)Contos(

Corrida silenciosa / literatura brasileira contemporânea

Cristian Luis Hruschka

Apenas de cueca entrou no quarto iluminado por uma réstia de luz que atravessava pequenos buracos do blecaute. A noite era quente. Suava no peito e axilas. Parou diante da cama observando a mulher dormir. A camisola curta deixava a calcinha à mostra. Uma peça pequena, com diversos ursos sorridentes, vermelhos, gordos, que flutuavam de braços abertos. Mesmo sentindo que havia vida abaixo da linha da cintura, absorvido pela paisagem, não desejou sexo ou outra aventura. Tinha os pensamentos no dia que estava para raiar, na reunião agendada para o início da manhã.

O relógio sobre o criado-mudo marcava três horas da madrugada. Não tinha pregado o olho. A aflição consumia seu raciocínio e deixava o ambiente ainda mais quente. A sudorese aumentava; gotas escorrendo pelas canelas. Olhava estático para os ursos vermelhos flutuando na calcinha.

Voltou para a sala. Ligou pela enésima vez a televisão. Transitava pelos canais sem conseguir concentrar-se em nada. Religiosos abençoando água. Um e outro filme erótico, desbotado, brochante. Reprise de jogos que já sabia o resultado. Levantou, caminhou até a cozinha. Abriu a geladeira. Nada que interessou. Um pedaço de pão retirado do microondas foi suficiente para matar a vontade de comer alguma coisa. Seco e duro. Pensou em beber um gole de uísque para desgrudar o farelo preso na garganta, mas isso implicava em pegar a garrafa escondida na área de serviço, no armário sob a pia. Era necessário abrir a porta da lavanderia, permitindo seu cachorro sair correndo e acordar a esposa no quarto. O animal acredita que toda vez que abrem a porta é para ele comer. O bicho só comia e dormia. Não suava.

Vagou pelo apartamento de um lado para o outro após desistir do trago. Não tinha certeza se a estratégia tomada era a mais adequada. Tinha receio de como os investidores iriam digerir a notícia que daria aos clientes na manhã que chegava. O tempo é implacável. Sentou novamente em frente à televisão. O volume baixo. De maneira lenta a noite dava lugar ao amanhecer daquele dia fatídico. Olhou para a sacada e avistou sobre um vaso, do qual surgiam folhas disformes de uma planta ornamental qualquer, cultivada pela esposa com cuidado, seus tênis de corrida. Com a madrugada esvaindo, entendeu que devia correr para tentar aliviar a tensão, mesmo insone.

Voltou ao quarto arrastando os pés descalços para não fazer barulho. Os ursinhos ainda flutuando na calcinha, cada vez menor no corpo da mulher, continuavam sorrindo. Abriu o armário, retirou um calção e uma camiseta. Vestiu-se na sala e saiu tomando o corredor do prédio. Enquanto aguardava o elevador ouviu tocar o telefone em outro apartamento. Um chamado insistente para aquela hora.

Já na rua, regulou o relógio procurando marcar tempo e distância. Oito quilômetros em cinquenta minutos seriam ótimos para afastar da cabeça o compromisso agendado para as nove horas. Daria tempo suficiente para voltar em casa, tomar um banho quente, comer algo e partir para o confronto da vida corporativa.

Na calçada quebrada e com buracos, iniciou um trote leve. A ideia era aumentar o ritmo de maneira progressiva, tornando a reduzir no final. Saiu na direção contrária do trânsito. Ao passar pelo casarão da rua ao lado do prédio, tornou a ouvir o toque de um telefone. Parou. Olhou para a casa que permanecia adormecida. Janelas com cortinas cerradas. A porta silenciosa, certamente fechada com uma tramela antiga. Jardim mal cuidado e sujo do barro que a chuva do dia anterior ajudou a formar. Chacoalhou a cabeça, sorriu sozinho, continuou no passo firme.

Passou pela rua Martin Luther e contornou a prefeitura sentido XV de Novembro. Antes de cruzar a via voltou a ouvir o toque de um telefone. Com a cidade deserta em razão do horário, parou novamente a corrida. Sentindo certo cansaço, imóvel, permaneceu ouvindo o toque ritmado do chamado. Fechou os olhos, concentrou-se no som repetitivo. Tornou a olhar e localizou um orelhão ao lado do relógio de sol, próximo da praça Victor Konder. Caminhou até ele. O toque persistia no seu compasso. Postou-se em frente ao aparelho. Olhou ao redor, duvidoso. Quando deitou a mão no telefone os toques cessaram. Mesmo assim tirou o fone do gancho e chamou por alguém do outro lado da linha. Não teve resposta.

Incomodado, começou a estranhar a situação. Sentia-se observado. Tinha o pressentimento de que algo ruim estava para acontecer. Lembrou do compromisso profissional e começou a correr em velocidade acelerada na tentativa de afastar qualquer pensamento desastroso. A cada passo via o semblante das pessoas que seriam afetadas pela notícia que daria na reunião. Toda comunidade seria atingida. Sua ação causaria grande impacto nas relações comerciais e humanas. Investimentos seriam cortados e a dor pelas perdas causaria espanto na população. Correndo, observava sua imagem refletida na vitrine das lojas. Tinha de melhorar a postura para poupar energia e ganhar força nas passadas. Quando os pensamentos agourentos esvaiam-se, ouviu novamente um telefone tocar. Não deu bola. Pouco adiante, defronte a uma lanchonete, outro telefone chamou. E assim os toques iam se sucedendo. A cada local que passava escutava algum telefone chamar. Tocava e parava, de maneira insistente, perseguindo-o. Aquele sentimento agoniante estava dominando-o. Acelerou o passo para chegar em casa.

Assim que entrou no prédio ouviu o telefone da zeladoria chamar. O barulho ritmado tomava conta do hall, preenchia o ambiente anunciando um desastre. Quis atender, mas, ao aproximar-se do aparelho, o chamado cessou. Correu para o elevador, ao entrar ouviu o telefone reiniciar seu toque, silenciando conforme os andares iam sendo vencidos. Quando abriu a porta do apartamento viu a mulher. Ela estava de costas. Os ursinhos da calcinha permaneciam flutuando no pequeno pedaço de tecido. Falava com alguém e acabara de colocar o telefone no gancho. Virando-se para o marido disse que a ligação era para ele. Sua reunião estava adiada.

+++

   i.l.u.s.t.r.a.ç.ã.o.   d.e.   r.o.d.r.i.g.o.   c.a.l.d.a.s.   

+++

Cristian Luis Hruschka. Advogado e professor, reside em Blumenau (SC) desde junho de 1994. Possui crônicas e contos publicados em antologias literárias. Responsável pelo site www.resenhas-literarias.blogspot.com.br. É autor do livro “Na Linha da Loucura” (Ed. Minarete/Legere, 2014). E-mail: clhadv@hotmail.com.

+++

Rodrigo Caldas nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar Cheek to Cheek com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

  • 01-band_of_horses-is_there_a_ghost

14/10/2016