)Sarau(

Quatro vãos entre dedos / poesia; poesia brasileira contemporânea;

Gabriel Pinezi

"Agora a perda, por mais cruel que seja, nada pode contra a posse: completa-a, se quiserdes, afirma-a: não é, no fundo, senão uma segunda aquisição - desta vez totalmente interior - mas igualmente intensa"

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

 

 

 

 

I

 

Yes, you're right,

there is some kind

of sleeping devil,

os olhos retorcem-se

e desafiam-te, falta a

palavra e trava-se a

língua, a áspera

infância te amarga

o céu da boca.

 

Há perguntas

que o ouvido pesa

e não responde.

 

O ar cheio em teu pulmão

se esvai sem que

possas retê-lo

 

e entre dedos

te escapa

o mundo

 

enquanto lambe-te

a face teu

cão morto

 

e em ti desabrocha na sombra da carne a serpente da árvore a narrar o mito arcaico de teu sangue rasgado em sacrifício a deuses judaicos sobre o altar de teus próprios filhos ainda não nascidos no fio da adaga insistente de uma fera longamente solitária na agonia de sangrar-se inteiro a esperar uma vez sequer pelo batismo no rio de palavras a afogar-te no dilúvio fantasma da ressurreição;

 

tudo que tenho

é ausência,

 

mas nem ela

me cabe na

mão.

 

 

II

 

De ti só sei a distância

e o mistério.

 

Quão longe o nós

por-vir, escuro vivo

em tato e sombra.

 

Os teus traços, sei bem,

são de imagem, e

se fazem com pele

na dureza do

éter;

 

teus olhos são de

sonho e, como

pedras, fotográficos;

 

neles Deus

Se esconde,

opaco a

insinuar-Se.

 

Tens o peso

das sombras,

(tua voz, a vejo, é de chumbo)

e teu cheiro

é denso feito

a luz;

 

te enxergo na noite

a fechar-me os olhos

com mãos nuas:

 

a imagem da carne

a convidar-me para

a carne sem imagem.

 

 

III

 

Ela é tudo

e mais

que mais;

 

veste-se

em asas

e anéis,

na nudez

do desejo.

 

O que é simples

nos deuses:

querer

mais que si

e ser ainda

o que não

basta.

 

Coração

que penumbra

na sombra

da carne.

 

Tudo nela é

corpo,

mesmo

a alma

a ebulir-se;

 

o mundo

condensa-se

e revolta-se

ao dela em

torno.

 

O fogo que trans-la

nela em translação.

 

No céu

da boca

se língua

a Terra

em chamas.

 

Tudo nela é grave.

 

A mais leve

gravidade.

 

 

IV

 

O que falta

, como sempre,

é o impossível:

 

ter dedos mais longos

e a voz barítona, partes

do corpo a soltar-se

dos ossos, extrair a alegria

em esporos, fendê-la

de si, madrugada adentro,

pelo toque invisível

da língua;

 

lá fora a noite se adensa

entre os prédios,

ainda clara;

 

e em mim, esta noite tenra

na ânsia de escapar-se.

 

O poema pertence à angústia

do sol não haver

agora.

 

Dizer o amor

é traí-lo,

que dele não

se aproxima

a palavra;

 

mas resta

a tarefa infinita

de falar, ainda,

disto que

falta.

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       ILUSTRAÇÕES            DE             helton souto                               

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(As ilustrações também compõe a vídeo-animação COR., de Helton Souto, 2016)

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Estas partes, I, II, II e IV, pertencem ao poema Entre dedos, a ser publicado futuramente pelo autor.

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GABRIEL PINEZI nasceu em Ibitinga, interior de São Paulo, pra não ser grandes coisas na vida. Fez doutorado, mas na família é o menos dos doutores, segundo decreto de D. Pedro II. Gosta de teoria literária, daquelas originais, e pensa em dedicar a vida a escrever, ainda que não encontre formas de financiamento. Seu pai lhe pergunta pra que que serve sua vida de forma velada, toda vez que volta pra casa. Às vezes pensa em largar tudo, sair por aí, atrás de algo que não seja quantificável. Por preguiça, continua o mesmo, ainda que sonhe com outro de si mesmo. É um místico num mundo no qual Deus morreu. A linguagem lhe ama mais que as mulheres. Mora em Londrina, onde se sente em casa, por acaso do destino. Sabe perder mais do que ter. Pretende publicar um livro impublicável. Tem vergonha de escrever sobre si mesmo. Contato (Facebook): Gabriel Pinezi.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • Portishead-WanderingStar

04/08/2016