, descreve uma pessoa num hotel à espera da partida. O conto, no entanto, envereda por vias kafkianas. A personagem não consegue embarcar, circulando entre a portaria e seu quarto, num percurso interminável.

1993, de Maikel de Abreu, fala sobre os amores adolescentes. Num último dia de aula, um garoto consegue acompanhar Francesca, aluna bonita e admirada por ele. Ao voltarem os dois para a casa dela, o rapaz descobre que a fisionomia de um homem doente espelha no próprio rosto a fisionomia da filha. Uma forma de refletir sobre o futuro e sobre a passagem do tempo.

O último conto do livro, Love, de Alexandre Nobre, traz uma agradável surpresa. Ambientado, na maior parte do tempo, numa agência bancária, a narrativa relata um amor platônico e a consequente tentativa de aproximação da mulher amada. Mas o protagonista esbarra numa realidade paralela. Ótima ideia para pôr em questão o enlouquecimento produzido pelas doentias relações econômicas e sociais. Dizer apenas isso sobre esse conto, no entanto, é muito pouco.

Num livro desse tipo, fica difícil falar sobre todas as narrativas. Umas são até mesmo muito longas, ultrapassando o limite do que pode ser considerado conto. Mas não há nada a perder, por meio dos relatos acima, o leitor já pode perceber o que o espera.

Os mais caretas que não reclamem. Não poderia ficar de fora, quando se trata de obra literária inspirada em Cobain e no Nirvana, os paraísos artificiais (as drogas), sempre a perturbar ou, quem sabe, a alimentar o gênio dos grandes artistas.

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Cobain

25 contos inspirados

Em 25 anos do álbum Nevermind

+ bônus tracks

Organização Sérgio Tavares.

E-book: baixe aqui. É gráti$.

 

+++ Ilustrações de HELTON SOUTO +++

 

HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto

 

  • 01-Smells Like Ten Spirit

15/01/2017