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O homem não deve morrer / "O lado imóvel do tempo"; Matheus Arcaro; literatura brasileira contemporânea

Haron Gamal

O lado imóvel do tempo, de Matheus Arcaro, é um romance que se soma aos que discutem o tempo e a existência humana. Começando com uma epígrafe tirada de Platão, “O tempo é a imagem móvel da eternidade”, o autor apresenta o personagem Salvador, homem obstinado em eternizar-se mediante algum feito.

Desde a antiguidade clássica, o passar do tempo já se tornava algo necessário nos debates entre os filósofos, pois a existência se desenvolve dentro dele, tornando-se pequena por maior que seja sua extensão. Para não serem esquecidos, os homens recorreriam a artifícios. Assim surgiu a arte, assim surgiu a poesia, tentativa de imortalizar o poeta, tentativa também de imortalizar aqueles que seriam dignos de serem cantados pelos poetas. A sentença “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio”, atribuída a Heráclito, constata uma concepção de mundo que sempre afligiu os homens. O tempo escoa, a vida é finita e tudo sempre está a mudar. Hoje, tal máxima parece banalizada, mas a angústia existencial continua, talvez, ainda maior. Qual filósofo, nos dias atuais, apresentaria teoria contrária? Como seria o lado imóvel do tempo?

Salvador, personagem principal da narrativa, não pensa muito nessas coisas. A mesma angústia, no entanto, o aflige. É alguém com pouca capacidade para o estudo, como atestou o próprio pai quando recorreu a um parente, membro de uma câmara de vereadores, para que o filho, ainda jovem, ingressasse no Banco do Brasil. Salvador vive sem destaque a mesmice do dia a dia, chegando a tornar-se funcionário padrão em determinado momento de seu percurso profissional. Mas não é isso que o livro retrata, e sim o constante desejo do homem em eternizar-se com algum feito que marque sua passagem pelo mundo. Num momento em que predomina a solidão, a indiferença, a pequenez como consequência da impetuosidade do capitalismo tardio, essa discussão vem muito a calhar. Isso tudo ainda é alavancado pelos instrumentos da cultura de massa, como o jornal, o rádio e a TV, bem explorados na narrativa.

Salvador tenta a literatura, escreve poemas, publica dois livros. Os resultados, no entanto, não saem como ele esperava. Pode-se pensar que é triste escrever esperando pela imortalidade. Deveríamos escrever por gosto, ou, no mínimo, para nos divertir, quem sabe satisfazer a necessidade máxima do ser humano: a criação artística. Embora compreenda o raciocínio, o personagem age pelo lado perverso dessa mesma criação. A marca que consegue deixar, em meio às suas impossibilidades, é uma espécie de arte da perversão. Não escrita com palavras, mas marcada pela morte, por assassinatos em série cometidos com rastros religiosos e extremo requinte.

Os versos que antecedem a maioria dos capítulos, atribuídos ao livro de poemas do próprio Salvador, combinam com o decadentismo existencial do personagem. São poemas que revelam o caráter medíocre da sua existência: “contigo, eternidade, / encontrei-me enfim. / Sentei-me ao teu lado / e senti-me elevado / às profundezas de mim. Ou: “Assim que a vida revela / seus olhos negros, / só resta esconder a lucidez / atrás do pranto.” “A lua só existe em versos graças ao sol.” A metaliteratura funciona bem e se consagra no desfecho.

A narrativa, em sua estrutura, desenvolve-se com dinamismo, mostrando a habilidade do autor numa tessitura textual que prescinde da linearidade, fato importante porque dá ao livro, durante boa parte da história, aspectos memorialísticos. Os flashbacks recuperando a infância, juventude e vida familiar do personagem, pouco a pouco fornecem substrato à atitude que ele toma no momento em que podemos chamar de presente. Não se trata de um livro agradável nem fácil de ser digerido. Aliás, toda boa literatura é perturbadora.

O lado imóvel do tempo nos surpreende, tanto mais no capítulo 43, quando a história dá uma reviravolta. Matheus Arcaro tenta com prosa e poesia capturar este momento único que “o imóvel lado do tempo” pode proporcionar. Não se trata, no entanto, do tempo cronológico paralisado, mas sim daquele momento em que “experimentamos uma epifania”, palavras de Whisner Fraga, no posfácio. É possível tanto ao filósofo, como ao poeta, desejarem-se sempre atores nesse momento máximo de epifania. De acordo com os preceitos da cultura clássica, filosofar ou tornar-se poeta eram caminhos para nos aproximar dos deuses, esses seres portadores da eternidade, mas, sobretudo, reveladores; estar próximo deles seria um modo de compartilharmos sua eternidade e sabedoria.

S.E.R.V.I.Ç.O.

O lado imóvel do tempo

Matheus Arcaro

Editora Patuá,

205 páginas

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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Esta ilustração faz parte do livro de artista O Livro Vermelho, de Helton Souto, 2010/2011.

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 06 - Alucinação

19/06/2016