)Contos(

O roubo do colar de pérola azul turquesa / Nova literatura brasileira

Luana Mendes Garcia

Numa noite fria e chuvosa em Londres, Mr. Bruno Byron estava em seu escritório, em um velho prédio no centro da cidade, quando de repente o telefone toca. Ele atende no primeiro toque, sua voz sai rouca, com timbre forte. Fazia tempo que não recebia ligações inesperadas assim. Do outro lado da linha ouvia-se apenas a frase: "Mr. Byron, por favor me encontre na rua Prince, número 20. Essa rua fica ao lado da Tower Bridge. Peço que chegue em vinte minutos." Byron era um jovem detetive particular, alto, forte, cabelos castanhos; usava óculos, vestia-se sempre com terno cinza, sapatos italianos e não gostava de usar chapéu, como os outros detetives. Entrou em seu carro e dirigiu até o endereço informado; desceu do automóvel e arrumou o terno. Mal tocou a campainha, logo a porta abriu-se e apareceu o mordomo. “Vou levá-lo direto ao escritório”, disse. O detetive não compreendeu nada do que estava acontecendo naquela casa. Não teve nem tempo de se identificar. “Sente-se. Vou explicar toda a história ao senhor”, disse uma voz feminina na sala escura. “Carlos deixe-nos a sós. Por hoje, não precisarei de seus serviços”. Automaticamente, o mordomo retirou-se da sala.

“Boa noite, Mr. Byron. Obrigada por atender meu pedido tão rápido. Meu nome é Francine Angie. Sou duquesa na cidade de Paris. Esta casa pertence à minha família. Estou aqui em Londres para contratar seus serviços particulares como detetive. Sou herdeira de uma grande fortuna. Temos negócios com pedras preciosas em vários países. Há anos minha família tem tradição no ramo de fabricar joias de alto valor. Estava em minha mansão na França, semana passada, sozinha, quando dei por falta de uma joia que pertenceu à minha mãe. Recebi de herança, após a morte de meus pais, há dez anos. É de altíssimo valor. Seu modelo é exclusivo. Não existe outra igual. Achei estranho, pois não senti falta de nenhum outro objeto de valor na casa. Meu mordomo, Carlos, estava aqui em Londres e as portas, sem sinais de arrombamento. Sinceramente não entendo o que aconteceu”.

“Mrs. Angie, terei que ir até a sua mansão em Paris para investigar o caso. Telefonarei dando informações do que descobrir”. Mal se despediram e o detetive ficou pensativo: por onde começaria a buscar pistas do sumiço da joia? Decidiu fazer a viagem de trem até a cidade-luz, porque montaria o caso em sua cabeça. Mr. Byron não conseguia esquecer o rosto da jovem senhorita rica, e que interesse a pessoa teria em roubar apenas aquele colar de pérola azul turquesa, e não outro objeto, como dinheiro, quadros, ouro? Durante a viagem, imaginou várias hipóteses do acontecido. Não demorou muito e logo chegou ao local onde fica a residência da moça. Ela havia lhe entregado todas as chaves da mansão e segredos do cofre das joias. Ao entrar na sala deparou-se com um quadro enorme da família Angie. Havia uma pequena menina de traços angelicais e outra criança com traços mestiços, enquanto um casal muito sorridente parecia feliz na foto.

O detetive não parava de pensar na beleza de Mrs. Angie: como é linda, olhos azuis penetrantes, cabelos longos e loiros, alta, magra. Meu Deus, não posso desviar meus pensamentos. Foco no caso, Byron! Dirigiu-se até o cofre onde ficava o colar guardado. Com sua lupa e luvas examinou todo o local na procura de alguma pista, digitais, fios de cabelos, marcas de sapatos... De repente, ao olhar na direção da janela, achou algo estranho que lhe chamou a atenção: um broche da marinha britânica. Examinou-o de ponta a ponta. Ligou para a jovem e contou o que havia encontrado até o momento na mansão.

“A senhora recebeu alguma visita em sua casa por esses dias? Porque encontrei algo caído perto da janela. É a única pista que tenho”.

“Não, Mr. Byron, ninguém nos visitou por esses dias”, a moça respondeu. “Estou voltando hoje mesmo para Londres, minha senhora”.

Na mesma tarde regressou a Londres. Foi diretamente para a casa de Mrs. Francine, que o esperava ansiosamente. “O senhor voltou cedo demais. Esperava notícias apenas amanhã”, disse. “Minha senhora esse foi o caso mais fácil que solucionei em minha carreira de detetive. A joia nunca sumiu da mansão em Paris. Apenas estava no lugar errado. Ao invés de estar guardada no cofre, como de costume, estava atrás da cortina do quarto onde fica o cofre. Encontrei esse broche caído ali perto. Você o reconhece?”

“Nossa! Não acredito! Eu estava usando esse broche na noite do sumiço da joia”, informou Francine. Mr. Byron respondeu sorridente: “A senhora bebeu vinho naquela noite. Achei uma taça vazia no local também. Mrs. Angie, a senhora apenas se esqueceu de guardar a joia no cofre como de costume”.

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ilustração de HELTON SOUTO

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LUANA MENDES GARCIA nasceu em 1984, em Ribeirão Preto. Gosta de filmes, cinema, música e literatura. Desde os 15, escreve pequenos contos. Adora passar os finais de semana com a família. Sua grande paixão é estar com os sobrinhos. Autores preferidos: Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Vinicius de Moraes, José Saramago, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mary Shelley e Edgar Allan Poe. No Facebook: Luana Garcia.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 03 Azure Blue

11/09/2016