)Contos(

Guilhotina / literatura brasileira contemporânea

Demétrio Panarotto

Ele se sentiu como se a cabeça tivesse sido separada do corpo, apenas isso, ou isso. A impressão era de uma experiência única! De que nunca havia passado por isso antes, imaginava que não. A cabeça, em uma cama, uma bicama, sofá-cama ou coisa do tipo, estava encostada em um travesseiro e procurava com os olhos (que pareciam alegres e saltitantes), na beirada dos buracos das ventas, a outra parte do corpo que estava estirado no chão. Guilhotina, pensou. Guilhotina, guilhotina, guilhotina... - a palavra passou pela sua cabeça algumas vezes. Lembrou-se de que no século XIX era comum as pessoas serem guilhotinadas em praça pública; em outros séculos também. Não obstante, os ignorantes da época, que se perpetuam no poder com práticas e discursos muito parecidos, argumentavam que essa era a morte dos sonhos de todo o condenado, mais precisa, cirúrgica, menos dolorosa. Da cama lembrou de um livro da Eliane Robert... -  e esqueceu o restante do sobrenome - que falava sobre isso. O livro estava sobre o balcão - essa presença precisa do livro ao alcance dos olhos deve ser coisa do narrador -, outros por cima fazendo peso. Ele forçava o olho pra ver o nome, 'o corpo...' humm... mas não conseguia. Os livros se encontravam na transversal, meio bagunçados, em um ângulo que as letras pareciam embaralhadas ou ele já não conseguia mais percebê-las como de fato eram, e precisava se contentar com o título e o nome da autora pela metade, como se também tivessem sido guilhotinados. Sim, livro e guilhotina parecem palavras que combinam por ocuparem um espaço de trabalho comum, ou dão a impressão (ou pós impressão) que combinam. Teve vontade de pegá-lo, mas percebeu que isso não era possível. Sem contar que se distraiu fácil; mudou o interesse. Isso aconteceu no momento que, enquanto os olhos estavam acesos, percebeu que a língua havia perdido a aderência; estava com sede, muita sede, com a garganta seca. Naturalmente, uma parte da garganta seca; sobre a outra parte já não tinha mais controle. Mas em algum momento, alheio a falta de sobriedade dos fatos, ainda achou que poderia controlar o corpo do sofá - o ser humano, mesmo em estado de desconforto, não perde a mania de querer comandar as coisas. Aí emitiu os comandos para que a outra parte do corpo se levantasse, fosse até a cozinha e pegasse um copo d'água, ou melhor, um copo d'água com açúcar; precisava se acalmar. Percebeu, no desenlace recente, que havia ficado ligeiramente tenso e que necessitava (e com certa urgência) de água com açúcar. A outra parte do corpo, ali estirada e parecendo que já se decompunha, aceitou os comandos, levantou-se de modo atabalhoado e seguiu a ação. Foi bem aí, quando a parte do corpo desapareceu no corredor que levava até o cômodo vizinho, que considerou que não haveria problemas de viverem separados. As partes ainda se entendiam. A outra parte do corpo não demorou muito e retornou com o copo de água na mão esquerda; depois de se aproximar da cabeça, passou o copo pra a mão direita, e mesmo que tremesse bastante, conseguiu manter a água minimamente no copo. Deve ter derramado um pouco no trajeto, isso não importa. Ao chegar no ponto exato que dava conta do comando, um pouco pra lá, um pouco pra cá, um pouquinho pra esquerda, esticou o braço e o encaixou na boca. A água, óbvio, enquanto a cabeça nem bem tinha terminado de fazer glu glu glu, escorreu pelo sofá e molhou os pés; e o moço, talvez se sentindo  novamente um só, ficou irritado; não gostava de sentir os pés molhados desse jeito, mesmo que de modo separado. A cabeça, depois de se babar e de se balançar negativamente para anunciar que não estava gostando da maneira como a cena se organizava, reclamou de que aquilo poderia molhar, ou sujar, nem a cabeça foi convicta na sua afirmação, a casa toda. Havia, ainda, por parte da parte especificamente pensante da cabeça, mesmo diante do acontecido, uma preocupação com o de sempre, com aquilo que vem da ordem das aparências. Tic nervoso, ou toc, sei lá. Afinal, as visitas, num dia como o que segue, poderiam ser as mais inesperadas possíveis e a casa precisava ao menos estar arrumada. E se a polícia chegasse?, e os enfermeiros?, e se quem entrasse se deparasse com a casa bagunçada? não sei de onde vem esse tipo de preocupação, ainda mais quando o corpo parece entregue àquilo que o distancia  paulatinamente da ordem, ordinária, da vida. Urra... A casa já estava toda ensanguentada mesmo. Talvez a cabeça, por causa do ângulo em que se encontrava, não percebesse; e a preocupação, afinal, não passava de uma tentativa de manter as coisas onde elas não cabiam mais. Há momentos que as medidas que montamos para as nossas vidas, entre o querer e o não querer, servem apenas até um determinado período, depois não fazem mais sentido algum. A parte do corpo, aquela que devia aceitar os comandos, em um gesto de repúdio, contrariada, de saco cheio, se rebelou e voltou a se deitar no chão. Não era birra, ou parecia que não. Outros comandos, del capo, foram emitidos, mas não foram aceitos. Cinco minutos se passaram, seis talvez, talvez um pouco mais, e os médicos chegaram ao local na esperança de que ainda poderiam fazer algo. Arrombaram a porta. Ninguém sabe quem os avisou e não se descarta a possibilidade de ter sido a própria vítima. Vendo o corpo no estado em que se encontrava, simplesmente o cobriram e o conduziram na maca até a ambulância. Dois moços para carregar a maca e outro para segurar a cabeça para não rolar. O moço, enfermeiro, encarregado de segurar a cabeça, se visto através de uma câmera distante, parecia que mexia o quadril toda a vez que a cabeça, diante da correria dos maqueiros, desencaixava do espaço que lhe cabia. Foi isso. Depois das primeiras investigações feitas pela polícia, o procedimento, no necrotério, foi pensar em uma solução rápida para que a cabeça ao menos voltasse a se conectar com o resto do corpo. Precisavam visualmente torná-la apresentável dentro do caixão para o velório e os cortejos fúnebres. O corte, vale considerar, havia sido cirúrgico; quem o fez tinha a mão boa, firme, precisa. A arma usada, que não havia sido encontrada, também devia ser de boa qualidade, mas tudo isso não passava dos primeiros passos dados pela investigação. O recurso usado, na luta para manter as aparências, foi acomodar o corpo e a cabeça no caixão e disfarça-lo com um cachecol cor gelo - era o único disponível para o momento. A cabeça, durante o velório, parecia que continuava contrariada, dava a impressão que não estava confortável, se mexia sempre que podia; e os pés - (se é que preciso dizer) na outra extremidade do caixão -, também contrariados, volte e meia mexiam os dedos para se livrar da sensação de umidade que os tomava.

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Ilustrações de yandara de moura

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DEMÉTRIO PANAROTTO nasceu em Chapecó-SC, em 1969. É doutor em literatura, professor universitário, músico e escritor. Publicou, dentre outros, Poema da Maria 3D [Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book], Ares-Condicionados [Nave Editora, 2015, contos], A de Antônia [Miríade, 2016, infantil], No Puteiro (Butecanis editora cabocla, 2016, poemas). Vive em Florianópolis-SC.

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YANDARA DE MOURA, cidadã da terra faz 21 anos, artista plástica que viaja pra tentar decifrar as paisagens em seus quadrinhos a óleo, rabiscar prédios no seu caderno e ser espelho nos olhos de quem não vê.

  • 15 Sangue de Bairro

18/11/2016