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"Asterios Polyp" e a arte da narrativa dos quadrinhos / H.Q.

Jorge Gabriel

Há muitas questões que circulam no gênero graphic novel, ou romance gráfico. Uma delas toca na definição clássica de romance, gênero cuja forma abre margem a outros gêneros e a outras formas dentro do seu discurso, significando-se e ressignificando a matéria que representa, como um catalisador de substâncias do mundo.

Em tempos em que a imagem impera como ferramenta de comunicação e expressão, o romance gráfico encontra lugar certo. Art Spiegelman, Alan Moore, Neil Gaiman, os irmãos Moon e Bá, todos são autores de peso do gênero. David Mazzucchelli permanecia discreto, porém, compondo adaptações como a “Cidade de Vidro”, do escritor Paul Auster. O desenhista norte americano no entanto preparava sua obra fora dos holofotes do mundo dos quadrinhos. Asterios Polyp, quando saiu, em 2009, entrou na lista dos 100 livros mais marcantes do ano pela New York Times.

Asterios Polyp, protagonista que dá nome ao romance, é professor e teórico da arquitetura na Universidade de Ithaca. Suas obras jamais saíram de seus projetos, sendo pois um arquiteto de papel. Um personagem frio e austero em relação a tudo. Conhece Ana na ocasião de uma festa entre estudantes, amigos e prefessores.  Escultora estagiária, que viria ocupar o lugar de professora de artes na universidade em seguida, apaixona-se por Asterios, com quem se casa. Pareceria banal até aí, se não fosse pela inventividade de Mazzuccheli, que se utiliza de um procedimento gráfico particular para dar mais teor narrativo ao mundano da história. Na festa, por exemplo, todos são representados por estilos diferentes, cuja escritura gráfica – se podemos chamar assim tal procedimento – modula-se de um personagem a outro, coexistindo em um mesmo cenário e representando seus conhecimentos de mundo e suas personalidades individuais. Quando Ana e Asterios encontram-se, ele é representado por linhas geométricas frias de cor azul, e ela por linhas e hachuras de cor rosa que dão voz a sua insegurança, sua natureza emocional e sua falta de confiança em si própria, de tal forma que seu personagem não se afirma diante da figura austera de Asterios, até que os dois estilos se interpõem, o azul se superpõe ao rosa, e o leitor vê-se diante da atração que um sente pelo outro.

Esses e outros procedimentos de narrar modulam a maneira com que lidamos com a narrativa da HQ, em que o personagem condensa-se em um herói moderno, que integra o universo clássico e filosófico profundos através de suas ideias de arquitetura e das linhas da escritura gráfica – forma e fundo confundem-se. As ideias de apolíneo e dionisíaco, belo e equilíbrio das formas, mundo sensível e inteligível platônico, mitos clássicos e histórias de romances modernos dão base às ideias de Asterios e à arquitetura do enredo, como se fosse um arquiteto consciente do seu fazer dentro de um outro terreno de expressão.

Por meio de digressões, a narrativa fica retorcida pelo olhar de um narrador que se revela aos poucos na trama. Ignazio Polyp, irmão gêmeo do protagonista, é quem se desdobra como o pintor da vida de seu irmão.  Outro autor-defunto que depena suas memórias no limbo, como o nosso Brás Cubas? Quem é Ignazio Polyp e por que é ele quem trata de contar a vida de seu irmão, uma vez que sequer ele próprio tivera uma vida para ser narrada? Dizem que a ficção também é a realização do possível que se vive no dia a dia, mas o que é o possível para quem nunca viveu realmente?  O silêncio e o branco da página também escrevem histórias e poemas. Outras questões surgem, e o romance de Mazzucchelli é aberto a nossos rascunhos.

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 ILUSTRAÇÃO DE HELTON SOUTO

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JORGE GABRIEL, 28, nasceu em São Paulo e mora atualmente em Batatais, SP. É professor de língua e literatura pela UNESP – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Adora todos os tipos de manifestações da linguagem, sobretudo a literatura. Sua vida plácida e sua maneira de ser o obrigam a falar mais com os gatos que com as pessoas. Tem o imenso prazer de ser colaborador do TERTÚLIA. No Facebook: Jorge Gabriel.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto

 

  • dreaming of me

18/07/2016